ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  
Natalia.png

11 Julho 2019 09:53:00

Leitores, nesta semana, um poema, inspirado na poesia "Caso do vestido", do Drummond

(Imagem: Divulgação) /

De angústia não morro mais.

Assassino da minha liberdade, ficou para trás.


Desde que teu pai se foi, filho meu,

Novo frescor veio ao peito.

Acabou-se o avesso-Romeu.


Teu pai era diabo bonito, menino.

Bonito diabo de olhos de mato, filho meu.

Me morria, me matava

E ressuscitava apenas a si próprio, filho meu.


Vê aquele vestido? Ganhei do belo capeta.

Vermelho como o sangue do teu irmão,

Que no parto padeceu, filho meu.

No parto morreu e me morri junto, filho meu.

Chorei aquele vermelho doído.


De consolo, a surra do teu pai, filho meu.

Daquelas mãos traiçoeiras vieram carícias e cicatrizes.

Ele tinha força, filho meu.

Tinha ódio e força, e eu... Eu tenho saudades.


Saudade do dia em que das mãos veio o vestido.

Saudade da manhã que em meus braços segurei o teu irmão

Que já nasceu abatido.

Tinha ódio e força teu pai, filho meu.

Sorria e me encantava.


Quando não bebia era todo brilho aqueles olhos de mato,

Era toda sol aquela boca de primavera.

Sorria e não maldizia, filho meu.

Sorria, ah, sorria.


Perdoe o orvalho que desce por meus olhos, filho meu.

Olhos que não são de mato, como eram os do teu pai,

Mas de dores e saudades, filho meu.

Eu tenho saudades.


Saudade do Belzebu, filho meu.

Saudade das mãos dele, filho meu.

Saudade do mato dos olhos, filho meu.


Saudade da alegria que antecedeu o parto, filho meu.

Saudade do bercinho azul do anjo que está com o Senhor, filho meu.

Saudade do anjinho.


Saudade dos sapatinhos.

Saudade dos pezinhos que já nasceram tão mortos.

Saudade do sangue perdido, filho meu.

Saudade do vestido.



04 Julho 2019 16:13:00


(Imagem: Divulgação) /

Uma cortina de veludo branco, luminosa. A milhões de quilômetros de distância, só pode ser vista com a imaginação. O ser dá o primeiro passo, confiante.

Na sua mente, sabe: o brilho da cortina o fará sorrir. Dá mais um passo, esperançoso.

A cortina estará suspensa sobre uma plataforma e receberá, continuamente, as luzes dos refletores: azul, verde, vermelho, roxo. O ser já consegue sentir: o poder representado pela cortina o fará palpitar. Caminha mais, alegre.

Para o ser, a cortina terá suporte de ouro e na barra pingentes de diamante. Anda ligeiro, sente cheiro de refinamento.

Brilham os olhos do ser; em seus ouvidos, uma rica canção.

O ser corre.

A cortina está próxima, ele não vê, mas sabe, sente; materializa vapores aromáticos ao redor do palco e da cortina. Vapores penetrando o branco. Vapores ricos.

O ser chora. Imenso contentamento pulsa na garganta. Tudo pulsa de um jeito delicioso: pés, pernas, ventre, braços, pescoço, nas costas um arrepio: vai alcançar.

Corre o ser e vislumbra a cortina, neste exato momento recebendo um jato de coloração amarelo-ouro.

A ganância do ser não o faz notar que seus pés estão machucados, que romperam-se ligamentos, que nesta corrida insana degeneraram-se fibras, verdades, sentimentos.

Corre o ser.

A cortina é potente, ele prevê. O que tem por trás dela o será ainda mais. Apressa-se para descerrar o enigma; subir as escadas envernizadas do palco e, num arrebatamento, descobrir o que há logo atrás do mistério luminoso que tão majestosamente domina seus pensamentos.

O ser agora é velho. Passou a vida correndo para alcançar a cortina. Mas não se arrepende: tem as narinas tomadas pelos vapores cheirosos, os pelos dos braços eriçados, que sensação, que glamour!

Aspira: aroma de riqueza, de luxo, ostentações várias.

Chega. Com as pernas trêmulas, para diante das escadas. Sobe. Um. Dois. Três degraus. Pisa no palco. Nem pode acreditar: está no palco. Arrasta os pés detonados com o intuito de se convencer: está no palco.

Suas mãos vacilam. Bem em frente à cortina, hesitam: terá forças para puxar? Terá equilíbrio suficiente para administrar a imensidão da felicidade que recairá, muito viva, sobre si?

Respira. Fecha os olhos. A Cortina, ser! Você está olhando para A Cortina, ser!

Ah, os vapores, tão perfumados.

Abre os olhos. Chora. Pulsa. Treme.

Estende as mãos de dedos pálidos e enrugados. Puxa.

Atônito, fixa o palco.

Não tem nada ali.



27 Junho 2019 13:34:00


(Foto: Divulgação) 

Secura. A pele do rosto muito branca e seca, dedos esturricados pelo contínuo manuseio do papel; olhos secos, não apenas pela ausência de lágrimas catárticas, mas também pelo brilho evaporado. Um cacto sobre a mesa.

Secura. Palavras escassas e frias. No tom transparecendo recortes da aridez interior. Lábios partidos, sequiosos, sôfregos pela tênue hidratação do áspero batom. Um copo vazio ao lado do cacto.

Secura. Atendimento lacônico, nenhum sorriso, nenhum retórico bom-dia, ou boa-tarde; acho que já passa do meio-dia.

Fotocopia meus documentos, carimba, anota, bate em teclas no computador, ruído de impressora, tesoura devorando arestas.

Cadastro efetuado com sucesso. Sucesso do cadastro. Sucesso das securas. Sistema emperrado. Ela retira da gaveta um creme para as mãos. Manteiga de Karité. Aperta o tubo e ele retribui vomitando uma tripa branca, pegajosa, com cheiro de sebo tratado. Dissolve a tripa na palma das mãos, no dorso, nos dedos, as unhas ficam engraxadas.

Com um apito, o sistema retorna. Ela esfrega as mãos. Agride mais algumas teclas: dedos ainda secos, olhos vazios e concentrados num turbulento nada. Brilho evaporado. Ordena outra cópia.

Enquanto a impressora se mostra mais viva do que sua comandante, a gaveta é novamente aberta; de lá, a mulher pega um colírio. Experiente, joga a cabeça para trás e pinga uma gota em cada olho, fechando-os com força em seguida.

Levanta-se para resgatar a folha cuspida pela impressora. Passa uma das mãos pelos cabelos, deixando um rastro de sintético perfume na secura dos fios.

Volta a sentar, largando o peso do corpo enfadado. Selo. Carimbo. Rubrica. Um enter no computador. Atendimento finalizado. Olha sugestivamente para mim, mas não diz nada: a garganta muito cansada.

Abro a carteira, conto as cédulas. Neste ínterim, ela levanta de novo, empunhando o copo seco, vai até o filtro, abastece-o e volta. Derrama um pouco da água na terra rachada do cacto. Um fraquíssimo movimento de lábios quando deposito a importância sobre o balcão. Um gole. Logo imagino fina garoa descendo sobre um solo endurecido.

Dinheiro transferido de mãos, guardado, contido, armazenado: o motor das mais diversas securas.



20 Junho 2019 09:19:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um misterioso magnetismo nos acorrenta ao transitório, impedindo que sigamos, assim que o que sempre passa cumprir seu imutável destino e passar.  

Algemas nos pulsos, algemas nos pés. Prisões emocionais imobilizam mais gravemente do que as físicas. Um corpo preso não significa uma mente acorrentada, mas uma mente acorrentada sempre gera reflexos num corpo livre.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim. Empregos que algemam, relacionamentos que algemam, algemados pelas opiniões alheias, algemados pela moda, algemados pelo passado.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim.

A mulher que se recusa a buscar um trabalho que a satisfaça, pois é seguro aquele em que está, embora a torne infeliz. Algemada.

O marido incapaz de admitir que a separação é o único caminho possível, apesar de a convivência com a esposa ter se transformado na versão hominal do inferno há muito tempo. Algemado.

O rapaz que quer ser músico, mas vai fazer Medicina para realizar o sonho do pai. Algemado.

A moça que detesta sapato de salto, abomina roupas curtas e odeia maquiagem, mas se monta para ser aceita pelo grupo. Algemada.

A velha que errou muito quando jovem, que mentiu, que enganou, que humilhou, e hoje não consegue se perdoar. Algemada.

O velho que já foi vítima de mentiras, de enganos, de humilhações, e agora não pode mais confiar em ninguém. Algemado.

A mulher que alimentou uma ideia por anos, e atualmente percebe: esteve errada; no entanto, mantém a mesma postura, evitando assim ser desacreditada diante das pessoas. Algemada.

Algemas nos pulsos. Algemas nos pés.

Meus passos vão ficando mais lentos e mais difíceis cada vez que sinto uma emoção sufocada. Algemas nos pés.

Meus pulsos comicham sempre que tranco em mim as minhas vontades para cumprir as dos outros, doem quando sentem o aço das convenções se fechando em torno deles. Algemas nos pulsos.

Algemas nos pés e nos pulsos. Vejo-as em todos, sinto-as em mim.

Enquanto transito pela movimentada Avenida Rotary - a passos vagarosos e pulsos comichando - todos são prisioneiros, exceto um menino de cinco, seis anos, que passa correndo por mim.

Numa esquina abre os braços, em segundos uma borboleta azul se acomoda em seu pulso esquerdo: sem nenhum sinal de algemas.


13 Junho 2019 11:20:00


(Foto: Divulgação) 

Nos vimos ontem e luto para me perdoar pela minha meia culpa, diante do que acabou acontecendo.

Olhares vagamente cruzados; num cumprimento ligeiro, mãos em contato. No paladar, gosto de passado vencido; no olfato, odor de lembranças empoeiradas; no som de nossas vozes, barulho de aço arrebentado: elo partido.

Agora acabou-se. Ou melhor, acabou-se há mais tempo, bem mais tempo, mas só ontem, num pacto silencioso, admitimos. Só ontem as almas, um pouco mais amadurecidas, puderam constatar: acabou-se.

Não que a cortesia nunca mais seja possível, não que a civilidade seja difícil; pelo contrário, quando acaba, quando acaba de verdade, quando inexiste um elo, é fácil ser desinteressadamente dócil, calmamente impessoal.

E não. Não, leitor. Não imagine nenhum pretérito romântico aqui, sinto muito. Éramos almas afins, cultuávamos interesses em comum. Comovidos por motivos semelhantes, queimados pelas mesmas brasas emulando experiências, mas nunca houve um além erotizado.

Acabou-se. As razões de seu sorriso não ecoam mais em mim. A melodia de seu riso hoje é incapaz de mover fibras, incentivar emoções.

Muito crianças. Éramos muito crianças quando a amizade nasceu. Foi se consolidando o afeto, crescendo a admiração recíproca, segredos trocados, confidências para nunca serem utilizadas, apenas mutuamente partilhadas. Aí, aconteceu em nossas vidas o que acontece na de muitos, quando à força nos tornamos adultos: mudança de prioridades, de cidade, de sentidos.

Há anos nossa ligação era virtual. De início, um e-mail por semana; depois, dois por mês. Um a cada dois meses. Dois por ano. Um a cada dois anos. E tanto nos distanciamos, tanto nos esquecemos, que hoje, hoje acabou-se. O elo não era de aço, descobrimos. Era de tecido, e de um tecido bem vagabundo, diga-se.

Estranho é que não doeu. Não ontem. Ontem foi só o fim oficial. Foi ferindo antes, aos poucos e com intensidade, enquanto o pano se desintegrava, mas o fim... O fim representou apenas o desmanchar do último barbante.

Deixamos de ser amigos, fato. O amor fraternal se afogou na correnteza dos compromissos, na água envenenada do que, muitas vezes, se torna a vida adulta. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

Conhecidos, nada mais. Partiu-se o elo. Não nos preservamos. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

O que ainda dói é a culpa.

O fim?

O fim já doeu.



06 Junho 2019 11:39:00


(Foto: Divulgação) /

Na época, eu nem era assim, tão doida. Porque a loucura, longe de ser demência, representa uma lapidada arte.

Mas, como eu dizia, no tempo a que me refiro essa arte ainda não estava assim, trabalhada.

A infância: ingênua veneração aos adultos, inocência em busca de aprovação. Não creio ter sido uma criança original; não era louca, afinal, originalidade é clara indicação de loucura.

Não era original, pois. Era correta. Elegia padrões de procedimento e os seguia. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Fui uma doce criança. Não parece, mas fui, garanto, podem perguntar por aí. Só chantageava os meus pais quando queria pousar na casa de uma amiga e era pela autoridade deles impedida. Só provocava meu irmão em tom baixo, para depois negar a provocação, com o sorriso meigo da criança miúda e inocente. Só esperneava quando contrariada.

Minhas contrariedades: levantar cedo, diminuir a ingestão de balas, escovar os dentes, arrumar os brinquedos, não arranhar o irmão. Poucas contrariedades. Uma doce criança, repito. Porém, na verdade, acho melhor não perguntarem a ninguém. Apenas acreditem em mim, não minto, nunca.

Independente da docilidade que, neste momento, pode estar sendo questionada por vocês, no íntimo eu era cordata, sim. Bastante. Até demais. Queria revolucionar na superfície, mas no essencial era quieta, não questionava e por isso não sofria. E por isso não vivia.

Uma das brancas ovelhas de um imenso rebanho chamado humanidade. Uma integrante do rebanho. Tão somente uma integrante, pouquíssimos traços destoantes. Qualquer adulto poderia ser o meu pastor. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Hoje, contudo, percebo que a agitação iniciada no raso um dia nos leva ao fundo. Mergulhamos. Há momentos em que sentimos: vamos nos afogar; há outros em que submergimos gravemente: Mergulhar em si mesmo conduz a uma emersão mais pura, me disse uma amiga. Quem sabe. Mas hoje não acredito em nada gratuitamente, não permito a ninguém me pastorear.

E assim, a tonalidade da ovelha, aos poucos, foi se modificando. Amarelo-queimado tão logo notei que o mundo não era cor-de-rosa. Marrom-chocolate-estragado ao identificar o gosto amargo dos enganos. Atualmente curto um cinza-escuro, que vai ficando mais sombrio no ritmo da germinação do conhecimento.

Meu objetivo, vocês já devem intuir: me tornar uma ovelha negra. De um negro profundo, diferente, só meu.

Porque originalidade é loucura, mas loucura muito mais interessante que uma revolução de superfície.



30 Maio 2019 10:52:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Ao se aproximarem os finais da vida - quantos em uma só? - pressentimos os encontros cabais. Mudamos de casa, de cidade, de emprego. Fazemos outro curso, adquirimos outro hobby, vivemos sob a égide de novas perspectivas. Substituições demonstram que finais vêm ao nosso encontro, por mais que não procuremos por eles e, na maioria das vezes, nem os desejemos.

Centenas de vidas em uma única vida já se despediram. Ficamos. Mas ficamos ruminando a necessidade de voltar? E se queremos voltar seria, talvez, para refazer? Não nos satisfez o que encontramos no final?

É um exercício de sondar as profundezas, veja bem, de resgatar perfumes ou podridões, de beber das nossas atitudes sem saber se essa poção vai nos matar.

Ou sabemos, sim. Sabemos até que ponto o cálice foi conspurcado. Sabemos exatamente a fração de líquido da taça que descerá rasgando a garganta. Sabemos em qual parte vamos engasgar. Sabemos inclusive se o cheiro vai nos entontecer antes mesmo de levar o copo aos lábios. Sabemos também se nossa boca brilha ou arde com as palavras ditas, amarga ou sorri com os silêncios, crispa ou alivia diante das lembranças dos beijos.

Sabemos a procedência desses beijos, se de traição ou de amor, lealdade ou mentira.

Nem sempre são caminhos longos a nos conduzirem a um término. Nem sempre são martírios de anos, alegrias de décadas. São caminhos. A intensidade deles determinará suas extensões dentro de nós.

Seguimos: caminhando, correndo, nos arrastando, rindo, gemendo. Seguimos: no escuro, na claridade, de pés no chão, calçados, felizes, frustrados. Seguimos: nos arrependendo, sofrendo, alegrando, vivendo. Percorremos esses customizados caminhos: diferentes, para cada um; semelhantes, em muitos trechos, para todos.

No final, um copo sobre uma plataforma. Plataforma resplandecente ou obscura? Você sabe, você construiu.

O copo é grande? Está cheio, pela metade, vazio? Você encheu ou esvaziou? Você sabe, entornou lágrimas ali, boas ou más ações. Você sabe.

Você sabe de tudo. Pôde escolher fazer ou não fazer e o que fazer, até o final.

Só que, no final, a vida não te dá mais opção: terá que tomar do seu próprio cálice.

Morrerá à míngua? Não tem nada na taça?

Se tem...

É conteúdo amargo ou doce?



23 Maio 2019 10:51:00


(Imagem:Divulgação) /

Esperava o amanhã, tinha planos para o amanhã. O seu amanhã não veio. A vida foi o ontem, o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Mesmo com poucas palavras, creio que vocês já sabem a quem me refiro. Colega de ofício, escreveu. Escreveu poemas, histórias, memórias. Escreveu, pesquisou, informou. Esperava o amanhã, só que o amanhã... O amanhã não veio.

O ano nem chegou à metade e já é o segundo amigo que se vai. Viveram o ontem, viveram o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Não é raro - é mesmo saudável - que pensemos no amanhã. Mas quando o amanhã se torna hoje e nos esquecemos de viver o agora para tão somente planejar o que pode nem chegar, talvez tenhamos a sensação de previdência, porém, se refletíssemos que o amanhã é ilusão, uma fantasia volúvel, provavelmente agiríamos com mais intensidade enquanto há tempo.

O amanhã impossível não significa apenas a morte. O amanhã impossível pode ser a mudança de trajeto, a diferente perspectiva, a pessoa, situação, alegria ou tristeza que te empurram para outra direção.

Todos planejamos a vida. Suprema ingenuidade com cara de sabedoria. A vida é maior. Porque a vida abriga em seu bojo a morte. E a morte é uma mal-educada que não pede licença, uma desajustada que nos arrasta com ela quando quer, não importa idade, interessa menos ainda se queremos ou estamos preparados. A morte, a morte, sim, reina.

Seja por acidente, doença ou outro subterfúgio que a morte encontre para realizar sua vontade, deixa como herança uma única sentença: haverá um amanhã que não vai chegar.

Se o meu amanhã impossível fosse mesmo amanhã, eu não estaria de bem com todo mundo, nem com o perdão nos lábios ou com a tolerância no coração. Há sentimentos de pouca beleza que encalacram e talvez não desencalacrem nem no momento fatal.

Sinto muito ser tão humana até ao projetar o meu amanhã impossível, mas a realidade é essa: não me tornarei imaculada apenas porque um dia vou morrer e as pessoas que vão ficar não se transformarão em anjos de candura, merecedoras da isenção de seus atos, apenas porque sentirão o cheiro da morte mais próximo delas.

Falo por mim. Mas sei que os amigos a quem me reporto estavam bem menos contaminados pela amargura e que, possivelmente, se foram muito mais leves do que eu iria. Entretanto, conhecendo-os tanto quanto essa curta vida permitiu que os conhecesse, também intuo: concordariam comigo - há certos defeitos humanos que nada suprime, muito menos a inexorável morte.

Um dos defeitos que a morte, além de não apagar reforça, é a nossa revolta com ela. Sinto falta, sim. Fico triste com a passagem deles, mas fico brava, também. Sei que não deveria, que cada um tem sua hora, que a vida é um sopro e blábláblá, mas eu não queria e ponto. Se a morte me ouviu? Não me deu a mínima.

Apesar de esperarem o amanhã, com o entusiasmo aos dois inerente, ambos, presenciando minhas crises de ansiedade, advertiam: "Viva o hoje", "Você se preocupa demais com o amanhã".

Tento seguir o conselho desses amigos, todavia, não sendo perfeita - sendo inclusive antípoda da perfeição -, nem sempre consigo e por isso peço que ao menos vocês, leitores, caso possam, pratiquem a essência dessas exortações e se perguntem, ao final de cada dia:

E se o amanhã não existir?

Aos amigos:

Sebastião Luiz Alves e Franciele Gasparini.



16 Maio 2019 10:58:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

O tema não é inédito nesta coluna. Mas por mais que se escreva sobre ele, creio que nunca serão abordadas todas as suas sinuosidades. A consciência. Os terrores da consciência. Os tormentos mentais inacreditáveis a que o ser humano se entrega para se purificar das próprias atitudes.  

Um caráter torto prejudica a sociedade, porém, antes disso, muito antes disso, envenena o indivíduo. O caráter torto é o maior inimigo da consciência. E ela, exatamente pela sua característica principal - a justiça -, volta cobrar.

Não se trata de conspiração do bem ou do mal, de energias misteriosas, de enigmas do universo. Tudo límpido - lei. Lei basilar: causa e efeito. Plantar e colher. Agir e receber a reação pertinente. Científico. Lógico.

Gravar em código, pra quê? O elementar já vem insculpido nela - rainha e salvadora, severa e certeira, julgadora soberana: a consciência.

Penso em uma engrenagem perfeita, com minúsculos mecanismos que a compõem e a fazem rodar - nossas atitudes. Máquina salvífica ou mortal. Cada erro quebra uma peça. E a vida caminha. E caminha. Mas a engrenagem é uma só. Chegará o momento em que, independente de perdão ou de condescendência, precisaremos da peça que quebramos. Ou consertamos ou nada mais gira. A vida encalha.

Nesse momento, o momento nevrálgico do acerto de contas, nem mesmo a mais sincera absolvição do ofendido - peça quebrada - será suficiente para que a engrenagem volte a funcionar. Então nós, investidos do papel mais vergonhoso de todos - o de ofensor - vamos remoer, repisar e recalcar a nossa ação leviana.

Estragamos o mecanismo ideal para o nosso crescimento. Esnobamos a nossa guia. Fechamos os ouvidos para a consciência. Destroçamos uma peça. E agora precisamos dela, inteira, para completar a jornada.

O círculo estava tão saudável! Girando tão bem! Uma peça, uma pecinha só. Uma ofensazinha, que tem de mais? Uma pessoa magoada, o mundo tem tantas.

Eu sei, sei que me consideram demasiadamente rígida. Que certas coisas devem ser relevadas. Que nem tudo é assim, tão a ferro e fogo. Porém, são as inúmeras observações e a coerência do universo que declaram, não eu: a peça rachada fará falta, na vida de qualquer pessoa. A engrenagem, uma hora ou outra, vai parar. O conserto será indispensável. Sem isso, onde a justiça? Nesse dia a ofensazinha esquecida, a humilhaçãozinha que está no fundo do baú irão se avolumar, serão fantasmas a nos torturar, serão vozes a gritar. E a engrenagem... a engrenagem não vai girar.



09 Maio 2019 10:23:00


(Foto: Divulgação)

Quanto mais tenta aparentar naturalidade, mais afetado se mostra. Aguarda na fila ao lado da minha, na Lotérica da Salomão. Os dedos de unhas roídas mexem no celular, mas acho que não há nada de interessante ali, pois logo os olhos dançam nervosos, percorrendo todo o ambiente, sem parar em nada ou em ninguém.

Guarda o aparelho do bolso, rói a unha do indicador esquerdo, respira de maneira barulhenta e superficial, olha para cima, para os lados, para mim, sem me enxergar; eu, todavia, vejo angústia nas íris pretas. Sorri mecanicamente para um senhor que, numa demonstração de amizade, lhe bate nas costas.

Sim, leitores, vocês me conhecem: como não sei o que se passa, vou deduzir. Só que até mesmo para cogitar precisamos de dados inquestionáveis. O único que consegui notar é que há aflição ali. Muita aflição. Aflição incapacitando a garganta, aflição saturando os olhos, aflição inquietando o respirar, o pensar, o esperar; aflição escorrendo dos dentes às unhas.

Dor? Perda? Remorso? Indecisão? Aposto no remorso. Mas não descarto os outros três sentimentos, porque da indecisão pode muito bem ter nascido uma atitude infeliz que levou à perda e à dor. Dor que se desdobrou em remorso.

A fila avança. A dele, a minha continua empacada. Não estou mais ao lado do homem. Vejo agora a parte de trás de uma cabeça grande para um tronco apequenado. Será que estou sendo filosófica ao supor que foram os passados equivocados daquele homem que se converteram em ideias densas, incomodativas, renitentes na cobrança? Uma consciência gorda é o que intuo logo acima do pescoço magro, de traqueia consumida pela culpa?

Há manchas de suor em suas costas. Camiseta vermelha. Todo o ciclo de angústia recomeça: a unha do indicador esquerdo não é deixada em paz, os suspiros saem com ruído, agora uma roliça gota de suor brota da nuca. Os sinais não são apenas de impaciência. Me desculpem a pretensão, mas detectar aflições trancafiadas é a minha especialidade. Talvez por farejá-las, mas mais provavelmente por serem reflexos de mim mesma.

Não, não apenas impaciência. Chega a vez dele. Fecho olhos e ouvidos a tudo o que não seja aquele homem. Preciso observar com atenção antes que se passe esse capital momento analítico.

Rápido em tirar a conta e o dinheiro do bolso. Ágil em contar as notas. Silencioso ao colocar os dois abaixo da abertura do vidro. Aflição trancafiada, não há dúvida. Rala conversa com a atendente. Sins e nãos objetivos. Evitando contato. Aflição trancafiada, não há dúvida.

Finalizado o atendimento, se volta para sair e me vê. Neste momento me vê, de fato. Minhas íris são mais claras que as dele, mas tão intensas quanto. Reconhece de imediato uma repetição sua ali. Reconhece outra aflição trancafiada, talvez não pelos mesmos motivos que ocasionaram a dele, quem sabe entreveja em mim uma aflição de mágoa. E quem sabe esteja correto.

Porém, que encara uma aflição trancafiada, disso parece convicto; pois ele, assim como eu, também deve precisar de uma certeza para que só então possa analisar.

Sai da Lotérica. Continua a cogitar. Hipóteses pululam em sua mente.

Como sei dessas particularidades?

Detectar aflições trancafiadas são as nossas

Especialidades.



02 Maio 2019 10:34:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Assistia, de longe, ao show. Não foi em Curitibanos, não foi agora, faz tempo. Um tempo imenso. Não ouvia a música. Era rock, banda conceituada, meu gosto musical. Mas eu não ouvia a música. Escutava apenas os ruídos internos que nunca me permitiram concentrar absolutamente em coisa alguma. Me ensurdecem, me embriagam, tenho milhões de vozes interiores que, entretanto, me conduzem a um silêncio inelutável.  

Ele estava lá. Muito mais perto do palco. Longe de mim, bem longe. Distante, inalcançável. Também sozinho, mãos nos bolsos. Quantos anos, mesmo? Além do tempo, quantas ideias, visões de mundo e inflexibilidades nos separavam?

De costas, os cabelos claros mudando de cor ao sabor das luzes vindas do palco. O azul cristalino do céu que fomos. O vermelho das nossas fúrias unidas. O branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida. O preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo. O preto do rock. O preto daquele dia.

Insensível à música, desconsiderou quando uma moça tocou seu ombro, fingindo ter esbarrado, mas na nítida intenção de encetar contato. Uma mulher sempre sabe da intenção de outra mulher; sobretudo quando essa outra mulher se aproxima de um passado irresolvido seu.

Só que ele permaneceu indiferente, apenas elevou o ombro requisitado, como se espantasse uma mosca. A mulher se afastou. Não foi propriamente alegria o que experimentei, mas um sentimento de alívio me inundou.

Eu não iria até ele, estava decidida. Ele não tinha me visto. Então, tudo certo. Porque o passado, quando indigesto, se reavivado não vai se contentar em ser desconforto administrável: vai queimar as entranhas.

Fechei os olhos por uns segundos, ou foram minutos? Ou horas? Ou vidas inteiras? A minha vida e a dele, no passado cruzadas, voltavam, conectadas, naquele fechar de olhos. Em meio ao esmagador barulho, ninguém deve ter reparado na minha abstenção. Se alguém olhasse veria uma mulher-menina, vestida de preto, os olhos lacrados, só isso. Mas eu, eu via um passado. Eu via dois passados. Entrelaçados.

Sucessivamente, por trás daquelas pálpebras tão inocentes, concebia o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida, o preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo.

Me senti obrigada a abrir os olhos quando alguém, num gesto semelhante àquele da moça, e certamente tão intencional quanto, tocou meu ombro.

Fui descolando os cílios, elevando-os, fazendo de meus olhos já pequenos apenas uma fresta, para enxergar que intromissão em forma de gente ousara me arrancar das memórias.

E lá estava ele. Ao meu lado.

Estava ao meu lado, como nunca esteve.

Sorriu.

Era ele... mesmo?

Os olhos pareciam mais vivos, livres das escuras incertezas de outras épocas.

Me fiz incapaz de corresponder ao sorriso, quem sabe em uma inconsciente forma de vingança. A infalível engrenagem do universo. Naquele momento, se apagaram o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída, o amarelo de uma serenidade nunca obtida. Restou apenas e tão somente o preto do fim.

O preto de um fim anunciado desde o começo.

O preto do rock.

O preto daquele dia.

Inclinou a cabeça, confuso diante da falta de receptividade. Constatei que era ele, sim. Constatei mais: constatei que a nossa história havia acabado.

Uma só cor restava:

O preto das dúvidas dele.

O preto das fulminantes ausências.

O preto de uma reciprocidade que, agora, era eu quem negava - a infalível engrenagem do universo.

O preto de um retorno impossível.

O preto do fim.



25 Abril 2019 11:45:00


(Foto: Divulgação) /

Tudo aquilo que marca é cicatriz inapagável, grande, na face. Mas aquilo que marca não representa apenas dano estético, afeta ainda o metabolismo. E o metabolismo das emoções não obedece a regras orgânicas. Indigestão emocional é doença crônica.

Sintomas: ansiedade, temor, arrependimento, incerteza, desânimo. Algo te corrói. Emoções não digeridas. Passados fortes, pesados. A saúde se recusa a espalhar-se democraticamente; pequenos pontos negros se multiplicam e se concentram, por vezes no coração, em outras no estômago ou nas costas. Peso enorme, diagnóstico certeiro: indigestão emocional.

O maior problema: para essa complicação não existe remédio. Aliás, ao tentar avaliar exteriormente a indigestão emocional, ela cresce. Deve ser por isso que não se chegou a uma cura e que talvez nunca se chegue.

Analisemos as causas... de onde surge o aperto no peito, sem precedentes de enfermidades cardíacas, sem sedentarismo, má alimentação ou hábitos insalubres que justifiquem?

De onde vêm os tremores, os suores frios e mesmo as terríveis e repetidas... indigestões?

Examinemo-nos organicamente e para aquilo que não haja explicação científica, partamos para esse assombroso e abrangente diagnóstico: indigestão emocional.

Que história dói dentro de você? O que significou um corte, doloroso e profundo? Ainda sangra? Quanto de sangue esse corte já fez fluir? O que pulsa, lateja, que bactéria é essa que exame nenhum mostra?

Seguindo o dossiê da doença, encontramos um trecho lá, bem visível, no meio do texto, em negrito: (...) o contato com memórias ou o simples vislumbre de tênues ligações com o motivo que ocasionou a enfermidade em pauta pode conduzir a tonturas, enjoos, esfriamento súbito das extremidades, excesso de transpiração. E não é gravidez, não, leitor! Ou, quem sabe, estejamos todos grávidos de preocupações.

No final da pesquisa sobre a mais assustadora doença de todos os tempos, um aviso:

Lembre-se, o que machuca intensamente e não sangra pra fora, sangra pra dentro.

Multidões de coágulos.

A quanto congelamento interno somos obrigados, para não expirarmos antes do tempo?

Nos tornamos secos, frios... seria por já termos sangrado demais?

Fortaleza e calor de onde?

Não há. Acabou. Morte interna para aquele que não consegue suavizar a indigestão emocional.

Para quem acha que estou exagerando, desenterre seus fantasmas e alvoroce seus demônios. Eles vão responder. Acredite neles e não numa pobre cronista que só sabe fazer cogitações.



18 Abril 2019 09:48:00


(Imagem: Divulgação) /

Madrugadas frias sempre me despertaram questionamentos. Passou o dia. A companhia. A sensação de aconchego. Passou a claridade. O sol. Resta negror. Silêncio. De repente, escuto um uivo, um uivo lamentoso. Seria o da minha própria alma, que se perdeu e procura, através de alguma espécie patética de ruído, se encontrar?

Espero na rodoviária. Meu ônibus é o da uma da manhã. O dela chegou agora. Mochila nas costas, a mulher tem uma expressão de enfado. Não sono, tédio de existir. Aprendi muito cedo a distinguir apatia existencial de cansaço orgânico.

Eu parto. Ela volta para casa. Sou mais nova, mais baixa, menos elegante, porém, me identifico com a mulher. Nossos olhares se cruzam. Desvio o meu, me volto para a janela, dissimulando verificar se o transporte surgiu, mas eu sei que ainda vai demorar meia hora. Ela continua a me fitar, sinto. Parecida comigo, não há dúvida. Reservada até que lhe desafiem. Para alguém quieto, nada mais desesperador do que ser avaliado.

Agora precisa saber: o que é que a menina quer com ela? Penetrar o coração de suas mágoas? Analisar as paredes visguentas de suas amarguras? Julgar-lhe a profunda fadiga existencial? O que quer a menina? Será que a menina quer descobrir o que nem ela mesma sabe? Empertiga-se. Neste momento, é a mulher quem me desafia. Ergue o queixo, aperta os lábios pintados de vermelho. Parecida comigo, não há dúvida. O que quer, menina?

Paro de fingir distanciamento. Irreverente, encaro-a. Vai me processar por invasão de privacidade? Vai chamar a polícia, dizer que a estou deixando desconfortável em público? O que quer, mulher?

Nossos olhos estão em chamas. Dois pares se afrontando, no meio de dezenas de pessoas distraídas. Estaca à minha frente, inflando as narinas: o que quer, menina? Endireito as costas e trinco o maxilar: o que quer, mulher?

Ninguém percebe o duelo de olhares. Quem vai ser a primeira a cair? As espadas de nossas iras estarão suficientemente afiadas?

O que quer, menina? Não chega toda essa dor de existir? Preciso ainda de uma espiã para acentuar as minhas indefinições?

O que quer, mulher? Pensas, acaso, que também não padeço de misérias semelhantes?

A essa pergunta muda, ela se desarma. Enfim, reconhece em mim uma igual e não mais a julgadora de seus martírios. Solta os ombros, a mochila quase cai diante do inesperado gesto de vulnerabilidade. Suspira. Fecha os olhos. O duelo chegou ao fim.

Arquivem o processo. Os guardas podem baixar as armas.

Eu sou só uma menina.

Ela é só uma mulher.

Ninguém quer nada de ninguém.

Assim que volta a abrir os olhos, sou a primeira a estender a mão. Com a dela, aperta a minha.

No instante em que ouço o barulho do meu ônibus chegando, solto vagarosamente a mão trêmula e viro para sempre as costas

Àquele eu

Que se perdeu.



11 Abril 2019 13:23:00


(Foto: Divulgação) /

Vocês podem não acreditar. Não os culpo se duvidarem de mim, afinal, além de um cronista nem sempre falar a verdade, o cotidiano que tenho a lhes contar, hoje, não é tão cotidiano assim.

Aliás, nesses nossos tempos, é quase sobrenatural.

Achei um bilhete, na calçada da Maximino de Moraes. Um bilhete em que estava escrito, com letra pequena e tímida: "Meu amor, estive aqui".

Só isso. "Meu amor, estive aqui". Sem assinatura. Já é difícil haver amor. Agora... estar presente? Mais extraordinário ainda: deixar bilhete, escrito à mão, atestando o amor e a presença?

Eu sei, vocês duvidam, não é? Como disse, não os culpo, pois eu mesma só acredito porque estou com a carta olhando para mim, enquanto escrevo o que vocês reputam ser mentira.

Talvez devesse entregar a relíquia ao museu, mas decidi ser egoísta e emoldurar essa ternura. Não quero dividi-la com os outros. Vou colocá-la num quadro para que, quando me faltar fé na humanidade, eu recorde: alguém ama e alguém esteve.

"Meu amor, estive aqui".

Não sei se a caligrafia é de homem ou de mulher. Mas já amo esse ser que ama, simplesmente por saber que ele ama. E me entristeço quando penso em seu entristecimento ao constatar a perda desse fragmento de afeto.

Enfia a mão no bolso para dele retirar o escrito. Alegre, intui: vai oferecer palavras singelas e receber sentimentos puros. Cadê? Cadê a prova de que não foi corrompido pelas friezas contemporâneas? Cadê o suave derramamento de amorosa presença? Apesar de me compadecer, não devolvo. Não mesmo.

Iria pôr debaixo da porta do destinatário da carta? Quero pensar que sim. É bonito pensar que sim.

E tem a vantagem de estar escrito em papel de caderno, linhas azuis evidentes, um papelzinho pequeno, dobrado ao meio. Se fosse folha sulfite, despertaria antecipada repulsa: boleto.

Mas essa pessoa não quer cobrar nada, é fato. Essa pessoa quer apenas dizer para o seu amor: estive.

"Meu amor, estive aqui".

Me apeguei ao bilhete. Internalizei a essência e me sinto encantada.

Seu destino de estar, por contraste, nunca me fará esquecer o meu: eternamente partir.

A carta agora é minha. Sinto muito, remetente. Sinto muito, destinatário.

A carta é minha e não entrego. Nem sob ameaça.

"Meu amor, estive aqui".

Que o amor esteja.

E que saibamos apreciá-lo sempre que estiver.



04 Abril 2019 09:36:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Escuro. Frio. Caminho olhando para baixo. Baixo. Bem para baixo. Meus olhos perfurando a calçada e atingindo um subsolo imaginado: escuro, frio. Também na imaginação tropeço em meus próprios passos, almejando através deles retroceder. Retroceder para apagar mágoas. Retroceder para recuperar idades furtadas e esperanças raptadas. Retroceder.  

Não retrocedo, porém. Sigo. Em frente: o único sentido que nos permite a vida. Retroceder? Não mais. Nunca mais. Retroceder? A vida ri em meus ouvidos. Pobre menina-velha. Ricas-misérias afetivas. Sigo.

De repente, decido olhar para cima. Quem sabe o horizonte resguarde alegrias? Quem sabe se compadeça de meus passos nervosos e desgovernados e me conceda alguma paz?

Quem sabe, olhando para cima, eu veja uma nuvem de aflições - enorme e negra - sobre a minha cabeça, se dissipando, fluindo e sumindo, saindo de mim, abandonando a cativa que algemam?

Elevo o olhar. A perder, nada tenho. É noite. Escuro. Frio. Estou sozinha. A perder? Nada tenho. Olho. Não. Não há no horizonte uma nuvem negra. As aflições ainda estão aqui. Comigo. Em mim. Sinto-as apegadas.

No entanto, vejo uma figura indistinta, de braços abertos. Capturo seu sentimento de libertação. Experimento o cheiro de liberdade fresca, recém-conquistada. Não sei dizer se é homem ou mulher, criança ou velho.

É um ser humano liberto, permitindo que as angústias vazem pelos dedos abertos, pelo peito desoprimido, pela respiração solta. Um ser humano. Um ser humano livre.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, enquanto eu, criatura desorientada, fito o solo, pretendendo o subsolo, com violenta obstinação.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, braços abertos. Desobrigado até mesmo de ser classificado como homem ou mulher.

Está acima de mim, como que sobre uma plataforma, não vejo os olhos, mas detecto a alma: que flutua, que voa, que é leve, doce, rarefeita.

Está acima de mim, mente serena, evaporados pretéritos, sem necessidade de ter uma idade qualquer.

Está acima de mim.

Muito acima.

Figura indistinta.

Além das pobrezas recalcadas.

Sinta.

Muito acima.

Acima.

Além dos poemas aleatórios.

Rima.



28 Março 2019 10:12:00


(Foto: Divulgação)/

Princípio da escrita: jamais comece um texto sem antes saber como ele vai terminar. Questão de coerência, de entrelaçamento de ideias, de cuidado para não se perder.  

A vida, voluntariosa, não segue esse princípio, claro. A vida, aliás, não segue princípio nenhum. A vida: animal indomável, fera machucada.

Tão descontrolada besta se envolve em inícios e em meios sem antes saber como será o seu fim. Os seus fins. Porque a vida tem inúmeros fins. Fins no começo, fins no meio. Dos fins iniciais e intermediários nada sabe. Que dirá dos fins finais?

A vida, animal indomável, fera machucada, besta radical - é também a mão que escreve. A mão que escreve e, depois, não pode mais retificar. A mão ensandecida que inicia cada história sem saber o final. Resultado: incoerência, elementos desencontrados, perdição.

Por que será que a vida refuta um padrão tão evidente?

Vai se escrevendo, e se escrevendo, porque, embora seja indomável, a vida é perfeitamente letrada. E se escreve. Se escreve de forma infatigável. À caneta. Despreza corretivo.

No fundo, a vida é uma escritora versátil, apesar de não saber seus finais. A vida escreve textos de suspense, de terror, de ação; romances, novelas, contos, poemas, frases soltas... e como gosta de um fluxo de consciência, a ordinária!

A vida escreve crônicas, cenas. Faz cenas. A vida é uma encenação frequente.

A vida é dramaturga, cineasta. Polícia e ladrão. Ódio e coração. A vida, com seus mil dedos, delineia enredos diariamente. Não se apaga, não se repete. Não pode treinar, para depois se apresentar ao público. Se apresenta ao público sem treinar. Não pode cortar as próprias cenas, visando construir outras, melhores. Se ficou bom, ótimo; do contrário, paciência.

A vida é vamos que vamos: agora, já. A vida é vamos que vamos e nunca voltamos. Não sei se a vida se orgulha de seus feitos ou os deplora. Na verdade, penso que deve haver um certo equilíbrio entre os sorrisos e as lágrimas da vida. Quando converso com ela, me diz que gostaria de sorrir mais. Mas sorrir de verdade, sem encenação.

Pode ser que, se conversássemos mais com a vida, ela, de fato, sorrisse mais. Porém, há momentos em que se encarcera no processo criativo e não permite que nós, pobres espectadores, questionemos o seu sistema taciturno.

Afinal, ela nos pertence ou nós pertencemos a ela?

E o que esperar de um criador que desconhece os seus próprios finais?

Escritora desconexa, a vida deixa palavras pela metade.

A vida encerra narrativas sem ponto final.

À vida

São irrelevantes

Seus próprios fin...



21 Março 2019 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Tenho a estranha e irrefutável impressão de que somente me projetando no futuro poderei compreender questões que atualmente me afligem.

Sendo assim...

Caminho por uma trilha arborizada. Túnica branca, cabelos brancos. Tenho 90 anos. Olho para trás. Apenas olho, pois algo me diz que não posso voltar. O caminho atrás de mim é longo. À frente, curto. Bem curto. 

Tenho 90 anos e não posso voltar. 

Estou tonta. Desorientada. É que eu dormi e estava jovem para fazer o que queria. E hoje acordei me sentindo velha demais para lutar com o ardor necessário. 

Enquanto caminho, pés descalços, percebo que as aflições alimentadas por décadas pararam de doer. Afinal, cheguei a encruzilhadas na vida em que tive que escolher quem sobreviveria: elas ou eu. 

Querendo viver em plenitude, procurei seguir o basilar preceito: amai-vos e instrui-vos. Me instruí. Observei que o maior desafio e, ao mesmo tempo, a mais sublime missão do ser humano na Terra consiste em combater a ignorância. Se amei? 

No chão, vejo meia dúzia de amores; que hoje, só hoje, noto que não se fizeram merecedores de ser chamados assim... Se ainda resta algum em mim? Não vou contar, embora... Não vou contar. 

O que sei - e sei sem qualquer dúvida - é que a solidão me ensinou mais do que os falsos amores e as multidões. 

Grama úmida. Dia frio. Me encolho. Vou deixando para trás, bem para trás, as ilusões em forma de amor. Só então reflito que a minha vida toda foi um imenso quebra-cabeça. Ouvi dizer que existem quebra-cabeças com mais de 40 mil peças. Então a vida é um quebra-cabeça de 80 mil peças. 

A vantagem do brinquedo é que há um desenho (na tampa da caixa) da figura a ser montada. Pode-se seguir a ilustração. Tem-se uma direção. A vida, nem isso. Vamos construindo às cegas, no chute, no palpite. 

Quando estamos perto de terminar de montar, descobrimos: a peça central - aquela que tínhamos certeza de que estava no lugar adequado, na verdade não está. 

Se fosse só isso, tudo bem, o problema é que, diante disso, precisamos desmontar tudo e recomeçar. Pois todas as outras peças, seguindo a estrada do equívoco, também estão no lugar errado. 

Deve ser por esse motivo que, quando a aparência de correção se mostra impecável, algo no nosso íntimo acusa que não é. Sabemos, no íntimo sabemos: não é. Falta uma peça, só não se tem ideia de onde. 

Me debati. Hoje, analisando essas centenárias árvores, essas árvores maiores e mais belas do que eu, entendo o quanto me debati. Relembro como o meu espírito se engalfinhou consigo, com seus próprios medos, complexos e desajustes. 

Seguindo a trilha, sempre acompanhada pelas árvores e pela sinfonia dos pássaros, entendo que a natureza é muito maior do que as frivolidades humanas. Maior e, portanto, mais majestosa. Imergindo em sua majestade, nos libertamos dos nossos problemas mesquinhos. 

Porque a vida, 

A vida mesmo, 

A vida é muito mais. 


14 Março 2019 13:31:00


(Divulgação) /

No sonho, eu era uma super-heroína. Uma super-heroína vestida de mulher-maravilha, porém, com os cabelos exuberantemente loiros. Olhos azul-escuros, corpo espetacular. De meu, apenas a altura. 

Essa super-heroína (no caso, eu), se chamava Madona e detinha uma chave. A chave era procurada pelo governo e ninguém no sonho teve a gentileza de me explicar por quê. 

Sei que a heroína corria de lá pra cá, de estado a estado, de fogo cruzado a fogo cruzado, escondendo a indigitada chave.  

Seria de um cofre, muitíssimo bem trancado, que armazenava a honestidade de grande parte dos políticos e, se alguém o abrisse, a honestidade, ágil, voltaria a habitá-los? Por isso o pavor do sumiço da chave? 

Para resguardá-la, a heroína foi conduzida a bizarras aventuras. Numa delas, invisível, dentro de um banco, precisava analisar os cheques. De novo, não teve uma abençoada voz etérea que me explicasse (ou melhor, à heroína) qual o propósito dessa espionagem. Suborno é em dinheiro vivo... desvios? Como ninguém explicou, não serei eu a cogitar; afinal, fui jogada no sonho para defender a chave, não o motivo. 

Depois, a heroína saiu do banco e foi direto para uma floresta, não se sabe como, se sabe apenas o porquê: para proteger a bendita chave. Agora, como eu disse, qual a razão, não se sabe, também. 

Na floresta, a heroína esqueceu que era Madona e se tornou Tarzan. Do nada, se dependurou em um cipó e, em segundos, estava do outro lado. Então, precisou cortar o cipó. Utilizou as unhas (Madona tinha superpoderes nelas). E essas minhas longas unhas que, enquanto mulher comum servem para quase nada, além da estética, serviram à super-heroína para cortar o cipó (que, àquela altura, era uma corda que a amarrava, também do nada). 

De repente, como em todo sonho de ação, chegou a hora do disfarce. A super-heroína virou uma menina de 17 anos. Surpresa das surpresas, era eu aos 17 anos! Não mais a mulher fascinante, mas essa criatura desajeitada que vos escreve todas as quintas-feiras, quase 10 anos mais jovem. 

Aportei na minha antiga casa, onde estavam dando uma festa (e isso é hora?). Além dos convidados, 3 militares. Eu, de casaco preto (no bolso, a chave), cabelos emaranhados. Da heroína preservava somente os olhos azuis (os quais evitei cruzar com os dos policiais).  

O Brasil do meu sonho tinha mais militares do que civis. Eram muitos, espalhados por toda a nação, pois nem sabiam onde a heroína (para eles, vilã) iria aparecer. Além do mais, não faziam ideia, óbvio, de que ela estaria tão disfarçada. 

Apesar da camuflagem, o risco de permanecer ali era imenso. Percebi que precisava me retirar. Discretamente, mostrei a chave à minha mãe. O Brasil todo sabia do desaparecimento. Ela entendeu, de imediato. Falou aos policiais que eu estava saindo para ir à escola (eu tinha 17 anos, lembrem). Eles acreditaram (era sonho, lembrem). Saí. Meu pai, sarcástico, ainda gritou para que eu fosse bem e voltasse logo. Minha mãe devia ter contado a verdade a ele, mas o danado sempre gostou de uma ceninha. 

No caminho, uma professora, dirigindo um Uno branco, me encontrou. Ofereceu carona. Levava duas crianças, no banco de trás. Aceitei o oferecimento. O trajeto até o próximo esconderijo seria longo e, até lá, corria o risco de ser revistada. Já tinha empregado o superpoder da invisibilidade uma vez, não poderia usá-lo novamente (droga de super-heroína). 

Ao entrar no carro, li nos olhos da professora que ela sabia sobre a chave. Aqueles olhos azuis crivados de superpoderes notaram, num instante. 

Ocorreu que, naquele momento, um dos policiais que estava na minha casa, sondando a festa, apareceu de moto, logo atrás de nós. Me viu (malditos vidros claros). Eu havia dito que iria sozinha para a escola. Achou suspeito, lógico. Nos seguiu. Pra ajudar, o Uno acusou a falta iminente de combustível. Paramos num posto. 

Tirei a chave do bolso. Pensei em entregá-la à professora, que tinha menos chances de passar por inspeção. Quando a estendi, contudo...

O que aconteceu, leitor? 

1- A chave caiu no chão e tivemos que procurá-la, sabendo que o policial estava a segundos de distância de nós? 

2- Uma das crianças gritou? 

3- O militar bateu no vidro? 

Não, leitor!

Eu dei uma de humana e, humanamente, 

ACORDEI!

Você acha que só você está decepcionado? 

Então imagine eu, que acordei sem superpoderes, com cabelos castanhos comuns, quase 10 anos mais velha do que quando no disfarce, corpo magrelo, olhos, além de marrons e não mais azuis, profundamente míopes.

E eu, leitor, não fiquei decepcionada? 

Fiquei ARRASADA!

Mas, como diante disso tinha muito trabalho a fazer, em vez de lamentar meu detestável regresso, passei uma hora rindo da desgraça e reconstituindo a história para contar a você.  


07 Março 2019 13:52:00


(Foto: Divulgação) /

Aos 18, ter a mente de 30. Aos 30, ter o corpo dos 18. Aos 20, ter a experiência de 40. Aos 40, ter o tempo dos 20. Aos 50, ter a paciência de 80. Aos 80, ter a vivacidade dos 50. 

Antes de ter filhos, viajar com os filhos. Depois de ter filhos, torcer para que eles encontrem amigos que vão viajar com eles. Antes de ter filhos, achar bonitinho um chorinho. Depois de ter filhos, chorar mais do que eles quando choram. Antes de ter filhos, o desejo de passar a maior parte do tempo com a prole. Depois de ter filhos, arranjar toda sorte de atividades extra-lar para os profissionais mirins. 

Solteiro: casar. Casado: voltar a ser solteiro. Divorciado: conhecer alguém. Namorando: conhecer outro alguém. 

Mulher magra: engordar. Mulher gorda: emagrecer. Mulher de cabelos lisos: enrolar. Mulher de cabelos enrolados: alisar. Mulher loira: ficar morena. Mulher morena: ficar loira.

Aventureiro: acomodar. Acomodado: aventurar. Agitado: aquietar. Quieto: agitar. 

Muito trabalho: diminuir o ritmo. Pouco trabalho: aumentar o ritmo. Estressado: Spa, contemplação, natureza. Calmo: adrenalina, badalação, metrópole. Metrópole: interior. Interior: metrópole. 

Pobre: ser rico. Rico: ser milionário. Milionário: ser bilionário. Bilionário: voltar a ser pobre, que era quando as coisas tinham graça. 

Decidido: duvidar. Indeciso: decidir. Filosófico: ser objetivo. Objetivo: ser filosófico.

Quem viaja: descansar. Quem não viaja: conhecer novos lugares. 

Pais de jovens que não param em casa: que eles fiquem em casa. Pais de jovens que ficam em casa: que eles saiam de casa; já que jovens com problemas (qualquer espécie de problemas) os têm por esses dois únicos motivos: ou porque são pouco caseiros (se o fossem mais, tudo se ajeitaria), ou porque são muito caseiros (se o fossem menos, tudo se ajeitaria). 

Jovens com pais diligentes: que não sejam controladores. Jovens com pais negligentes: que lhes deem atenção. Jovens com pais jovens: que não digam que pai e filho parecem irmãos. Jovens com pais velhos: que chamem seus pais de jovens.

Não tem lugar no cemitério: quero ser enterrado! O crematório está saturado de serviço: quero ser cremado!

Porque, no final, é mesmo assim: morremos tendo vivido nas idades erradas; com os corpos errados; inclinações erradas; tempo e espaço errados; ideias erradas; condições social, econômica e familiar erradas.  

Tudo é tão torto. 

Que talvez o que assassine seja sempre

E sempre

A vida-não vivida

Do morto! 

 


 


OPINIÃO
28 Fevereiro 2019 11:32:00


(Foto: Divulgação) 

Conversa amena, assuntos aleatórios, doces trivialidades: sorrisos, alegria, superficialidade. Temas demasiadamente pessoais, questões mal resolvidas, melindres: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Elogios (sinceros ou insinceros), raso cotidiano, regozijo (sincero ou insincero), contemporaneidade exacerbada: sorrisos, alegria, superficialidade. Críticas, aprofundamento de aflições, circunspecção, minuciosos relatórios do passado: fronteira aniquilada - enrijecimento, armadura acionada, maxilares trincados, terreno minado. 

Erigimos fronteiras em nosso interior; frágeis fronteiras, embora o exército que treinemos esteja sempre pronto para nos defender. Esse exército - composto dos sentimentos mais duros e letais - veste a farda da disciplina e ostenta o patriotismo da nação em que se constitui cada um de nós. 

São esses sentimentos duros e letais - amor-próprio, orgulho, senso de justiça, anseio por liberdade, por realização -, que nos enrijecem e convocam os nossos exércitos, acionam as armaduras e impedem, rigorosamente, que outras pessoas (invasores) violem a fronteira que estabelecemos. 

Enquanto as investigações alheias sondarem o orvalho da grama de nossos campos pessoais haverá sorrisos, alegria, superficialidade. Natural, são nossos amigos, companheiros, não querem invadir território, medir forças. 

Caso as sondagens extrapolem secretas fronteiras, busquem estudar fraquezas, rachaduras, intentem estabelecer as suas regras na nossa nação - e, por conseguinte, dominar nossas mentalidades -, convocaremos o exército, quando então despontará o enrijecimento, maxilares de trincarão, armaduras serão ativadas e o inimigo compreenderá: o terreno está minado.  

Para nós, o alerta: são adversários da sanidade da nação, antagonistas, vieram para colonizar nossas emoções. 

Capacitamos o exército, escolhemos o melhor armamento, adquirimos munição. Passamos a vida protegendo nossas fronteiras. Ataques virão, é certo. Batalhas, guerras, conflitos, sangue, sentimentos vazados pelas feridas, calosos traumas renascidos, tudo pela audaciosa truculência da invasão da fronteira. 

Posso discordar da maioria das doutrinações que separam os homens entre amigos e inimigos, companheiros e adversários, bons e maus, mas endosso o pensamento de Nietzsche quando nele transparece a necessidade do enrijecimento e da dureza, em variadas fases e situações da vida. 

A benevolência degenerada consiste em permissão de rompimento da fronteira. A benevolência, quando erroneamente interpretada, nos transforma em carpetes para pés aproveitadores; e aí qualquer exército se arma e vai à luta. 



Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711