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OPINIÃO
27 Fevereiro 2020 06:24:00


(Foto: Divulgação)

É uma pena que você já não esteja mais aqui. Sua partida representou o definitivo; embora, concretamente, possa ser apenas transitória. É uma pena, mas, na vida, interessa mais a forma como sentimos as coisas do que como elas são na realidade.  

A realidade, aliás, importa pouco para muita gente e nada para um escritor.

Você se foi, é fato. É fato e é uma pena. É uma pena porque só guardo na memória o ideal que eu tive de você: atencioso, gregário e sensível. E não quem você é: distante, egoísta e impassível. Porque para um escritor a realidade é incapaz de encantar: sobretudo essa.

Você se divorciou dos sentimentos. O meu ideal de você moraria num poema.

Você largou num beco o próprio coração. O meu ideal de você o traria nos olhos.

Você pactuou com o sol: ele abençoa e aquece sua mente calculista. O meu ideal de você encontraria alento e calor no nosso abraço.

Você é um perfeito e monótono modelo do mundo. O meu ideal de você se inquietaria tanto com o prático que nós seríamos duas filosóficas esquisitices que se completariam.

Mas você se foi, é uma pena. Hoje nem a projeção do seu ideal me felicita ou convence, pois cada vez mais a minha credulidade se desvanece e a adorada e ilusória ovelha negra não nega sua intrínseca e insossa condição de níveo cordeirinho.

Acolha-o, mundo hipócrita.

Mas é uma pena.  


OPINIÃO
20 Fevereiro 2020 06:31:00


(Foto: Divulgação)

Suzana não gosta do vestido longo, brilhante, sofisticado; da sandália de salto; mas acostumou-se à ideia, porque é a formatura da prima e ela precisa se adequar à ocasião; além disso, não quer ser presa, pois lhe disseram que é um crime não se apaixonar perdidamente por um vestido tão fashion.  

José não concorda com as extravagâncias da mulher, acha-as, inclusive, quase sempre disparatadas; mas acostumou-se aos arroubos, pois espera manter o casamento e necessita se adequar à situação.

Renata maldiz o próprio emprego, abomina-o com todas as forças; mas como a vida é comprida e sempre podemos nos dar ao luxo de nos entregar a realidades avessas às nossas crenças internas, decidiu que é mais pertinente engolir a insatisfação com um bule de café e se acostumar à úlcera nervosa.

Carlos não sabe mais lidar sozinho com os sentimentos; quando busca a ajuda dos amigos, porém, recebe apenas recriminações, julgamentos e cobranças; procura adequar-se ao pânico da confusão: não é costume dos homens da família procurar auxílio psicológico profissional.

Alice se desencantou com o curso universitário que escolheu; mas o pai disse que ela não tinha tino para mais nada, que ou continuava ou não teria seu apoio financeiro para outros caprichos. Ela trancafiou as vontades, ruminou a falta de confiança que não se recordava de ter dado causa, e seguiu; acostumou-se ao fato de não poder aliar o futuro trabalho ao gosto particular; hoje acha natural viver amargurada.

Bernardo sempre detestou as preferências dos colegas, mas por medo da rejeição, da ridicularização, da solidão, nunca disse nada a ninguém e permanece apoiando os hábitos da sua pseudotribo, embora sinta os tímpanos reclamarem a cada acorde de música ruim, o cérebro se revoltar a cada assunto fútil, os sentimentos se escandalizarem a cada atitude leviana.

Camila não mais deseja casar. Seu noivo passou a se mostrar agressivo e eles não têm a mesma conexão do início do namoro. Mas a casa foi comprada, os padrinhos escolhidos, o sonho projetado. As irmãs pressionam, o pai ameaça, a mãe chantageia; tudo isso a leva a pensar que é sua obrigação dar o devido direcionamento ao tempo de namoro e às expectativas das pessoas. Já prevê um acinzentado futuro e está se acostumando a ele.

Guilherme, quando criança, frequentou metade dos cursos existentes no universo; sem tempo suficiente para brincar, para dar ou receber amor. Perfeito estereótipo de uma sociedade que cria pequenos gênios e grandes depressivos. Foi moldado pelo que ouviu: que precisava ser o melhor. Hoje luta para se adequar à montanha de ansiolíticos e fica feliz quando consegue dormir duas horas por noite.

Acostuma-se. Adéqua-se. A vida está se tornando isso: a mistura do preto no branco se transformando em cinza.

E quem quiser alguma cor que vá procurá-la em Marte.  


NAS MALHAS DO COTIDIANO
13 Fevereiro 2020 13:37:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) 

Adentro o nosso quarto. Não sei dizer se apenas na imaginação ou materialmente. Aliás, faz tempo que não consigo distinguir a realidade da ilusão. Eu algum dia consegui?

Adentro o nosso quarto e lá estão duas versões de mim: uma mais jovem e outra mais velha. A mais jovem, uns dezessete anos, deitada na cama, olha para o teto, ar de tédio. A mais velha, uns trinta, fixa a pacata rua pela janela aberta.

Não me identifico com nenhuma, deve ser por isso que elas tampouco me reconhecem. A mais nova tem uma expressão de desprezo; a mais velha, de melancolia. Mas é só um instante de troca de olhares entre nós; depois cada uma volta para os seus ofícios: o da mais nova, se revoltar; o da mais velha, lembrar; o meu, questionar. Seria eu a mais venturosa das três?

A verdade é que eu não queria estar envergando as angústias das duas, nem as minhas, mas visto o pesado sobretudo de ferro composto por todas essas emoções amontoadas. Seria eu a mais infeliz das três?

Queria abraçar a menina e fazer um carinho nos ombros da mulher. No meio do caminho, queria descobrir quem sou eu. Queria dizer à menina: vai passar, você não deve se atormentar; e à mulher: já passou, você não precisa se ressentir. Nesse entretempo, queria dizer a mim mesma para parar de consolar as minhas inacabadas versões e começar a fazer uma colagem decente neste atual ser fragmentado.

Mas não, não vou falar nada, porque não sou heroína para salvar alguém.

No fundo, desde sempre o que eu precisei foi ser consolada por elas.

No fundo, desde sempre o que eu precisei foi da nossa impossível junção.

No fundo, desde sempre fui eu a mais necessitada de compreensão.

A menina sabe que a busca ainda está no começo; a mulher se conformou com o destino de não encontrar. Eu luto com desespero.

A mais nova agora se levanta da cama e vai pegar um livro na estante. Um suspense bem inverossímil e instigante, como ela gostava. A mais velha sai da janela e também resgata um volume. Um drama tão doloroso quanto seus sentimentos. As duas continuam me ignorando. Sento na cadeira da escrivaninha e as observo. Concentração na leitura, horror ao restante do mundo. E eu que me dane.

Só hoje compreendo. O que acontece aqui é uma penosa reciprocidade: elas não me dão a mínima porque eu também nunca cuidei delas.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
06 Fevereiro 2020 12:24:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação)) /

Descobri que o limo tem espinhos. E descobri da mais dolorosa forma: caminhando sobre ele - descalça. Pior: estava com a guarda baixada. Caminhando sobre o limo - descalça.

Para quem gosta de mim, uma boa notícia: agora a guarda está tão fortemente alerta que lacrou o coração. Para quem não gosta, também uma boa notícia: permaneço descalça, e o limo continua coalhado de afiados espinhos.

Caminhei sobre o limo. Não mais oito, nem mais oitenta: o limbo. O limo. Nessa vida só se vive de boas notícias.

Deixei sangue de um coração imbecil - o qual desceu vertiginosamente aos pés, por eles saiu e abandonou vazio o lugar em que existia. O sangue que era meu ficou naquele mar; o mar que instituiu o limo e o crivou de espinhos; o mar que me falou que, embora eu estivesse despida para ele, não era a pessoa ideal para mergulhar ali.

O dia era quente, mas ficou subitamente tão frio que me culpei pela minha imprevidente nudez, e logo em seguida me senti humilhada por ela. Corri vestir calça, blusa, colete à prova de bala.

Acho que o mar se soube cruel, porque solicitou polidamente que eu desculpasse sua rispidez: vinha de um mundo maior e não sabia que alguém morria por uma onda. Sorriu. Suas águas geladas tentaram acariciar minha pele como podiam, mas agora - sorte ou escudo - eu estava vestida.

Na tentativa de contemporizar, não se contradisse, porém. Eu não era sua escolha. Ou ao menos não com certeza e não por enquanto; apesar de lhe fazer bem minha ingenuidade.

Diante disso, me pediu para que o aguardasse preparada, de alma nua, pronta para nadar, pois um dia o sentimento dele poderia mudar. Então o seu poder destruiria o limbo e o limo. Com isso, talvez eu pudesse até andar por macia areia para chegar a ele.

Me envolvi com os braços. Providenciei capote de aço.

Escorregar e cair sobre o limo, com a cara recebendo a chicotada dos espinhos me fez forte. E incrédula.

Me refugiei à sombra, abracei as árvores, permiti que o mato me devorasse - e entendi que sou mais campo do que praia.

Entretanto, o chamado das águas ainda é doce e hipnótico.

Mas me olhando no espelho, com o rosto ferido e os olhos tristes; sob os pés o coração vazado e os espinhos,

Percebo que não posso mais mergulhar.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
30 Janeiro 2020 09:41:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

Está certo que a Bíblia passou por várias traduções. Mas continuo acreditando que era para ter a fé do tamanho de um grão de mostarda e não o cérebro.

A fé do tamanho de um grão de mostarda transportaria montanhas. O cérebro diminuto não remove nem a ignorância. A fé, ainda que pequena, faria o inimaginável. O cérebro reduzido não admite nem o visível. A fé, mesmo tímida, engrandeceria a Terra, o cérebro estreito a planifica. A fé abraçaria as diferenças, o cérebro diminuído exclui as diversidades.

O filho pródigo foi acolhido, não abandonado. A ovelha perdida foi procurada, não esquecida. O apóstolo agressivo foi compreendido, não executado; o ignorante foi letrado, não eliminado; o incrédulo foi convencido, não extirpado.

O rico se tornou servo, não superior. Os poderosos erraram, a razão não estava nas mãos deles. A viúva pobre deu tudo o que tinha, os abastados deram do que lhes sobrava. Os fariseus usavam longas túnicas e batiam no peito, gritando um fervor inexistente. Os fervorosos entravam em seus quartos para orar. Os que jejuavam sem intenção de apregoar o próprio sacrifício perfumavam os cabelos e o rosto.

O cego passou a enxergar, mas quem tinha olhos e não queria ver se tornou cego. Duas classes de ouvintes: os que tinham ouvidos para ouvir e os que os tinham para desprezar. Duas espécies de falas: aquela do perdão e a da condenação.

Era para o amor ser constante e não o julgamento.

Tem muita gente confundindo a Bíblia, porque era para amar o próximo como a si mesmo e não a si mesmo como a ninguém mais.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
30 Janeiro 2020 09:41:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

Está certo que a Bíblia passou por várias traduções. Mas continuo acreditando que era para ter a fé do tamanho de um grão de mostarda e não o cérebro.

A fé do tamanho de um grão de mostarda transportaria montanhas. O cérebro diminuto não remove nem a ignorância. A fé, ainda que pequena, faria o inimaginável. O cérebro reduzido não admite nem o visível. A fé, mesmo tímida, engrandeceria a Terra, o cérebro estreito a planifica. A fé abraçaria as diferenças, o cérebro diminuído exclui as diversidades.

O filho pródigo foi acolhido, não abandonado. A ovelha perdida foi procurada, não esquecida. O apóstolo agressivo foi compreendido, não executado; o ignorante foi letrado, não eliminado; o incrédulo foi convencido, não extirpado.

O rico se tornou servo, não superior. Os poderosos erraram, a razão não estava nas mãos deles. A viúva pobre deu tudo o que tinha, os abastados deram do que lhes sobrava. Os fariseus usavam longas túnicas e batiam no peito, gritando um fervor inexistente. Os fervorosos entravam em seus quartos para orar. Os que jejuavam sem intenção de apregoar o próprio sacrifício perfumavam os cabelos e o rosto.

O cego passou a enxergar, mas quem tinha olhos e não queria ver se tornou cego. Duas classes de ouvintes: os que tinham ouvidos para ouvir e os que os tinham para desprezar. Duas espécies de falas: aquela do perdão e a da condenação.

Era para o amor ser constante e não o julgamento.

Tem muita gente confundindo a Bíblia, porque era para amar o próximo como a si mesmo e não a si mesmo como a ninguém mais.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
30 Janeiro 2020 09:41:00
Autor: Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) /

Está certo que a Bíblia passou por várias traduções. Mas continuo acreditando que era para ter a fé do tamanho de um grão de mostarda e não o cérebro.

A fé do tamanho de um grão de mostarda transportaria montanhas. O cérebro diminuto não remove nem a ignorância. A fé, ainda que pequena, faria o inimaginável. O cérebro reduzido não admite nem o visível. A fé, mesmo tímida, engrandeceria a Terra, o cérebro estreito a planifica. A fé abraçaria as diferenças, o cérebro diminuído exclui as diversidades.

O filho pródigo foi acolhido, não abandonado. A ovelha perdida foi procurada, não esquecida. O apóstolo agressivo foi compreendido, não executado; o ignorante foi letrado, não eliminado; o incrédulo foi convencido, não extirpado.

O rico se tornou servo, não superior. Os poderosos erraram, a razão não estava nas mãos deles. A viúva pobre deu tudo o que tinha, os abastados deram do que lhes sobrava. Os fariseus usavam longas túnicas e batiam no peito, gritando um fervor inexistente. Os fervorosos entravam em seus quartos para orar. Os que jejuavam sem intenção de apregoar o próprio sacrifício perfumavam os cabelos e o rosto.

O cego passou a enxergar, mas quem tinha olhos e não queria ver se tornou cego. Duas classes de ouvintes: os que tinham ouvidos para ouvir e os que os tinham para desprezar. Duas espécies de falas: aquela do perdão e a da condenação.

Era para o amor ser constante e não o julgamento.

Tem muita gente confundindo a Bíblia, porque era para amar o próximo como a si mesmo e não a si mesmo como a ninguém mais.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
23 Janeiro 2020 11:00:00
Autor: Por Natália S. Moraes


(Foto: Divulgação) 

Muitos irão. Quase todos irão. Mas alguém vai ficar. Alguém sempre fica. Alguém fica para te dar colo, alguém fica para te dar ombro, alguém fica quando, ainda que silenciosamente, você pede ajuda.

Fica alguém para te estender a mão, para te acariciar a mão, para te dar um beijo na testa e te abraçar forte. Alguém sempre fica para sussurrar ao teu ouvido: estou aqui, você não está sozinho.

Pode parecer miragem, mas quando tudo estiver escuro, quando o labirinto se comprimir ao teu redor e um por um dos teus pretensos amigos for embora, quando até o teu falso amor te abandonar, alguém vai ficar.

Esse alguém como que se materializará e através das atitudes te fará compreender como é grande estar naquele abraço, como é especial ter aquela companhia, como é mágico ver o sorriso dele quando você se sente fraco demais para sequer mover os lábios.

Esse alguém talvez não fale muito, quem sabe mesmo esse alguém não diga nada: ele singela e complexamente fica.

O Alguém que fica é modelo irrepetível, ele fica com você, ele fica para você, ele fica por você.

O mais impressionante: ele decide ficar exatamente no teu pior momento, o preciso instante no qual todos os demais escolhem ir.

O Alguém que fica compreende de plenitude sentimental, porque já foi muito iludido pelo mundo e hoje busca mais. O Alguém que fica sempre, invariavelmente, sofreu por alguém que não ficou e jamais seria protagonista da mesma dor pela qual por tantas vezes padeceu.

Não subestime aquele que fica, não o chame de pessoa rara: dê-lhe o nome genuíno e entenda que ele é único.

Só conheço um motivo para não me desesperar nessa turbilhonante vida: saber que existe alguém que fica. O colo dele será teu, o ombro dele será teu, o lenço e o tempo dele serão igualmente teus. Ele não se importa em se dividir; pelo contrário, se engrandece ainda mais com a partilha.

Aquele que fica sente a tua solidão como sendo a dele, sente o teu vazio como sendo o dele, e responde ao teu silêncio com o socorro que pode dar, o único que realmente importa: ficar.

Quem fica transcende as pessoas comuns; não é igual aos que, imaginando-se respaldados pela textura de um motivo, te deixaram. Porque esse alguém certamente também tem desejos e sonhos, mas você é o mais importante deles, e por isso ele ficou.

Quem fica merece teu tempo, tuas disposições para se tornar melhor, teus mais lindos gestos, teus planos para o futuro, tua paz para esquecer o passado.

Quem fica merece a tua mais lapidada versão.

Quem fica merece ter a mão carinhosamente apertada, num mudo: também estou aqui. Quem fica merece abraço interminável, beijo caprichado e carícia alongada.

Quem fica é digno de viver o sonho,

O verdadeiro sonho de todos aqueles que foram.



16 Janeiro 2020 11:19:00

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(Foto: Divulgação) /Foram as últimas palavras da mulher. Nascida no início do século passado, quem relembrou e descreveu seus remotos derradeiros suspiros foi a filha, hoje com 90 anos.

Contou que a mãe era senhora de hábitos simples e pensamentos profundos, que lhe alertava sobre as ilusões das aparências e sobre os desperdícios vitais de quem se preocupa em mantê-las.

"Ôia, mundo enganoso! "A filha repete a frase que ouviu quando criança, a qual constata diariamente o acerto.

Consolo ou tragédia saber que não é de hoje que o mundo engana o homem, o homem engana o outro e a si mesmo, e nesse globo da morte damos as mãos e as perdemos, num jogo infindável de enganações?

Notei nos olhos da filha: além de o mundo ser enganoso, é também doloroso. É doloroso perceber que é enganoso. É enganosa a vida, é enganoso o mundo, nossos tempos são enganosos, mas os passados também o foram. Nessa desafinada cadência de superficiais mudanças e erros essenciais existe qualquer esperança de futuro real?

Ôia, mundo enganoso! Malditas enganosas crenças, vazias enganosas descrenças, enganosos sorrisos, enganosos vícios, emoções enganosas, direções enganadas:

Mas a sentença é tão verdadeira.

Caducaram os desejos, as ferocidades, os mandos, os mandantes e os mandatários; os corpos e as almas; os ódios, os amores, os paraísos e os infernos daquele tempo, mas o mundo...

O mundo continua enganoso.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
09 Janeiro 2020 11:57:00
Autor: Natália S. Moraes


(Foto: Divulgação) /

Num mundo onde nada fosse impossível, eu queria ter o poder de ler sentimentos. Passou a estrela cadente, eu pedi, e logo fui guiada a uma avenida semelhante à Salomão.

Meus passos eram pesados, como se estivesse caminhando em meio a inexplicáveis densidades, mas minha alma era leve, puramente aberta e os sentimentos das pessoas reverberavam em mim, como se estivéssemos conectadas por invisível rede.

Uma mulher caminhava de mãos dadas com um homem. Que sorriso o da dona! Aparência de alegria, mas... Meu peito vibrou: ela não amava o marido; ele, no entanto, gostava muito dela; então por que não tentar? Depois veio o filho, por que não continuar? Depois as dívidas em conjunto, como separar? Além do mais, uma mulher sozinha, na idade dela, no mínimo teria que responder a questionamentos que enterrariam de vez a sua autoestima.

Fechei os olhos e fui transportada a um parque parecido com o do Capão. Um rapaz e uma moça se beijavam. Os jovens estavam apaixonados, com certeza, mas... Meu peito vibrou: no coração dele apareceu a imagem da pior inimiga dela (a verdadeira amada dele, a qual tencionava atingir com o romance forjado) e no da moça a figura era a do ex.

A partir daí, fiquei ainda mais sensível e comecei a adentrar as casas das pessoas: ninguém me notava, entrava pela chaminé como uma Mamãe Noel que jamais gostou dessa personagem natalina. Vi um menino brincando de carrinho e querendo brincar de boneca, vi uma menina brincando de boneca e querendo brincar de carrinho. Vi uma adolescente ouvindo as histórias amorosas das amigas e inventando as suas, para impressionar aquelas por quem realmente sente atração. Vi um adolescente usando tênis e olhando com desejo para o salto da irmã.

Vi um pai que nunca quis ser pai, mas prefere morrer a admitir isso. Vi uma mãe que acha uma verdadeira cilada ser mãe, mas não quer ser apedrejada, incinerada ou enforcada, então nunca, jamais, em qualquer hipótese contará esse sentimento nem para a terapeuta.

Visitei, aliás, o consultório da terapeuta. Ela se recusa a sair de lá, não porque goste do trabalho, mas para fugir da própria frustração: queria ser atriz.

Frustração, inclusive, foi o sentimento que mais vibrou: o médico que queria ser jogador, a advogada que queria ser cantora, o padre que queria se casar, o casado que queria ser solteiro, o solteiro que queria namorar, os namorados que queriam se matar.

Teve mais: teve a dúvida que queria ser certeza, o gostar que queria ser amar, o amar que queria ser odiar, o eu preciso de você que queria ser tanto faz, o tanto faz que queria, pelo menos uma vez nessa enervante vida, ser o sentimento abrasador.

Só que tudo isso, é claro, aconteceu num mundo diferente, distante daqui, quem sabe mesmo num mundo construído pela estrela cadente, e eu nunca o teria conhecido, não fosse ela atender ao meu desejo.

Porque no mundo real cada um está exatamente no lugar em que quer estar.



OPINIÃO
02 Janeiro 2020 10:55:00
Autor: Por Natália S. Moraes


(Foto: Divulgação) /

Como foi doce esse final de ano: uma correria para comprar presente para quem não se gosta, uma despesa enorme com ceia (para cear com quem se brigou o ano inteiro). Desculpas dadas e pedidas - nem sempre merecidas, quase nunca sinceras. Ah, como foi doce, como foi doce!

Excesso de otimismo tem se tornado a cada dia mais intragável para mim. Então observo a realidade e fico ironicamente satisfeita, porque a vida, na verdade, é uma bela limonada que ninguém bebe antes que amargue.

Como é doce lembrar-se do peso corporal que não se perdeu, do peso emocional que continua, dos projetos inacabados, dos conflitos existenciais.

Como são doces as doenças erradicadas que voltaram. Como é doce a censura! Como é doce descobrir que a Terra é plana, que a vacina é desnecessária, que a arte é desnecessária, que a educação é desnecessária. Mas é mesmo muito doce saber que a ditadura nunca existiu e que a história do Brasil veio com uma borracha ao lado, podendo ser apagada e reescrita a qualquer momento, ao sabor das doçuras dos doces mandos.

Como queimam doces os livros nas fogueiras, como soa doce a ignorância. Como são doces os estrondos de tiros. Como é tão, mas tão doce o preconceito. Cristalizado desemprego.

Escorre mel da cara dos cachorros das rinhas, são de calda de morango as lágrimas do dono da cadela que morreu de ataque cardíaco ocasionado pelo pavor dos fogos de artifício.

No ano que acaba de se despedir não teve quem não perdeu um parente, um amigo, um ídolo, um animal de estimação, um emprego, um amor, uma esperança (ou tudo isso), porque 2019 foi mesmo democraticamente doce. Acho que o que escorre de nossos olhos é suco de framboesa.

Morte nas estradas, violência doméstica, urbana, rural, nacional, mundial, pessoal: depressão, pânico, ansiedade, suicídio: nosso infinito bolo de chocolate.

Duas mil de dezenove velinhas.

A cereja é a ironia.

Porque esse recente passado, para mim,

Foi uma melada ironia.



19 Dezembro 2019 11:18:00


(Foto: Divulgação) /

Mulher-próxima. Simbioticamente junta. Fortemente unida. Abraçada. Dentro.

Ainda assim, mulher, eu não sei se te admiro ou se te desprezo.

Admiro ou desprezo esse teu jeito difícil de agradar e fácil de magoar?

Desprezo ou admiro a intensidade dessa inflamável contradição só tua - tímida e sarcástica; contida e desbocada; melancólica e ridente?

Como saber se gosto ou desgosto dessa instintiva dualidade?

Me inquietam tuas emoções radicais: ou se atira com toda a paixão, ou se fecha pra nunca mais.

Admiro ou desprezo alguém que desconhece o equilíbrio?

E essa forma cínica e sacana de responder sobre tua preferência afetiva:

"Os muito burros que me desculpem, mas inteligência é fundamental".

É de se admirar ou de se desprezar?

Tenho dúvida. E é a dúvida que está nos separando, porque nos bastidores de um incerto não sei comanda o categórico não. Cretino "não", balsa da tua viagem.

Essa leviana indecisão separa duas mulheres que foram partejadas na unidade.

Tu és mulher dentro de mim. E quando fora me devora.

Hoje, contudo, doente e distante.

São centenas, milhares, talvez milhões de quilômetros. Será que ainda te sinto? Me sente ainda?

Você se foi por vontade própria ou eu, inconsciente e inconsequente, te expulsei?

Tenho agora a horrível alucinação de uma enorme tesoura de sangue destruindo acetinado laço - com determinado vagar, esfarrapando antes, arrombando com minúcia a nossa preciosa conexão.

E depois dessa quem sabe insanável lonjura, desse talvez-nunca pleno reencontro, até o meu inexorável orgulho se parte para te pedir o que posso: perdão.

Perdão, mulher, por eu ser esta mulher.

Perdão, mulher, outrora tão próxima,

Por eu ser essa sempre tão distante

Mulher-dúvida.


12 Dezembro 2019 10:48:00

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(Imagem: Divulgação) /

Estocamos, alimentamos e reproduzimos ódio. 

Pra onde vai todo ódio acumulado?

Ódio do amigo que atraiçoou, do pai que bateu, da mãe que impôs, do irmão que humilhou. Ódio do namorado que destruiu, do sistema que padronizou, da fome que aumentou.

Ódio da justiça falhada, da sede detestada, da febre amaldiçoada.

Ódio da doença renitente, da paixão obtusa, da morte inútil. Ódio da vida inútil. Ódio da inutilidade da morte e da vida. Ódio da morte. Ódio da vida. Ódio da inutilidade. Ódio da utilidade.

Ódio da ilusão, da desilusão, da quase-ilusão e da incapacidade de se iludir. Ódio por ser crédulo demais, por ser incrédulo. Ódio da credulidade dos outros e da nossa incredulidade. Ódio da incredulidade dos outros e da nossa credulidade. Ódio da apatia. Ódio do ardor.

Ódio de si mesmo, por ser sensível. Ódio de si mesmo, por ser frio.

Ódio dos meios-termos, dos extremismos. Ódio da atitude influenciada, do ato autônomo equivocado. Ódio da leviandade que se falou, da crueldade que se ouviu.

Ódio da perda de tempo, dos sacrifícios que se faz para ganhar tempo. Ódio do tempo. Ódio da vida curta, da vida comprida. Ódio da vida, falei? Ódio da morte: repetirei.

Ódio quando o sol se põe: porque acaba o dia. Ódio do dia que não acaba. Ódio do que acaba. Ódio do que continua. Ódio da noite que traz o crime, que traz a morte, que traz a dor e o sangue, simbolismos da vida. Ódio da vida, repito. Ódio da morte, torno e cito.

Pra onde vai todo ódio acumulado?

Ódio da política, dos partidos, dos eleitos: passados, presentes e futuros. Ódios projetados, retroalimentados, enraizados.

Ódio dos antigos, dos jovens e dos desnecessários padecimentos, da necessidade de haver padecimentos. Nos poetas: ódio quando se sentem incapazes de padecer.

Ódio das despedidas, dos encontros, do trabalho, da falta de trabalho. Ódio do estrépito, do silêncio. Ódio da sobrecarga de informação, da ausência de informação. Ódio da informação.

 Ódio da ignorância, da inteligência. Ódio da arrogância, da modéstia. Muito, muito, muito ódio. O ódio derrama, encalacra, ameaça, executa, prende, vigia, sequestra, mostra revólver, dispara tiro, mata, enterra, ressuscita, mas nunca morre.

Porque todo ódio acumulado não vai pra lugar nenhum.

Ele fica.

Fica e incendeia.


05 Dezembro 2019 11:18:00


(Foto: Divulgação) /

Não é nada. É só esse teu jeito. Um homem tão menino quando me envolve com os braços e sussurra ao meu ouvido "obrigado por cuidar tão bem de mim".

Não é nada. É só esse frescor. Que luminosos ficam teus olhos de ônix ao ver o sol se despedindo, na nossa sacada. Você conversa com ele, você brinca com ele, você é tão brilhante quanto ele.

Não é nada. É só esse teu timbre perolado ao falar de arte. Daquele quadro que admirou, daquela música que te embalou, daquele poema que te encantou. Esse murmúrio chorosamente menino ao perguntar ao vento quando é que as coisas vão se ajeitar.

Não é nada. É só essa lágrima que mancha pedacinhos das tuas pálpebras, porque você não permite que vá além delas. Um vidro que se colore de turquesa quando você olha para o céu.

Não é nada. É só essa doçura que sai dos teus lábios quando se confessa aos pássaros. Esse canto de Orfeu que amansa as tuas e as minhas feras. Esse sorriso oblíquo que cintila, essa boca hipnotizante que conecta.

Não é nada. É só essa tua perene indignação com a injustiça, esse teu peremptório não a tudo que te torne escravo, essa tua vontade ardorosa, esse teu desejo de se conquistar, de se descobrir. Essa tua maneira teimosa e terna de declarar "eu sou eu, os outros são os outros". Esse teu caminhar de ovelha negra.

Não é nada. É só essa inocente malandragem que te faz parte de um todo sendo único, que te faz presente mesmo estando longe, que te faz longe, tão longe, quando triste.

Não é nada. É só essa tua família deliciosamente maluca à qual você pertence e não pertence. Essas nobrezas de alma que eles cultivam e você também, esses convencionalismos que eles veneram e você não.

Não é nada. É só essa tua voz exausta e confiante dizendo que o momento é complicado, mas que amanhã vai ser um dia melhor, que sempre existe um novo dia, que tudo melhora. É só essa tua maneira travessa de discordar da minha desesperança, de torcer delicadamente as minhas bochechas ao me lembrar que eu sou muito cabeça-dura.

Não é nada. É só essa tua mania de se meter em crises existenciais e me levar junto, esse teu costume de me fazer acreditar que somos invencíveis, apesar das fraturas emocionais.

O que me fará apaixonar por você não será nada que se possa explicar. Somos duas latentes erupções que em dado momento se cruzarão e juntas explodirão lindamente. Somos desgarrados e perdidos.

Mas quando eu te conhecer, nos tornaremos desgarrados e absolvidos.



28 Novembro 2019 16:09:00


(Imagem: Divulgação) /

"Você é jovem e eu sou um deus que quer te dar tudo que o seu Deus não vai. Ele te impõe a dor, o sacrifício, e talvez, remotamente, uma redenção. Eu não. Eu quero te dar facilidades. Esqueça a cruz, venha comigo: eu pago.

"Eu sei que você deseja namorar. Mas se envolver é dificultoso, cacete, burocrático. E ela vai mandar em você. Não namore. Minha proposta: esqueça a moça. Pare de ligar para ela, de sair com ela, de se importar com ela... Voz meiga, carinho na pele, profusão de abraços, momentos partilhados? Besteira. Em troca, te dou 5 milhões. Topa? Ótimo. Agora que está comigo, vou te seguir.

"Isso que você está fazendo de cultivar a relação com os amigos é bem chato, dá trabalho. Tem que ajudar um, ajudar outro, estar junto em dias complicados, ouvir longas conversas que não te levam a nada, não te deixam mais rico... Sim, você também é ajudado, também tem amparo em dias difíceis, também conta suas misérias a eles. Mas eu sendo seu deus, de que ajuda mais você precisa? Que dias podem ser difíceis? Que misérias? Tudo besteira. Esqueça os amigos. Em troca, te dou 10 milhões. Topa? Ótimo, tem a mim.

"Você demorou pra saber que profissão queria seguir. Mas agora tem certeza: é jornalista mesmo que você quer ser? Besteira. Jornalista trabalha demais, se expõe a riscos, enfrenta entrevistados agressivos, tem que escrever dezenas de matérias por dia, estar em todo lugar... Se expressar, mostrar sua verdade ao mundo, se realizar levando informação e cultura aos outros? Querido, sinceramente, nesse nosso tempo de toma-lá-dá-cá, de ninguém se preocupar com ninguém? A única coisa que te valoriza, você sabe, é o que eu posso te dar. Esqueça o jornalismo. Em troca, te dou 20 milhões. Esperto, você já prevê que iria ganhar um Esso, não é? Tá bom, tá bom, 25, então. Topa? Ótimo. Sigamos.

"Como é que é? Filho? Besteira. Minha proposta: esqueça o filho que você quer ter... Que ensinar a dignidade o quê? Fazê-lo um bom cidadão? Tudo isso é muito complexo. Na fralda pra trocar você não pensa? Nas noites não-dormidas, na febre do pirralho?... Tê-lo como companheiro, ver a alegria nos olhos, guardar o dente de leite, sentir o beijo no rosto, o cheiro de inocência, embalar um sonho? Você está muito careta pro meu gosto. Despreze esse mundinho aí. Em troca, te dou 35 milhões. Topa? Ótimo. Continuo com você.

"Tá chorando por quê? Só porque não cuidou dos seus pais na doença deles, e eles morreram? Mas você foi muito bem pago por essa ausência... Ah, dinheiro não paga remorso, agora? Besteira.

Preciso procurar outra pessoa para acompanhar, você está no fim.

E pare de se lamentar!

Então o deus dá uma pausa, sorri seu sorriso de dentes pretos e malcheirosos, de quem já devorou muitas vontades, e finaliza:

"Vida não vivida, sonhos não realizados, mas cheio da grana.

Não é um bom negócio?".



21 Novembro 2019 11:32:00


(Foto: Divulgação) /

Olhe para o espelho agora. A imagem que você vê não é a mesma de cinco anos atrás, nem de dois, nem de um, nem de ontem. Essa imagem, essa autoimagem, é irrepetível.  

Você vê o fracasso ali, numa curvatura involuntária e insatisfeita dos lábios. Lábios que, talvez, por muito tempo, não se sentiram motivados a sorrir.

Talvez você veja o sucesso, também, uma cintilância nos olhos, quem sabe um doce marejar umedecendo os cílios, fazendo tremer brandamente as pálpebras ao lembrar-se daquela infância preciosa, daquele precioso sentimento tão natural quanto inominável.

Você vê fissuras na testa. Finas linhas ou profundos sulcos, depende do quanto esteve absorvido pelos problemas, depende da forma como os encarou. Depende, inclusive, se os encarou.

Talvez você veja uma cor rosada nas maçãs do seu rosto: uma saúde que vai além da quantidade de vitaminas ou de sol que você toma. Uma saúde que vem de órgãos metafísicos, de metabolismos transcendentes, coloridas resoluções.

Você vê dor, frustração, quem sabe desesperança, certamente desilusão. Ainda vê a mágoa ali? E o remorso? Consegue distinguir onde estão localizados esses sentimentos? Se no arregalar ou cerrar de olhos, se no estremecimento das narinas, se no apertar da mandíbula? Ou tudo se espargiu, súbito derramamento de tintas na tela de um louco pintor?

Talvez você veja fé. Segurança. Firmeza de decisão. Não conheço essas sensações, portanto não poderia refleti-las, mas, seja você quem for, saiba que fica muito bonito assim.

Vê alguém atrás de você, agora. Alguém que te amou ou que te destruiu, ou as duas coisas. Você vê alguém que te inspirou, que te influenciou, que te mudou, para o bem ou para o mal. Para o eterno bem ou para o entranhado mal.

Feche os olhos. Agora volte a abri-los. Esse alguém desapareceu. Mas as palavras, silêncios, atitudes e omissões dele, não. Estão aí: nos seus ossos, nos seus nervos, no seu sangue, na sua pele, gratificando ou revoltando você.

Esse alguém não é você. Mas você tem muito desse alguém.

Você vê sonhos quebrados,

Desejos abandonados,

Talvez você veja esperança.



14 Novembro 2019 11:39:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Com o tempo, os desencantos e os obstáculos - talvez de difícil transposição - vamos deixando de nos reconhecer. A felicidade fácil abre espaço para algo mais importante: a sobriedade profissional.  

As vontades, quem sabe sonhos, quem sabe desejos fugazes - mas sempre emanações do íntimo - ficam trancafiadas para que possamos vestir a roupagem social: uma peça da engrenagem do sistema. Vivacidade, entusiasmo: contenha-os, é preciso cálculo e frieza.

Ser parte da engrenagem tem lá suas vantagens. Se sentir aceito e integrado são apenas algumas delas, e para obter todos os privilégios só precisamos relegar o próprio reconhecimento.

Para que gire o sistema os bonecos marchantes não podem errar o passo.

No dia em que não mais nos reconhecermos, pode ser que não haja recordação do início do distanciamento da própria essência.

Como quase tudo na vida, também esse afastamento começará aos poucos: paramos de rir alto (porque precisamos ser comedidos), deixamos de visitar nossos amigos (porque não há tempo), destruímos nossa casa na árvore, refúgio metafórico de nossos medos (porque tudo precisa ser contado, dissecado e exposto: nada pode ser guardado - muito menos nós mesmos).

Quebramos nossos brinquedos, ateamos fogo às disparidades, colocando-as na conta de atos pueris, quando muitas vezes são, na verdade, a nossa parte incompreendida.

Surge então uma grande construção: o eu social, que se originou da maior desconstrução: o eu real.

Mas no dia em que não mais nos reconhecermos, tudo isso se tornará teoria, material para estudo e ponderação. Só que, nesse dia, estaremos tão longe, mas tão longe de nós mesmos, que um hipotético retorno será utopia.

É regra: seres desgarrados das raízes primais são vulneráveis de resgate pelo sistema.

Grande jogo.


07 Novembro 2019 10:22:00


(Foto: Divulgação) /

São nos sussurros terminantes do dia que a vida, por vezes, me pede uma carta. Minha vida querendo que a avalie; pois ela me testa incansavelmente.

Procrastinei. Procrastinei. Quis ser difícil com ela: justo contrapeso. Hoje, contudo, os sabiás fizeram coro e os galhos dos ipês, num balanço malemolente, sorriram: atenda a vida. Atenda a vida.

Escrevo, pois. Mais pelo suave clamor dos sabiás e pelo brando canto dos ipês do que por sentir que é coerente o merecimento da Trajetória.

Querida (?) Trajetória

Você está errando ou a errada sou eu? Ou estamos em descompasso? Talvez estejamos as duas certas, mas em tempos diferentes. Afinal, tem mesmo algo de errado ou eu estou enlouquecendo? A louca é você, quem sabe?

Bem, jogo essas perguntas ao éter, como sempre fiz, sem ter quem as responda, muito menos você que, no entanto, se achou no direito de me pedir uma avaliação sobre o seu proceder. Percebe a incongruência?

Vê, desde já, a injustiça?

Continuo, entretanto; não por você, já disse.

Você é incompreensível. Se fosse uma equação, seria daquelas que se enche um caderno para deslindar e se chega a "X". Então se retorna ao início, com outro foco: agora é só encontrar o valor de "X". Só. Tão simples.

Por que você não diz, então?

Não diz. Mas quer respostas minhas.

Trajetória, você não é tão amada como os moribundos querem fazer acreditar. Te acho bem irônica, para falar a verdade. Ponto a seu favor é que a sua ironia é refinada. Fica-se boquiaberto com você. Quando se diz "nunca", você vai lá e mostra que o nunca não existe. E quando se diz "sempre", você vai lá e prova que o sempre também não existe.

O que mais você quer saber?

Espere, não diga. Não vou te ouvir, assim como você não me ouve. Ponto para mim.

Muito se fala em livre-arbítrio, mas, no fundo, quem decide tudo é você: sozinha. Não pede a minha opinião. Se pede, é para fazer o contrário. Já que é assim, vai conduzindo tudo aí, que eu carrego como puder.

Amor é coisa complicada: não basta a gente escolher, precisa da anuência da outra parte. Contudo, às vezes, embora ambos se escolham, vem você, doce e meiga, e coloca uma distância, uma incerteza, uma doença, uma morte para nos separar.

E ainda diz que sou eu que defino você?

Não mesmo. Você, Trajetória, é apartado ente, reside fora de mim. Você sentencia, eu só acato, porque não tenho outra opção. Ponto para o determinismo.

Profissão é outro assunto complexo: de novo, os dois precisam se escolher. Se a gente gosta da profissão, mas a profissão não gosta da gente, estamos danados. É aí que entra você, bela Trajetória, fazendo com que a profissão crie exigências que somos incapazes de cumprir, solicite uso de roupa sóbria, quando queremos vestir jeans rasgado e camiseta larga, sopre colegas insuportáveis na nossa direção.

Tudo TUA CULPA, Trajetória.

Então não venha me dizer que sou eu que defino você!



31 Outubro 2019 12:45:00


(Foto: Divulgação) 

Cinco da manhã, mostra o relógio sobre o criado-mudo. Regina se levanta da cama, silenciosa, para não acordar o marido. Sem sucesso.

- Já vai levantar? Que horas são?

- Cinco.

 - Precisa se sacrificar por esse fracasso que eu sou. - O marido senta na cama e liga o abajur.

 - Você está doente, Carlos. Depressão não é fracasso: é doença.

- Enquanto você se mata de trabalhar na casa daquela vaca, eu vou ao terapeuta. Fica lindo.

Ela troca o pijama por uma calça de malha e, enquanto procura por uma camiseta no guarda-roupa, responde:

- Primeiro: minha patroa não é vaca. Segundo: eu não me mato de trabalhar. Limpo, lavo e passo e é natural, nosso sustento vem disso. Terceiro: você precisa ir ao terapeuta e isso não é vergonha nenhuma.

 - Você tenta amenizar o fracasso ambulante que eu sou, tenta...

Regina solta um gemido de dor ao vestir a camiseta. O marido percebe as olheiras dela.

 - Peraí... Você dormiu? A Maluzinha estava com febre, você...

 - A Maluzinha está bem, agora.

- ... passou a noite acordada, sentada ao lado da cama dela. A hérnia berrou agora. E eu aqui, inutilizado.

- Já estou atrasada... - Calça os sapatos. - Maria Luiza está ótima, eu estou ótima e você também vai ficar. -Senta ao lado de Carlos e afaga seus cabelos:

- Tudo vai ficar bem.

Ele balança a cabeça, choroso, desacreditando das palavras da mulher; dando-lhe, porém, um beijo nas mãos.

***

Dentro do ônibus lotado, pelas janelas se nota que o dia começa a nascer. Regina conta moedas, entrega ao cobrador. Anda pelo corredor. Vislumbrando um único banco vazio, ao fundo, caminha até ele, senta. Leva uma das mãos às costas, contorce o rosto; diz, de si para si:

- Maldita hérnia.

Seu celular toca. Ela atende.

- Fala, Maluzinha... Ele está chorando, de novo? Aquele calmante que o médico receitou, você já... Tá bom, isso, fez certo. Agora ele vai ficar tranquilo, filha. Não, não fale assim, logo volto. E a tua febre... Como assim, voltou?

Suspira, aperta os olhos, continua a falar:

- O efeito do remédio deve ter passado. Toma outra dose, igual à de ontem... Sei, sei que está preocupada com o teu pai, mas ele vai ficar bom... Não duvide, filha... Não, não faz assim, ele vai melhorar, precisamos ter paciência... Minha filha, sem esperanças? Não, não chore, hei! Você nasceu de mim, é guerreira. Tão lógico como os exercícios de Matemática que te ajudei a fazer ontem... Eu estou tinindo, ótima.

Mas as olheiras roxas sob os olhos dela bradam a verdade. Uma silenciosa lágrima cai.

Desliga o celular e diz para si mesma:

- Estou ótima.

***

O ônibus para. O sol aparece no horizonte. Uma mulher muito idosa entra, de bengala. Todos os bancos estão ocupados. Ela olha para os passageiros: uns mexem no celular, outros leem jornal, outros fingem dormir, nenhum lhe cede o lugar. A velha caminha com dificuldade até a última fila. Antes que pare ao lado da poltrona de Regina, porém, esta se levanta e fala:

- A senhora senta aqui.

Trocam sorrisos.

A idosa, ofegante, larga o corpo na poltrona:

- Alma boa a da fia. Caminhei treis quilômetro pra chegá nesse ponto de ônibus, vô buscá o exame do meu fio. O dotô acha que pode sê a doença ruim.

Baixa a cabeça e comprime os lábios.

Regina coloca suas calosas mãos sobre as de veias finas da velha e garante:

- Ele vai ficar bem. Tudo vai ficar bem.



24 Outubro 2019 10:34:00
Autor: Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Não o conheço. Baixo, magro, cabelos claros. Olhos tristes. Desolados. Fisionomia massacrada por um sonho abandonado. É noite. Perambulo pela pracinha em busca de um personagem, de uma dor trancada, de um mistério sofrido: de um sofrimento grande porque dilatado pela culpa. Encontro. Encontro naquele homem. Naquele desconhecido. 

De início, disfarço: quero ter a aparência de uma caminhante qualquer, não a de uma peregrina de desassossegos. Por mais autêntica que procure ser, sinto que, por vezes, necessito mascarar a curiosidade insanável, deixando que as pessoas ajam naturalmente: o que não fariam, caso capturassem a minha ânsia de conhecer os escaninhos mais sombrios de suas personalidades.

Mas ele não se importa. Não se importa e tampouco parece se inquietar com o meu jeito intruso. É atrevido. Fixa meus olhos. Sentado no banco da pracinha, ao erguer o rosto para mim, me paralisa com o olhar. Estaco à sua frente. Acabaram-se as farsas. Agora nossas almas vão dialogar.

Aquelas duas lanças negras e perturbadas que são seus olhos me falam que o sonho abandonado hoje cobra um preço que ele se sente incapaz de quitar. O sonho abandonado pesa sobre os ombros, açoita as costas, fere as emoções.

O sonho, tão recente em sua vida, tão singelo, sorridente, brilhante, já tão querido de seu coração foi abandonado por inseguranças, medos, dúvidas, deduções. O sonho partiu. Como consequência, a alegria dele partiu-se. Ficou a impressão do sonho: a impressão daquilo que desaparece. A aflição de saber que quem soltou foi ele.

Essas duas chamas vivas e atormentadas que são os meus olhos lhe dizem, inclementes lhe dizem, que o que marca o coração é preciosidade a ser afagada, riqueza a ser preservada.

Essas duas chamas vivas lhe dizem ainda que sabem, que entendem muito bem, pois nada insulta mais o olfato do que cheiro de sonho consumido, nada amarga mais o paladar do que beijo que não pode ser revivido, nada afronta mais o tato do que rosto especial que não voltará a ser afagado, nada machuca mais a audição do que o silêncio de uma voz estimada.

Por fim, meus olhos lhe falam, sem compaixão lhe falam, que absolutamente nada pode substituir o calor de chamas vivas sobre lanças negras, a força incomparável de olhares trocados, a vitalidade de sintonias partilhadas.

Se ele soltou, se abriu os dedos e permitiu que um futuro grandioso se esvaísse no meio deles, eu queria, muito, ser bondosa e, pelo menos, lamentar por ele.

Mas não posso.

Neste momento, não lamento por ninguém.

Aprendi que quem abandona um sonho antes mesmo de iniciar a vivê-lo precisa se resignar à colheita. À colheita de um futuro correto, perfeito, mas sem o ardor do sonho, sem os delírios redentores da coragem.

Um futuro correto, perfeito, mas sem a marca de chamas vivas.



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