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12 Setembro 2019 11:34:00


(Imagem: Divulgação)/

Os monstros do caminho, como todo mal, têm a aparência do bem. Com uma facilidade impressionante para enganar, são excelentes atores, nascem charmosos e seguros de que abaterão muitas presas, apenas com a força da vontade.

Têm talento e moldam artisticamente seus próprios disfarces. São disfarces personificados. Constroem cenas. Vivem de cenas. Vivem da arte de iludir: regozijam-se através dela, por meio dela renascem, adquirem vigor nas veias e amam: amam se sentir amados pelas vítimas do caminho; amam saber que não as amam.

Fisionomia agradável, voz suave e sorriso dócil, deixam apenas uma parte deles os trair: as mãos. Nervosas, gesticulam muito, são o solo de unhas arruinadas. Mãos que deveriam construir o bem - que possuem tudo para construir o bem -, contentam-se em acariciar primeiro, apenas porque sabem que depois, logo depois, vão destruir. Destruir é o troféu dos monstros do caminho.

Por mais cautela, prudência e frieza que tenhamos, jamais escaparemos das colossais bestas que atravessam o nosso trajeto: são maiores, mais fortes e mais inteligentes do que nós. São superiores em técnica, experiência e dissimulação. São monstros, enfim.

Os monstros do caminho atiçam a líder de todas as feras. Não a da raiva ou a do ódio, inócuas e facilmente debeladas quando comparadas com a potência destrutiva da rainha: a fera da mágoa.

A fera da mágoa, garras de vidro, precisa permanecer presa, enjaulada em nossos corações, para que não aniquile tudo à sua frente. A fera da mágoa, olhos de fogo, necessita da cegueira imposta para que não nos incinere. A fera da mágoa, quando coloca um pedaço - um pedacinho de pé que seja -, para fora da jaula, faz com que sintamos seus miasmas venenosos. Miasmas que aferventam nosso sangue, até transformá-lo em agonia pura e viscosa.

A sanidade e a alma de um escritor dependem da domesticação das feras. Mas eu, fraca que sou, ainda não aprendi a interagir com a da mágoa.

Convivendo, sem diálogo, garanto a distância da morte autoprovocada. Num acordo mudo, trancafio a selvageria capaz de estraçalhar os farelos de esperança - os quais precisam ficar, para que eu possa sobreviver, seja de que maneira for.

Ao menos assim me afasto dos monstros do meu caminho e guardo só para mim a energia da maldade que, se liberta fosse, me tornaria um deles.



05 Setembro 2019 09:39:00


(Foto: Divulgação) 

Estávamos Luiz Ruffato, Luisa Geisler e eu no food truck, que haviam instalado próximo ao centro de eventos Alexandre Júlio, em Correia Pinto, local onde nossas predileções literárias se cruzaram.

Que a música ao vivo embalasse aquele fim de noite; que eu, destrambelhada, tropeçasse nas pedras do chão de terra batida, que Luiz e Luisa se alfinetassem carinhosamente, exteriorizando a amizade, que engordássemos setecentos gramas a cada mordida de churros, nenhuma surpresa, até que o músico interrompeu uma das canções para ler um recado da plateia:

- Fulana manda avisar para o Fulano que é sua dona.

Foi instantâneo, todos no interior do carro móvel tiveram alguma reação. Risos, piadas sussurradas, revirar de olhos. Achei que não tinha ouvido direito, pensei ter sido miragem auditiva. Ou talvez o Fulano fosse um animal de estimação. A frase dançava, inverossímil na minha mente, quando Luiz soltou:

- Uai! Quem é que é dono de alguém?

Nessa única pergunta, três constatações me ocorreram: eu realmente tinha registrado o que imaginei ser impossível, Fulano não era gato nem cachorro, e Ruffato utilizou poucas palavras e seu sotaque mineiro para se referir a um tema complicadíssimo: liberdade.

Quem é que é dono de alguém?

Minha imaginação delineou celas com cadeados em forma de coração, algemas cor-de-rosa, camisas de força de pelúcia.

E a Fulana era tão dona que não pediu para avisar, ela mandou. Poderosa, sem dúvida. Sabendo dessa posse sobre si, como se sentiria o Fulano?

Em nenhum outro momento a cadência mineira tinha ficado tão marcada na fala do Luiz. Talvez por morar há muito tempo em São Paulo as maneiras de expressão foram se mesclando; porém, ao espargir a base para uma discussão universal, sem resposta e sem subterfúgios, ele voltou integralmente às raízes.

Um questionamento espontâneo que exprimiu profunda inquietude. Me perguntei qual seria a relação daquela instintiva prova das origens e a liberdade.

 Estaria a centelha do eu mais sublime indissociavelmente costurada à nossa basilar linhagem? Aquele eu que quer libertação, aquele eu que quer ser dono, se não do seu destino, ao menos de si, aquele eu com relativa autonomia, aquele eu que pretende ser alguém, não algo, não uma colônia. Estaria esse eu, completo, na origem?

O burburinho sobre a propriedade hominal logo se dissolveu. Acho que me convenci de que, tudo bem, Fulana era dona do Fulano, de um jeito tão público, anunciado de modo tão meigamente cabal que eu, quem sabe, pudesse me lembrar disso mais tarde sem padecer de náusea, desde que nunca acontecesse algo semelhante comigo: nem como proprietária nem como propriedade alheia.

De agora em diante, só sei que sempre quando refletir sobre liberdade, vou recordar a lança no estômago que foi essa indagação.

Também vou, igualmente, começar a procurar mais evidências nos princípios.



29 Agosto 2019 10:36:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Braços enlaçam o corpo, não com ternura: comprimem, ficam roxos exercendo a força do laço ao redor do ser.  

Um xis. Cruzados sobre o peito, tentáculos, asfixia de serpente faminta. Correntes acorrentando a si mesmas: a pior de todas as torturas. Quem pode libertar aquele que se encarcerou nos próprios pensamentos? O cárcere autoimposto é o mais duro antagonista: energiza-se sempre, cresce e adquire poder.

Não é apenas potente, é invencível enquanto não decide se superar. Os tentáculos corroem tudo, menos a si próprios: avolumam-se, agigantam-se, seu reinado esmigalha vidas. Vidas cinzas, vidas de cinzas, de vidas sobram cinzas.

Se vi tentáculos em alguém os invento? Vi e os invento. Vi em muitos e os invento em mim. Aflita, sinto-os em mim e meus olhos dançam tristes boleros ao enxergá-los nos outros. Outros quem? Aqueles que habitam o reinado dos tentáculos.

Acima das cobras de metal, uma mortalha: mumificados se tornam os moradores de tão fulminante monarquia. Para onde correr, se também as pernas são abraçadas pela onipresença dos tentáculos? Como se soltar, se também elas são cobertas pela mortalha?

A salvação é que dentro do sudário existe um ser humano vivo, embora angustiado e preso. E onde há vida, há perspectiva.

Vontade de se libertar: eis o primeiro passo.

Não se conformar com os tentáculos, odiá-los como se odeia um malfeitor: eis o segundo.

Amar-se a ponto de abrir os braços, mesmo sob a compressão do império: eis o terceiro.

Mas quebrar um eu cativo requer coragem porque, ainda assim, é quebrar um eu.

Resta a paz.

Resta o outro eu: aquele que fugiu do cativeiro.

Resta a liberdade.



22 Agosto 2019 10:02:00


(Foto: Divulgação) 

Poderiam ser namorados. Ele, loiro, barbado. Ela, ruiva, pequena. Ir ao cinema às quartas, viajar nas férias. Florianópolis ou Balneário Camboriú. Mais adiante, Paris ou Veneza.

Marcariam uma noite de sábado para que ela pudesse conhecer a futura sogra, uma tarde de domingo para apresentá-lo aos pais dela. 

Sairiam com os amigos em comum. Ouviriam risonhas alusões a sossego das baladas, dos solteiros.

Tomariam sorvete no verão. Ela, morango. Ele, chocolate. Trocariam quando ele estivesse na metade, ela ainda no início, distraída pelo bom humor do namorado.

No outono, colheriam folhas secas do chão e as guardariam numa caixa de madeira - na tampa, uma pintura: dois jovens de mãos dadas -, para lembrá-los do passeio ao crepúsculo, depois de um dia estressante.

Beberiam vinho em uma noite de inverno, não muito, precisariam evitar a ressaca do dia seguinte, quando iriam para Gramado.

Na primavera se abraçariam sob uma cerejeira florida e trocariam sorrisos quando uma pétala caísse, orvalhada, nos cabelos dela.

Discutiriam na escolha de um filme. Para ela, romance ou drama. Para ele, ação ou terror. Acabariam optando por um documentário sobre abelhas africanas e não assistindo.

Brigariam por ciúmes. Aquele cara olhou demais para você, na festa, já tiveram alguma coisa? Por que você ainda é amigo no Facebook daquela ridícula da sua ex?

Tudo sempre resolvido com beijos e cócegas, desculpas e promessas.

A mãe dele seria intolerante com ela, mas o filho se tornaria o próprio pano quente entre a namorada e a mãe.

O pai dela perguntaria (vagamente) sobre o casamento. Ele responderia (vagamente) que poderiam pensar nisso, daqui uns 10 anos.

Ele e o pai dela conversariam acerca de política enquanto ela se arrumaria para sair com o quase-futuro noivo.

Durante o tempo em que ele veria futebol na tevê, ela ouviria dicas sobre compotas e bordados, da quase-futura sogra.

Ele correria de carro. Ela o advertiria a desacelerar. Ele não obedeceria.

Ela vestiria minissaia. Ele pediria que trocasse por calça. Ela não obedeceria.

Ela faria pipoca para saborearem juntos, admirando a chuva cair. Ele comeria mais da metade da bacia, tão logo ela levantasse para pegar a Coca-Cola.

Dormiriam abraçados.

Poderiam ser namorados. Mas estão a mais de meia hora sentados frente a frente na praça da Matriz, cada um paquerando apenas o próprio smartphone.

Desconfio que nunca saberão nem ao menos o nome um do outro.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
15 Agosto 2019 11:55:00
Autor: Por Natália Moraes


(Foto: Divulgação) 

Sangue quente, nos olhos, espumando pela boca. Quando a mágoa chegava-lhe ao coração, perfurando-o, o sangue entrava em ebulição: quente, manchava os olhos, efervescia.

Ele sofria. Sofria com a quentura de um sangue pisado, de um sentimento espicaçado. Sofria com o ardor descontrolado, à miséria emocional condenado.

Os anos passaram, a maturidade enfim chegou. Se bem que há de se cogitar se a mudança de pensamento veio da madureza ou do ódio por muito tempo cozinhando, refogando no óleo da impotência. Sabia que não iria se vingar com as próprias mãos: não queria sangue também nelas. Pensou que deveria deixar que o Universo resolvesse. Sentiu que o Impalpável Ente seria muito mais sábio (e cruel) do que ele.

Não, não foi a madureza que transfigurou o desejo, foi um ódio maior do que ele mesmo. Uma raiva que só poderia ser extinta quando confiada à astúcia de algo superior; mais sábio e mais (bem mais) feroz.

Assim o fez. Quando, serenamente, entregou ao Universo a causa da sua indignação, compreendeu a genuína potência de uma revolta fria.

Nada realizou para macular as mãos. Aos poucos, o sangue dos olhos tornou a lugares de direito e bombeou com alegria e constância.

Parte de seu coração congelou, esperando do Universo um sinal para que pudesse saborear a doçura da verdade. Foi assim que os sentimentos se reorganizaram, aguçando-se para a glória.

A revolta, mais e mais fria, por nada sofria. Sustentava apenas uma certeza e esta lhe bastava: o Universo saberia o que fazer.

Embalado por esta convicção, alma tranquila, paciência de Jó, assistiu, mãos limpas e olhos lúcidos:

O Universo apresentou o Espetáculo.

O Espetáculo que restituía cada pessoa e situação a seus devidos lugares.

E a perfeita ordem dessa coreografia era muito mais bela e pungente do que ele jamais teria sido capaz.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
08 Agosto 2019 10:03:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) 

A mulher era quieta, isolada, queixava-se de vazio interior, de falta de significado. Mas tinha tudo: beleza, dinheiro, status. Conclusão geral: frescura. Só que um dia foi encontrada inconsciente no chão do quarto, overdose de medicamentos. A frescura a matou.

O homem reclamava: raiva do frio, raiva do calor, raiva do passado, raiva do presente e projetava raiva para o futuro. Não nutria esperanças, não era carinhoso. Mas tinha tudo: esposa, filhos, emprego. Conclusão geral: frescura. Só que um dia deu um tiro na própria cabeça. A frescura o matou.

A moça vivia chorando, tinha crises nervosas, dificuldade em se adaptar aos estudos, medo de se relacionar, sentia que não era compreendida, nem aceita, nem amada por ninguém. Mas tinha tudo: saúde física, pais atenciosos, pretendentes. Conclusão geral: frescura. Só que um dia cortou os pulsos e se esvaiu. A frescura a matou.

O rapaz só sabia se defender atacando, se sentia ameaçado por todos, desconfiava de todos, era ácido nos comentários, um mau humor constante. Mas tinha tudo: teto, alimento, boas roupas, bom carro. Conclusão geral: frescura. Só que um dia acelerou ao máximo o bom carro e avançou bem sobre um bom precipício. Quem olhasse lá de cima para o cadáver destroçado, pensaria: a frescura o matou.

A menina não brincava com os colegas. No parquinho, ia para um canto, trazia os joelhos para junto do peito e chorava. Ao se olhar no espelho se achava feia, desengonçada. Não ria. Não interagia. Mas tinha tudo: uma linda casa, brinquedos, estudava em ótimo colégio. Conclusão geral: frescura. Só que um dia, enquanto passeava, soltou a mão da mãe e se atirou à frente de um carro, tão logo o sinal abriu. A frescura a matou.

O menino quebrava coisas, gritava sem motivo, batia, afrontava. Raivoso e revoltado sem motivos, afinal, tinha tudo: bola oficial, chuteiras, camiseta autografada da seleção, viajava com a família todos os anos para o exterior. Conclusão geral: frescura. Só que um dia esperou que os pais fossem trabalhar e, sozinho em casa, deixou o gás ligado, fechou as janelas e ficou em frente ao fogão. A frescura botou fogo na casa. E também o matou.

A velha perdeu o interesse pelas leituras, pelo tricô, pelas caminhadas. Insônia, ansiedade, apetite reduzido. Não conseguia encontrar prazer nas atividades que antes lhe entusiasmavam. Passava a maior parte do dia deitada, luzes apagadas, cortinas lacradas. Mas tinha tudo: excelente aposentadoria, filhos bem-sucedidos, netos inteligentes, nenhuma atrofia orgânica. Conclusão geral: frescura. Só que um dia resolveu deitar nos trilhos de um trem, em vez de na cama. A frescura desesperou o maquinista. E também a matou.

O velho era afetuoso, conversava, praticava atividades de voluntariado. Entretanto, no fundo não sentia felicidade, a vida lhe olhava de um jeito melancólico. Chorava embaixo do chuveiro e antes de dormir, depois que a mulher cochilava. Enfrentava fases em que tinha sono demais e outras em que não o tinha. Mas não lhe faltava nada: nem atenção, nem amor, nem amigos. Se, muito raramente, reclamava de dores emocionais, a conclusão geral era categórica: frescura. Só que um dia, descobrindo os mortais poderes de uma planta tóxica, fez um chá, bebendo-o pela primeira e última vez. A frescura o matou.

A frescura tem matado tanta gente. Nos relatórios da OMS, vejo todo tipo de doença, mas frescura nunca vi. Não é doença, nem assassinato, nem acidente e, mesmo assim, mata.

Nunca pensei que a frescura tivesse tanta potência.



01 Agosto 2019 10:04:00


(Foto: Divulgação)/

Uma espécie de bloco com um ímã atrás, fixado na porta da geladeira. Flores amarelas na borda, centro azul-claro. No topo, escrito: Não esquecer. Encontro com frequência essas agendas nas casas de meus amigos. 

Lembretes importantes: não esquecer de comprar carne, arroz, pasta de dente, café, açúcar.

Não esquecer de pegar remédio para gripe e vitamina (para evitar outra).

Não esquecer de levar a tevê ao conserto.

Não esquecer de comprar ração para o gato.

Não esquecer de pagar o boleto, que vence amanhã.

Não esquecer de trocar o óleo do carro.

Tolero o prático, mas não me alegro com ele. Podem me chamar de dramática e exagerada (já me acostumei), mas sinto que estou assistindo a minha vida se dissipar quando me envolvo demais com coisas meramente utilitárias.

Com profundo desgosto, percebo que o tempo está corroendo a si próprio e que se investe muita energia no perecível. O meu medo é que empreguemos todos os nossos esforços no útil e esqueçamos, nesse meio tempo, de viver.

A urgência grita, a felicidade pode ficar para depois, sempre pode. E o depois, às vezes, não chega. O ser humano subestima a felicidade. Nunca vi nesses lembretes frases semelhantes a "Não esquecer de assistir o sol se pôr". "Não esquecer de ler um poema". "Não esquecer de ligar para o amigo, só para saber como ele está". "Não esquecer de ouvir minha música predileta". "Não esquecer de analisar as minhas atitudes, refletir se estou me tornando uma pessoa melhor, ou apenas útil".

Acho, inclusive, a palavra útil uma das mais feias da língua portuguesa. Quando xingo alguém em pensamento, me sinto bem vingada ao desejar: tomara que tome um banho de utilidade, um dia inteiro de utilidade, um mês inteiro, uma vida inteira, seu útil!

Penso que uma existência desperdiçada é aquela voltada somente à utilidade. Que sensação deve ter a pessoa que sabe que os seus atos poderiam, com facilidade, ser substituídos pelos de um robô?

Mas flechada no coração é escutar coisas do tipo: "Faz uns 3 meses que não converso com meu melhor amigo, é que eu resolvia coisas importantes". "Estava adorando aquele livro, mas deixei pela metade, fiquei ocupado com coisas importantes". "Comecei um curso de música, desisti, tinha coisas mais importantes para fazer".

E é ocupação em cima de ocupação. Utilidade em cima de utilidade. Lindas vidas estamos vivendo. Somos úteis. Se somos felizes, isso é assunto para ponderar quando não estivermos solucionando coisas importantes. Pois o que importa, importa mesmo, é ser útil.

Foi pensando nessas questões nada úteis; afinal, filosofar não enche barriga de ninguém, como diria um sábio (bastante sábio, aliás), que comprei um desses quadros de lembretes para colocar aqui em casa. Na primeira página, transcrevi um fragmento de uma crônica da Cecília Meireles:

"Tudo se vai tornando árido, meramente utilitário. E Deus sabe se é só do imediato e do indispensável que vive o homem!".

Na segunda e última (vou desprezar todas as outras, enquanto não assimilar esses dois ensinamentos), em letra sentida, grafei:

Não esquecer de viver.



25 Julho 2019 09:40:00


(Foto: Divulgação) /

Anabelle entendia de tudo. Sabia tudo. Suprema esperteza. Delineou uma rota para si e nem a mais sábia força poderia persuadi-la a desertar de suas pretendidas verdades, porque Anabelle era rainha de si.

Sempre arrumada, cabelo preso, ai do fio que ousasse sair do prumo: extirpava-o na hora. Circunspecta, taciturna, o mármore personificado: ai do riso que se atrevesse a escapulir, trancava-o na garganta, porque Anabelle era rainha de si.

Longo salto, elegante saia, camisa social, cores sóbrias, sorriso sóbrio, olhar sóbrio. Perfeitas combinações.

Anabelle entendia de tudo, sabia tudo, desde que o mundo se mantivesse estritamente nos padrões por ela moldados, mas bastava que um pensamento fugisse do seu domínio para que se desequilibrasse dos saltos. Então Anabelle não era mais a suprema esperteza. Anabelle era, nesse caso, apenas o que sempre foi e nunca admitiu: uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Anabelle gostava de salas fechadas, pouca luz, cortinas carrancudas. Nada de natureza. Fique quieto, pássaro; pare de exalar seu perfume, flor. Foco. Foco. Anabelle era tão focada que nada via além de si.

Um só desígnio. Um só objetivo. A vida é desse jeito e acabou. Foco. Foco. Na realidade, Anabelle tinha era medo de se aventurar em outras paragens e gostar. Anabelle evitava a leoa que sabia dormitar dentro dela. Receio do animal selvagem. Preferia ignorar instintos e emoções, negar vontades. Foco. Foco. Porque Anabelle era bicho domesticado, rainha de si.

Anabelle zombava de quem pensasse diferente. Porque existe um único caminho para o sucesso, uma única definição de sucesso e era ela, claro, quem detinha esse caminho e essa definição. Guardava-os em suas mãos pálidas que nunca sentiram o sol.

Só que um dia Anabelle esbarrou em Ana. Assim, ao acaso, na calçada. Ana segurava livros e Anabelle, uma pasta: preta, sóbria, circunspecta, taciturna. O potente esbarrão quebrou o salto de Anabelle e só não rasgou a meia-calça porque, logo abaixo de seus joelhos, haviam aterrissado livros.

No chão, colérica, Anabelle levantou a cabeça e, somente então, viu Ana. E Ana, a despeito das calças largas, dos sapatos baixos, da camiseta puída e multicor, dos cabelos soltos, era muito parecida com a outra. Os traços do rosto, as dimensões do corpo, a cor dos olhos. Uma diferença, contudo, existia. O sorriso de Ana era entusiasmado e acolhedor; e ainda que não portasse adjetivos, Ana tinha um sorriso.

Ana sorriu enquanto estendia uma das mãos para levantar Anabelle.

Anabelle pigarreou, enrijeceu o semblante e tentou se erguer sem ajuda. Ana recolheu a mão, resignada e, resignada, se abaixou, começando a apanhar seus livros.

A ausência de exercício, entretanto, impediu que Anabelle saísse da posição a que a quebra do salto a relegara. Ana voltou a ofertar a mão, sem nenhum sinal de melindre.

Anabelle, finalmente aceitando o auxílio, observou aquela amizade castanha e sincera que eram os olhos de Ana: dançarina, poeta, musicista, caminhante. Leitora, imaginativa, versátil, sonhadora. Pintora, escultora, dramaturga, artista. Nômade, colorida, orientada em sua desorientação. Ana era tudo aquilo: aberta a possibilidades, pois Ana era muito mais do que rainha de si, Ana era uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Em pé, ainda segurando as mãos de Ana, Anabelle teve uma impetuosa vontade de abraçar aquela desconhecida tão bela, tão mais linda do que ela, tão mais autêntica, melhor.

Ana continuou sorrindo. Porque Ana, Ana tinha um sorriso.

Anabelle comprimiu os olhos e sentiu graúdas lágrimas fazerem um estrago na maquiagem cara. Não se importou: enlaçou Ana e, com delicadeza, apertou.

Ela não soube dizer quantos minutos, horas, dias, meses ou séculos durou aquela ternura.

Mas quando voltou a encarar o mundo, abrindo os olhos, diante do mutismo estarrecido dos passantes, percebeu que não havia livros espalhados, apenas a pasta, no chão, e o salto, fraturado.

 Percebeu mais: percebeu que seus amorosos braços estavam ao redor de si mesma.



18 Julho 2019 11:26:00


Nos amores da alma, me demoro; porque eles, embora não mais existam, embora talvez nunca se repitam, acontecem quando sonhados.  

Há dois mil anos alguém falou que onde estiver nosso tesouro, lá também estará o nosso coração. Shakespeare endossou, dizendo que somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos. Mesmo que eu realizasse um desejo por dia, uma vida seria pouco para tornar concreto tudo aquilo que quero. Por isso me transformei em escritora diletante e sonhadora profissional.

Minha alma, tão fechada ao escrutínio alheio, se abre quando sonho. Quanto suspiro aliviado na irrealidade tão real do sonhar. Quanto aperto afrouxado, quanta algema quebrada.

Aquelas bonecas, animo-as com a imaginação. Tenho-as novamente nas mãos, desfilo e danço com elas, faço chá, bolachas de argila. Sou menina de novo. De novo feliz.

Aquelas cartas trocadas. Duda e eu trocávamos cartas, quando crianças. Refaço minha letra comoventemente feia, relembro a dela, tão melhor. Me contava dos estudos, do balé; eu, dos livros, das histórias já então idealizadas.

Aquela preguiça da catequese, da escola, dos horários. Ressuscito aquela preguiça deliciosa quando comparada ao amortecimento espiritual que tantas vezes me arranca do sonhar.

Aquele apavorante filme de terror. A Gabriela escolheu. Todo mundo gostou, menos eu, enormemente sensível.

Aquela tarde chuvosa de sábado, assistindo a uma série.

Aquele sabor de infância no doce de leite do qual eu abusava.

Aquele amor impossibilitado pela distância física, está aqui, agora, pela proximidade emocional. Sorrio com seu sorriso. Me permito ser menina de novo, em seu abraço.

Aquela amiga que partiu, foi morar em uma pátria metafísica, vem me visitar sempre que a lembrança dos seus conselhos suaviza algumas das minhas duras visões de mundo.

Aquele entardecer compartilhado, carinho na pele, refulgir de olhos. Eles estão aqui.

Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar.

Palpita a saudade. Cartas da amiga, filmes com a prima, risadas com os pais - até as palmadas dos pais -, minhas bonecas, aquele garoto.

Ressuscito, revivo, reconstituo. A realidade morde e o sonho assopra.

Nada foi em vão, sei. Tudo permanece eterno aqui dentro. O tempo pode destruir muita coisa, menos as memórias que desejo vivas.

  Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar!



11 Julho 2019 09:53:00

Leitores, nesta semana, um poema, inspirado na poesia "Caso do vestido", do Drummond

(Imagem: Divulgação) /

De angústia não morro mais.

Assassino da minha liberdade, ficou para trás.


Desde que teu pai se foi, filho meu,

Novo frescor veio ao peito.

Acabou-se o avesso-Romeu.


Teu pai era diabo bonito, menino.

Bonito diabo de olhos de mato, filho meu.

Me morria, me matava

E ressuscitava apenas a si próprio, filho meu.


Vê aquele vestido? Ganhei do belo capeta.

Vermelho como o sangue do teu irmão,

Que no parto padeceu, filho meu.

No parto morreu e me morri junto, filho meu.

Chorei aquele vermelho doído.


De consolo, a surra do teu pai, filho meu.

Daquelas mãos traiçoeiras vieram carícias e cicatrizes.

Ele tinha força, filho meu.

Tinha ódio e força, e eu... Eu tenho saudades.


Saudade do dia em que das mãos veio o vestido.

Saudade da manhã que em meus braços segurei o teu irmão

Que já nasceu abatido.

Tinha ódio e força teu pai, filho meu.

Sorria e me encantava.


Quando não bebia era todo brilho aqueles olhos de mato,

Era toda sol aquela boca de primavera.

Sorria e não maldizia, filho meu.

Sorria, ah, sorria.


Perdoe o orvalho que desce por meus olhos, filho meu.

Olhos que não são de mato, como eram os do teu pai,

Mas de dores e saudades, filho meu.

Eu tenho saudades.


Saudade do Belzebu, filho meu.

Saudade das mãos dele, filho meu.

Saudade do mato dos olhos, filho meu.


Saudade da alegria que antecedeu o parto, filho meu.

Saudade do bercinho azul do anjo que está com o Senhor, filho meu.

Saudade do anjinho.


Saudade dos sapatinhos.

Saudade dos pezinhos que já nasceram tão mortos.

Saudade do sangue perdido, filho meu.

Saudade do vestido.



04 Julho 2019 16:13:00


(Imagem: Divulgação) /

Uma cortina de veludo branco, luminosa. A milhões de quilômetros de distância, só pode ser vista com a imaginação. O ser dá o primeiro passo, confiante.

Na sua mente, sabe: o brilho da cortina o fará sorrir. Dá mais um passo, esperançoso.

A cortina estará suspensa sobre uma plataforma e receberá, continuamente, as luzes dos refletores: azul, verde, vermelho, roxo. O ser já consegue sentir: o poder representado pela cortina o fará palpitar. Caminha mais, alegre.

Para o ser, a cortina terá suporte de ouro e na barra pingentes de diamante. Anda ligeiro, sente cheiro de refinamento.

Brilham os olhos do ser; em seus ouvidos, uma rica canção.

O ser corre.

A cortina está próxima, ele não vê, mas sabe, sente; materializa vapores aromáticos ao redor do palco e da cortina. Vapores penetrando o branco. Vapores ricos.

O ser chora. Imenso contentamento pulsa na garganta. Tudo pulsa de um jeito delicioso: pés, pernas, ventre, braços, pescoço, nas costas um arrepio: vai alcançar.

Corre o ser e vislumbra a cortina, neste exato momento recebendo um jato de coloração amarelo-ouro.

A ganância do ser não o faz notar que seus pés estão machucados, que romperam-se ligamentos, que nesta corrida insana degeneraram-se fibras, verdades, sentimentos.

Corre o ser.

A cortina é potente, ele prevê. O que tem por trás dela o será ainda mais. Apressa-se para descerrar o enigma; subir as escadas envernizadas do palco e, num arrebatamento, descobrir o que há logo atrás do mistério luminoso que tão majestosamente domina seus pensamentos.

O ser agora é velho. Passou a vida correndo para alcançar a cortina. Mas não se arrepende: tem as narinas tomadas pelos vapores cheirosos, os pelos dos braços eriçados, que sensação, que glamour!

Aspira: aroma de riqueza, de luxo, ostentações várias.

Chega. Com as pernas trêmulas, para diante das escadas. Sobe. Um. Dois. Três degraus. Pisa no palco. Nem pode acreditar: está no palco. Arrasta os pés detonados com o intuito de se convencer: está no palco.

Suas mãos vacilam. Bem em frente à cortina, hesitam: terá forças para puxar? Terá equilíbrio suficiente para administrar a imensidão da felicidade que recairá, muito viva, sobre si?

Respira. Fecha os olhos. A Cortina, ser! Você está olhando para A Cortina, ser!

Ah, os vapores, tão perfumados.

Abre os olhos. Chora. Pulsa. Treme.

Estende as mãos de dedos pálidos e enrugados. Puxa.

Atônito, fixa o palco.

Não tem nada ali.



27 Junho 2019 13:34:00


(Foto: Divulgação) 

Secura. A pele do rosto muito branca e seca, dedos esturricados pelo contínuo manuseio do papel; olhos secos, não apenas pela ausência de lágrimas catárticas, mas também pelo brilho evaporado. Um cacto sobre a mesa.

Secura. Palavras escassas e frias. No tom transparecendo recortes da aridez interior. Lábios partidos, sequiosos, sôfregos pela tênue hidratação do áspero batom. Um copo vazio ao lado do cacto.

Secura. Atendimento lacônico, nenhum sorriso, nenhum retórico bom-dia, ou boa-tarde; acho que já passa do meio-dia.

Fotocopia meus documentos, carimba, anota, bate em teclas no computador, ruído de impressora, tesoura devorando arestas.

Cadastro efetuado com sucesso. Sucesso do cadastro. Sucesso das securas. Sistema emperrado. Ela retira da gaveta um creme para as mãos. Manteiga de Karité. Aperta o tubo e ele retribui vomitando uma tripa branca, pegajosa, com cheiro de sebo tratado. Dissolve a tripa na palma das mãos, no dorso, nos dedos, as unhas ficam engraxadas.

Com um apito, o sistema retorna. Ela esfrega as mãos. Agride mais algumas teclas: dedos ainda secos, olhos vazios e concentrados num turbulento nada. Brilho evaporado. Ordena outra cópia.

Enquanto a impressora se mostra mais viva do que sua comandante, a gaveta é novamente aberta; de lá, a mulher pega um colírio. Experiente, joga a cabeça para trás e pinga uma gota em cada olho, fechando-os com força em seguida.

Levanta-se para resgatar a folha cuspida pela impressora. Passa uma das mãos pelos cabelos, deixando um rastro de sintético perfume na secura dos fios.

Volta a sentar, largando o peso do corpo enfadado. Selo. Carimbo. Rubrica. Um enter no computador. Atendimento finalizado. Olha sugestivamente para mim, mas não diz nada: a garganta muito cansada.

Abro a carteira, conto as cédulas. Neste ínterim, ela levanta de novo, empunhando o copo seco, vai até o filtro, abastece-o e volta. Derrama um pouco da água na terra rachada do cacto. Um fraquíssimo movimento de lábios quando deposito a importância sobre o balcão. Um gole. Logo imagino fina garoa descendo sobre um solo endurecido.

Dinheiro transferido de mãos, guardado, contido, armazenado: o motor das mais diversas securas.



20 Junho 2019 09:19:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um misterioso magnetismo nos acorrenta ao transitório, impedindo que sigamos, assim que o que sempre passa cumprir seu imutável destino e passar.  

Algemas nos pulsos, algemas nos pés. Prisões emocionais imobilizam mais gravemente do que as físicas. Um corpo preso não significa uma mente acorrentada, mas uma mente acorrentada sempre gera reflexos num corpo livre.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim. Empregos que algemam, relacionamentos que algemam, algemados pelas opiniões alheias, algemados pela moda, algemados pelo passado.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim.

A mulher que se recusa a buscar um trabalho que a satisfaça, pois é seguro aquele em que está, embora a torne infeliz. Algemada.

O marido incapaz de admitir que a separação é o único caminho possível, apesar de a convivência com a esposa ter se transformado na versão hominal do inferno há muito tempo. Algemado.

O rapaz que quer ser músico, mas vai fazer Medicina para realizar o sonho do pai. Algemado.

A moça que detesta sapato de salto, abomina roupas curtas e odeia maquiagem, mas se monta para ser aceita pelo grupo. Algemada.

A velha que errou muito quando jovem, que mentiu, que enganou, que humilhou, e hoje não consegue se perdoar. Algemada.

O velho que já foi vítima de mentiras, de enganos, de humilhações, e agora não pode mais confiar em ninguém. Algemado.

A mulher que alimentou uma ideia por anos, e atualmente percebe: esteve errada; no entanto, mantém a mesma postura, evitando assim ser desacreditada diante das pessoas. Algemada.

Algemas nos pulsos. Algemas nos pés.

Meus passos vão ficando mais lentos e mais difíceis cada vez que sinto uma emoção sufocada. Algemas nos pés.

Meus pulsos comicham sempre que tranco em mim as minhas vontades para cumprir as dos outros, doem quando sentem o aço das convenções se fechando em torno deles. Algemas nos pulsos.

Algemas nos pés e nos pulsos. Vejo-as em todos, sinto-as em mim.

Enquanto transito pela movimentada Avenida Rotary - a passos vagarosos e pulsos comichando - todos são prisioneiros, exceto um menino de cinco, seis anos, que passa correndo por mim.

Numa esquina abre os braços, em segundos uma borboleta azul se acomoda em seu pulso esquerdo: sem nenhum sinal de algemas.


13 Junho 2019 11:20:00


(Foto: Divulgação) 

Nos vimos ontem e luto para me perdoar pela minha meia culpa, diante do que acabou acontecendo.

Olhares vagamente cruzados; num cumprimento ligeiro, mãos em contato. No paladar, gosto de passado vencido; no olfato, odor de lembranças empoeiradas; no som de nossas vozes, barulho de aço arrebentado: elo partido.

Agora acabou-se. Ou melhor, acabou-se há mais tempo, bem mais tempo, mas só ontem, num pacto silencioso, admitimos. Só ontem as almas, um pouco mais amadurecidas, puderam constatar: acabou-se.

Não que a cortesia nunca mais seja possível, não que a civilidade seja difícil; pelo contrário, quando acaba, quando acaba de verdade, quando inexiste um elo, é fácil ser desinteressadamente dócil, calmamente impessoal.

E não. Não, leitor. Não imagine nenhum pretérito romântico aqui, sinto muito. Éramos almas afins, cultuávamos interesses em comum. Comovidos por motivos semelhantes, queimados pelas mesmas brasas emulando experiências, mas nunca houve um além erotizado.

Acabou-se. As razões de seu sorriso não ecoam mais em mim. A melodia de seu riso hoje é incapaz de mover fibras, incentivar emoções.

Muito crianças. Éramos muito crianças quando a amizade nasceu. Foi se consolidando o afeto, crescendo a admiração recíproca, segredos trocados, confidências para nunca serem utilizadas, apenas mutuamente partilhadas. Aí, aconteceu em nossas vidas o que acontece na de muitos, quando à força nos tornamos adultos: mudança de prioridades, de cidade, de sentidos.

Há anos nossa ligação era virtual. De início, um e-mail por semana; depois, dois por mês. Um a cada dois meses. Dois por ano. Um a cada dois anos. E tanto nos distanciamos, tanto nos esquecemos, que hoje, hoje acabou-se. O elo não era de aço, descobrimos. Era de tecido, e de um tecido bem vagabundo, diga-se.

Estranho é que não doeu. Não ontem. Ontem foi só o fim oficial. Foi ferindo antes, aos poucos e com intensidade, enquanto o pano se desintegrava, mas o fim... O fim representou apenas o desmanchar do último barbante.

Deixamos de ser amigos, fato. O amor fraternal se afogou na correnteza dos compromissos, na água envenenada do que, muitas vezes, se torna a vida adulta. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

Conhecidos, nada mais. Partiu-se o elo. Não nos preservamos. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

O que ainda dói é a culpa.

O fim?

O fim já doeu.



06 Junho 2019 11:39:00


(Foto: Divulgação) /

Na época, eu nem era assim, tão doida. Porque a loucura, longe de ser demência, representa uma lapidada arte.

Mas, como eu dizia, no tempo a que me refiro essa arte ainda não estava assim, trabalhada.

A infância: ingênua veneração aos adultos, inocência em busca de aprovação. Não creio ter sido uma criança original; não era louca, afinal, originalidade é clara indicação de loucura.

Não era original, pois. Era correta. Elegia padrões de procedimento e os seguia. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Fui uma doce criança. Não parece, mas fui, garanto, podem perguntar por aí. Só chantageava os meus pais quando queria pousar na casa de uma amiga e era pela autoridade deles impedida. Só provocava meu irmão em tom baixo, para depois negar a provocação, com o sorriso meigo da criança miúda e inocente. Só esperneava quando contrariada.

Minhas contrariedades: levantar cedo, diminuir a ingestão de balas, escovar os dentes, arrumar os brinquedos, não arranhar o irmão. Poucas contrariedades. Uma doce criança, repito. Porém, na verdade, acho melhor não perguntarem a ninguém. Apenas acreditem em mim, não minto, nunca.

Independente da docilidade que, neste momento, pode estar sendo questionada por vocês, no íntimo eu era cordata, sim. Bastante. Até demais. Queria revolucionar na superfície, mas no essencial era quieta, não questionava e por isso não sofria. E por isso não vivia.

Uma das brancas ovelhas de um imenso rebanho chamado humanidade. Uma integrante do rebanho. Tão somente uma integrante, pouquíssimos traços destoantes. Qualquer adulto poderia ser o meu pastor. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Hoje, contudo, percebo que a agitação iniciada no raso um dia nos leva ao fundo. Mergulhamos. Há momentos em que sentimos: vamos nos afogar; há outros em que submergimos gravemente: Mergulhar em si mesmo conduz a uma emersão mais pura, me disse uma amiga. Quem sabe. Mas hoje não acredito em nada gratuitamente, não permito a ninguém me pastorear.

E assim, a tonalidade da ovelha, aos poucos, foi se modificando. Amarelo-queimado tão logo notei que o mundo não era cor-de-rosa. Marrom-chocolate-estragado ao identificar o gosto amargo dos enganos. Atualmente curto um cinza-escuro, que vai ficando mais sombrio no ritmo da germinação do conhecimento.

Meu objetivo, vocês já devem intuir: me tornar uma ovelha negra. De um negro profundo, diferente, só meu.

Porque originalidade é loucura, mas loucura muito mais interessante que uma revolução de superfície.



30 Maio 2019 10:52:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Ao se aproximarem os finais da vida - quantos em uma só? - pressentimos os encontros cabais. Mudamos de casa, de cidade, de emprego. Fazemos outro curso, adquirimos outro hobby, vivemos sob a égide de novas perspectivas. Substituições demonstram que finais vêm ao nosso encontro, por mais que não procuremos por eles e, na maioria das vezes, nem os desejemos.

Centenas de vidas em uma única vida já se despediram. Ficamos. Mas ficamos ruminando a necessidade de voltar? E se queremos voltar seria, talvez, para refazer? Não nos satisfez o que encontramos no final?

É um exercício de sondar as profundezas, veja bem, de resgatar perfumes ou podridões, de beber das nossas atitudes sem saber se essa poção vai nos matar.

Ou sabemos, sim. Sabemos até que ponto o cálice foi conspurcado. Sabemos exatamente a fração de líquido da taça que descerá rasgando a garganta. Sabemos em qual parte vamos engasgar. Sabemos inclusive se o cheiro vai nos entontecer antes mesmo de levar o copo aos lábios. Sabemos também se nossa boca brilha ou arde com as palavras ditas, amarga ou sorri com os silêncios, crispa ou alivia diante das lembranças dos beijos.

Sabemos a procedência desses beijos, se de traição ou de amor, lealdade ou mentira.

Nem sempre são caminhos longos a nos conduzirem a um término. Nem sempre são martírios de anos, alegrias de décadas. São caminhos. A intensidade deles determinará suas extensões dentro de nós.

Seguimos: caminhando, correndo, nos arrastando, rindo, gemendo. Seguimos: no escuro, na claridade, de pés no chão, calçados, felizes, frustrados. Seguimos: nos arrependendo, sofrendo, alegrando, vivendo. Percorremos esses customizados caminhos: diferentes, para cada um; semelhantes, em muitos trechos, para todos.

No final, um copo sobre uma plataforma. Plataforma resplandecente ou obscura? Você sabe, você construiu.

O copo é grande? Está cheio, pela metade, vazio? Você encheu ou esvaziou? Você sabe, entornou lágrimas ali, boas ou más ações. Você sabe.

Você sabe de tudo. Pôde escolher fazer ou não fazer e o que fazer, até o final.

Só que, no final, a vida não te dá mais opção: terá que tomar do seu próprio cálice.

Morrerá à míngua? Não tem nada na taça?

Se tem...

É conteúdo amargo ou doce?



23 Maio 2019 10:51:00


(Imagem:Divulgação) /

Esperava o amanhã, tinha planos para o amanhã. O seu amanhã não veio. A vida foi o ontem, o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Mesmo com poucas palavras, creio que vocês já sabem a quem me refiro. Colega de ofício, escreveu. Escreveu poemas, histórias, memórias. Escreveu, pesquisou, informou. Esperava o amanhã, só que o amanhã... O amanhã não veio.

O ano nem chegou à metade e já é o segundo amigo que se vai. Viveram o ontem, viveram o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Não é raro - é mesmo saudável - que pensemos no amanhã. Mas quando o amanhã se torna hoje e nos esquecemos de viver o agora para tão somente planejar o que pode nem chegar, talvez tenhamos a sensação de previdência, porém, se refletíssemos que o amanhã é ilusão, uma fantasia volúvel, provavelmente agiríamos com mais intensidade enquanto há tempo.

O amanhã impossível não significa apenas a morte. O amanhã impossível pode ser a mudança de trajeto, a diferente perspectiva, a pessoa, situação, alegria ou tristeza que te empurram para outra direção.

Todos planejamos a vida. Suprema ingenuidade com cara de sabedoria. A vida é maior. Porque a vida abriga em seu bojo a morte. E a morte é uma mal-educada que não pede licença, uma desajustada que nos arrasta com ela quando quer, não importa idade, interessa menos ainda se queremos ou estamos preparados. A morte, a morte, sim, reina.

Seja por acidente, doença ou outro subterfúgio que a morte encontre para realizar sua vontade, deixa como herança uma única sentença: haverá um amanhã que não vai chegar.

Se o meu amanhã impossível fosse mesmo amanhã, eu não estaria de bem com todo mundo, nem com o perdão nos lábios ou com a tolerância no coração. Há sentimentos de pouca beleza que encalacram e talvez não desencalacrem nem no momento fatal.

Sinto muito ser tão humana até ao projetar o meu amanhã impossível, mas a realidade é essa: não me tornarei imaculada apenas porque um dia vou morrer e as pessoas que vão ficar não se transformarão em anjos de candura, merecedoras da isenção de seus atos, apenas porque sentirão o cheiro da morte mais próximo delas.

Falo por mim. Mas sei que os amigos a quem me reporto estavam bem menos contaminados pela amargura e que, possivelmente, se foram muito mais leves do que eu iria. Entretanto, conhecendo-os tanto quanto essa curta vida permitiu que os conhecesse, também intuo: concordariam comigo - há certos defeitos humanos que nada suprime, muito menos a inexorável morte.

Um dos defeitos que a morte, além de não apagar reforça, é a nossa revolta com ela. Sinto falta, sim. Fico triste com a passagem deles, mas fico brava, também. Sei que não deveria, que cada um tem sua hora, que a vida é um sopro e blábláblá, mas eu não queria e ponto. Se a morte me ouviu? Não me deu a mínima.

Apesar de esperarem o amanhã, com o entusiasmo aos dois inerente, ambos, presenciando minhas crises de ansiedade, advertiam: "Viva o hoje", "Você se preocupa demais com o amanhã".

Tento seguir o conselho desses amigos, todavia, não sendo perfeita - sendo inclusive antípoda da perfeição -, nem sempre consigo e por isso peço que ao menos vocês, leitores, caso possam, pratiquem a essência dessas exortações e se perguntem, ao final de cada dia:

E se o amanhã não existir?

Aos amigos:

Sebastião Luiz Alves e Franciele Gasparini.



16 Maio 2019 10:58:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

O tema não é inédito nesta coluna. Mas por mais que se escreva sobre ele, creio que nunca serão abordadas todas as suas sinuosidades. A consciência. Os terrores da consciência. Os tormentos mentais inacreditáveis a que o ser humano se entrega para se purificar das próprias atitudes.  

Um caráter torto prejudica a sociedade, porém, antes disso, muito antes disso, envenena o indivíduo. O caráter torto é o maior inimigo da consciência. E ela, exatamente pela sua característica principal - a justiça -, volta cobrar.

Não se trata de conspiração do bem ou do mal, de energias misteriosas, de enigmas do universo. Tudo límpido - lei. Lei basilar: causa e efeito. Plantar e colher. Agir e receber a reação pertinente. Científico. Lógico.

Gravar em código, pra quê? O elementar já vem insculpido nela - rainha e salvadora, severa e certeira, julgadora soberana: a consciência.

Penso em uma engrenagem perfeita, com minúsculos mecanismos que a compõem e a fazem rodar - nossas atitudes. Máquina salvífica ou mortal. Cada erro quebra uma peça. E a vida caminha. E caminha. Mas a engrenagem é uma só. Chegará o momento em que, independente de perdão ou de condescendência, precisaremos da peça que quebramos. Ou consertamos ou nada mais gira. A vida encalha.

Nesse momento, o momento nevrálgico do acerto de contas, nem mesmo a mais sincera absolvição do ofendido - peça quebrada - será suficiente para que a engrenagem volte a funcionar. Então nós, investidos do papel mais vergonhoso de todos - o de ofensor - vamos remoer, repisar e recalcar a nossa ação leviana.

Estragamos o mecanismo ideal para o nosso crescimento. Esnobamos a nossa guia. Fechamos os ouvidos para a consciência. Destroçamos uma peça. E agora precisamos dela, inteira, para completar a jornada.

O círculo estava tão saudável! Girando tão bem! Uma peça, uma pecinha só. Uma ofensazinha, que tem de mais? Uma pessoa magoada, o mundo tem tantas.

Eu sei, sei que me consideram demasiadamente rígida. Que certas coisas devem ser relevadas. Que nem tudo é assim, tão a ferro e fogo. Porém, são as inúmeras observações e a coerência do universo que declaram, não eu: a peça rachada fará falta, na vida de qualquer pessoa. A engrenagem, uma hora ou outra, vai parar. O conserto será indispensável. Sem isso, onde a justiça? Nesse dia a ofensazinha esquecida, a humilhaçãozinha que está no fundo do baú irão se avolumar, serão fantasmas a nos torturar, serão vozes a gritar. E a engrenagem... a engrenagem não vai girar.



09 Maio 2019 10:23:00


(Foto: Divulgação)

Quanto mais tenta aparentar naturalidade, mais afetado se mostra. Aguarda na fila ao lado da minha, na Lotérica da Salomão. Os dedos de unhas roídas mexem no celular, mas acho que não há nada de interessante ali, pois logo os olhos dançam nervosos, percorrendo todo o ambiente, sem parar em nada ou em ninguém.

Guarda o aparelho do bolso, rói a unha do indicador esquerdo, respira de maneira barulhenta e superficial, olha para cima, para os lados, para mim, sem me enxergar; eu, todavia, vejo angústia nas íris pretas. Sorri mecanicamente para um senhor que, numa demonstração de amizade, lhe bate nas costas.

Sim, leitores, vocês me conhecem: como não sei o que se passa, vou deduzir. Só que até mesmo para cogitar precisamos de dados inquestionáveis. O único que consegui notar é que há aflição ali. Muita aflição. Aflição incapacitando a garganta, aflição saturando os olhos, aflição inquietando o respirar, o pensar, o esperar; aflição escorrendo dos dentes às unhas.

Dor? Perda? Remorso? Indecisão? Aposto no remorso. Mas não descarto os outros três sentimentos, porque da indecisão pode muito bem ter nascido uma atitude infeliz que levou à perda e à dor. Dor que se desdobrou em remorso.

A fila avança. A dele, a minha continua empacada. Não estou mais ao lado do homem. Vejo agora a parte de trás de uma cabeça grande para um tronco apequenado. Será que estou sendo filosófica ao supor que foram os passados equivocados daquele homem que se converteram em ideias densas, incomodativas, renitentes na cobrança? Uma consciência gorda é o que intuo logo acima do pescoço magro, de traqueia consumida pela culpa?

Há manchas de suor em suas costas. Camiseta vermelha. Todo o ciclo de angústia recomeça: a unha do indicador esquerdo não é deixada em paz, os suspiros saem com ruído, agora uma roliça gota de suor brota da nuca. Os sinais não são apenas de impaciência. Me desculpem a pretensão, mas detectar aflições trancafiadas é a minha especialidade. Talvez por farejá-las, mas mais provavelmente por serem reflexos de mim mesma.

Não, não apenas impaciência. Chega a vez dele. Fecho olhos e ouvidos a tudo o que não seja aquele homem. Preciso observar com atenção antes que se passe esse capital momento analítico.

Rápido em tirar a conta e o dinheiro do bolso. Ágil em contar as notas. Silencioso ao colocar os dois abaixo da abertura do vidro. Aflição trancafiada, não há dúvida. Rala conversa com a atendente. Sins e nãos objetivos. Evitando contato. Aflição trancafiada, não há dúvida.

Finalizado o atendimento, se volta para sair e me vê. Neste momento me vê, de fato. Minhas íris são mais claras que as dele, mas tão intensas quanto. Reconhece de imediato uma repetição sua ali. Reconhece outra aflição trancafiada, talvez não pelos mesmos motivos que ocasionaram a dele, quem sabe entreveja em mim uma aflição de mágoa. E quem sabe esteja correto.

Porém, que encara uma aflição trancafiada, disso parece convicto; pois ele, assim como eu, também deve precisar de uma certeza para que só então possa analisar.

Sai da Lotérica. Continua a cogitar. Hipóteses pululam em sua mente.

Como sei dessas particularidades?

Detectar aflições trancafiadas são as nossas

Especialidades.



02 Maio 2019 10:34:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Assistia, de longe, ao show. Não foi em Curitibanos, não foi agora, faz tempo. Um tempo imenso. Não ouvia a música. Era rock, banda conceituada, meu gosto musical. Mas eu não ouvia a música. Escutava apenas os ruídos internos que nunca me permitiram concentrar absolutamente em coisa alguma. Me ensurdecem, me embriagam, tenho milhões de vozes interiores que, entretanto, me conduzem a um silêncio inelutável.  

Ele estava lá. Muito mais perto do palco. Longe de mim, bem longe. Distante, inalcançável. Também sozinho, mãos nos bolsos. Quantos anos, mesmo? Além do tempo, quantas ideias, visões de mundo e inflexibilidades nos separavam?

De costas, os cabelos claros mudando de cor ao sabor das luzes vindas do palco. O azul cristalino do céu que fomos. O vermelho das nossas fúrias unidas. O branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida. O preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo. O preto do rock. O preto daquele dia.

Insensível à música, desconsiderou quando uma moça tocou seu ombro, fingindo ter esbarrado, mas na nítida intenção de encetar contato. Uma mulher sempre sabe da intenção de outra mulher; sobretudo quando essa outra mulher se aproxima de um passado irresolvido seu.

Só que ele permaneceu indiferente, apenas elevou o ombro requisitado, como se espantasse uma mosca. A mulher se afastou. Não foi propriamente alegria o que experimentei, mas um sentimento de alívio me inundou.

Eu não iria até ele, estava decidida. Ele não tinha me visto. Então, tudo certo. Porque o passado, quando indigesto, se reavivado não vai se contentar em ser desconforto administrável: vai queimar as entranhas.

Fechei os olhos por uns segundos, ou foram minutos? Ou horas? Ou vidas inteiras? A minha vida e a dele, no passado cruzadas, voltavam, conectadas, naquele fechar de olhos. Em meio ao esmagador barulho, ninguém deve ter reparado na minha abstenção. Se alguém olhasse veria uma mulher-menina, vestida de preto, os olhos lacrados, só isso. Mas eu, eu via um passado. Eu via dois passados. Entrelaçados.

Sucessivamente, por trás daquelas pálpebras tão inocentes, concebia o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida, o preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo.

Me senti obrigada a abrir os olhos quando alguém, num gesto semelhante àquele da moça, e certamente tão intencional quanto, tocou meu ombro.

Fui descolando os cílios, elevando-os, fazendo de meus olhos já pequenos apenas uma fresta, para enxergar que intromissão em forma de gente ousara me arrancar das memórias.

E lá estava ele. Ao meu lado.

Estava ao meu lado, como nunca esteve.

Sorriu.

Era ele... mesmo?

Os olhos pareciam mais vivos, livres das escuras incertezas de outras épocas.

Me fiz incapaz de corresponder ao sorriso, quem sabe em uma inconsciente forma de vingança. A infalível engrenagem do universo. Naquele momento, se apagaram o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída, o amarelo de uma serenidade nunca obtida. Restou apenas e tão somente o preto do fim.

O preto de um fim anunciado desde o começo.

O preto do rock.

O preto daquele dia.

Inclinou a cabeça, confuso diante da falta de receptividade. Constatei que era ele, sim. Constatei mais: constatei que a nossa história havia acabado.

Uma só cor restava:

O preto das dúvidas dele.

O preto das fulminantes ausências.

O preto de uma reciprocidade que, agora, era eu quem negava - a infalível engrenagem do universo.

O preto de um retorno impossível.

O preto do fim.



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