ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  
Natalia.png

10 Janeiro 2019 10:05:00


(Foto: Divulgação)

Tentamos sustentar o ingênuo diagnóstico de que o destino será constrangido a efetivar os nossos projetos. Projetamos o que nos parece melhor, consentâneo aos padrões, o que tem a aparência de tornar nossa vida mais fácil, mais confortável, mais feliz. 

Mas a felicidade, a felicidade mesmo, aquela que nos transforma em seres exultantes, realizados; aquela sensação forte, abrasadora, inestimável: esse sentimento bagunça nosso projeto. Esse sentimento bagunça tudo. 

Aí, vem a dúvida. A incerteza. Seguir o projeto ou seguir a felicidade? Ser honesto consigo ou com as projeções? Deve-se frustrar anteriores pactos emocionais para construir algo que, para que seja pleno, precisa, antes, de desconstruções? 

Projetamos, sonhamos, fantasiamos que seremos felizes de uma maneira, arbitrariamente escolhida. Então vem a felicidade. A felicidade de verdade. A força superior a você. A força que rejeita projetos. A força que basta por si mesma. 

Vem a felicidade, com seu jeito charmoso, envolvente, fatal. Vem a felicidade e ri do projeto. Vem a felicidade e faz baderna. Vem a felicidade e te faz vibrar. Vem a felicidade e finalmente te faz feliz. Vem a felicidade e zomba de frágeis razões. Vem a felicidade e detona o projeto, com um lento sorriso. Vem a felicidade e mostra quem é que tem o poder. 

Muitas vezes, negligenciamos a felicidade para viver o projeto. Procuramos nos convencer de que o que nos fará feliz será o planejado. Pois nunca aceitamos estar errados, queremos acertar sempre, sobre tudo. Mas a felicidade é rebelde, se emancipou dos planos. A felicidade chega e arrebata; acaso tentemos resistir a esse arrebatamento, estaremos lutando contra algo mais poderoso do que nós. 

Até onde vai essa luta? Até onde vale a pena? Até onde a felicidade suporta sistemáticas preterições; preterições em favor de algo muito menor do que ela? Afinal, o projeto sempre, independente de sua importância, de sua envergadura, de sua aparência de correção, sempre, SEMPRE será menor do que a felicidade. 

O projeto não nos completa. O projeto, quando alcançado, se mostra insuficiente, irracionalmente vazio, apesar de bonitinho, decorado com uma fitinha. E quem, ainda assim, se diminui para caber no projeto, sacrificando a felicidade (a felicidade jamais aceitaria rivais), esse macula a consciência e não consegue estabelecer algo verdadeiro dentro do coração, pois age contra seu próprio querer. 

Não é segredo que nada pode ser edificado sobre omissões de verdades e máculas de consciência. É desnecessário que venha a infelicidade e diga. Qualquer um sabe. 

Entretanto, a felicidade é um ente tão grande, tão luminoso, com asas tão potentes que, quando se sente menos relevante que o projeto, simplesmente voa. 

Voa e não volta.    

 


03 Janeiro 2019 11:38:00

Ideia para conversas filosóficas no táxi em 2019 (parte 2):


(Imagem: Divulgação)

- Tudo certo com a senhora? 

- Quem detém os conceitos do que é certo e do que é errado? E embora não aprecie ser chamada de senhora, essa palavra me faz pensar: acho que o mundo foi criado por uma mulher. Um mecanismo tão perfeito só pode ser fruto de uma mente feminina. Senhora, só no céu!

- Minha esposa iria adorar ouvir isso. E ai de mim se discordar. De onde vem? 

- De onde venho importa pouco, não é? Importa é para onde vou. O que nunca sei. 

- Entendo. Mas agora precisa saber. 

- Você entende? Você en-ten-de? Como entende a mim se nem eu sou capaz de me compreender? É um sábio! No entanto, diz que preciso saber. Isso leva a crer que me prende às teias da obrigação. Não gosto de me sentir presa. Nasci para a liberdade. 

- Sim. Só que estou conduzindo-a, necessariamente, a algum lugar, concorda?

- Está me conduzindo! Um sábio, sim, um sábio, reafirmo! Há quanto tempo nem eu a mim mesma conduzo? Ando perdida em pensamentos, atos, omissões. E o senhor, o senhor me conduz! Mas não gosto da expressão "necessariamente", me recorda das necessidades mudas da minha alma que, todavia, nesse momento gritam em meus ouvidos. Não sei se esse "algum lugar" que o senhor mencionou existe. Creio que apenas o nada exista. Por fim, perguntou se concordo: do mundo apenas discordo. Nada a mim se adéqua ou ressoa. 

- Sabe o bairro, ao menos? Com o nome do bairro, já temos o começo. 

- Se sei o bairro? Só sei que nada sei! Nem o bairro, nem a rua, nem o beco onde se perdeu a minha sanidade. Estou abrasada pela incerteza. Saber, oh, o saber! Diga lá, o senhor: o que sabe? Sabe, de verdade, sobre alguma coisa? Aliás, o que é a verdade? Nas mãos de quem se mantém? Com o bairro já temos o começo? Mas quem é que determina o que é o começo e o que é o fim? O que os separa? 

- Preciso de uma direção!

- Ah, eu também. Eu também. Deus nos guie. Aliás, falando em Deus...

- Olha, pelo amor Dele! Você fica aqui. Vou te deixar nessa livraria que vende livros exclusivamente de Filosofia. Vai adorar. 

- Filosofia? Eu ODEIO Filosofia!






27 Dezembro 2018 15:42:00


(Foto Divulgação) 

Ideia para conversas filosóficas no táxi em 2019:

- Para onde?

- Para um destino que me traga paz e encontro com o meu eu interior. 

- Bairro? 

- Serenidade Perene. 

- Rua? 

- Emanações Puras do Universo. 

- Número? 

- Para se atingir o infinito não há número, nobre taxista. 

- O senhor é daqui mesmo?

- Marte me mandou há alguns anos. Agora sou daqui, sim. 

- Não sente falta de casa? 

- Minha casa é a busca.

- Mas lá em Marte devem sentir saudades do senhor.

- Senhor é o regente do Universo, caro motorista. Eu sou apenas um marciano à procura da minha essência. 

- O marciano não deu atenção ao meu comentário. 

- Ah, sim. Perdão, perdão. Por vezes me perco em minhas famigeradas digressões. Pode ser que sintam ou, pode também ser que não. Nada sei de mim mesmo, que dirá dos outros? 

-Tem filhos?

- Sim, duas filhas: a Ausência de Minha Alma e a Incerteza de meu Coração. 

- Bonitos nomes. Não pensa em meninos?

- Pensar, eu penso. Mas só posso ter filhos com mulheres, então...

- Lá em Marte não se tem filhos pela força do pensamento?

- E perder o melhor de tudo? Não, não. Nem em Marte as leis seriam assim tão rígidas. 

- Sei que dizem que não existem filhos preferidos. Mas sabemos que, por mais leve que seja, sempre há uma preferência. Gosta mais da Ausência ou da Incerteza?

- De nenhuma das duas. Ambas são o grito silencioso de que não posso sustentá-las. Por isso me expulsaram de Marte. 

O taxista freia, com estrondo.

- Estou suportando suas lorotas há quase uma hora. Sabe em quanto está a corrida? 

- Em um valor certamente muito menor do que a sua bondade para com um pobre marciano expatriado. 

Ensandecido, o motorista sai do carro, arranca o marciano do banco de trás, agarra-lhe o colarinho, fuzila seus enormes e vitrificados olhos negros e garante:

- Você vai voltar para Marte. A-GO-RA!

Que passe 2018, que venha 2019, mas que nunca percamos a veia debochativa!

Um excelente final de ano a todos. 



20 Dezembro 2018 09:03:00


(Foto: Divulgação) /

A leitura nos impulsiona a análises profundas. A escrita, à reverberação delas. Não por acaso, nos últimos anos, esperar para ser atendida em um estabelecimento deixou de ser tormento para se tornar perquirição instigante. 

Gosto de imaginar a vida, as dores, as angústias, os triunfos e as inseguranças por trás de cada semblante aparentemente neutro. No interior de cada mente, aparentemente sã. Dentro de cada peito, aparentemente ileso. 

Dia chuvoso. Umidade inquietante. Pessoas nervosas. Uns olham no relógio, outros bufam, os mais discretos apenas batem com o pé. A maioria corre os dedos pela tela do celular. Eu observo. Porque nada melhor, nada mais inspirador, do que observar sem ser observada. 

Em momentos de profusa ansiedade, é quase inacreditável como as pessoas não veem quem está ao lado, não notam expressões alheias. Pior: não enxergam a si mesmas.  

Todos os setores da prefeitura congestionados; todas as cadeiras, ocupadas; todos os espaços saturados de pressa e de questões burocráticas urgentes, que não podem ser aguardadas, mas vão. O que me fez questionar até onde a urgência é mesmo urgência, e até onde estamos interessados em preservar a sanidade dos servidores. Estamos interessados? Até onde a empatia existe? Existe?

Transpirávamos. O calor, misturado ao barulho da chuva, ao constante entra-e-sai, à enxurrada de documentos, ao grunhir do triturador de papel e ao ressoar das senhas nos fazia inflamáveis. Traiçoeiros amálgamas. Como se não bastasse, a pressa, é claro, permeava cada tempo, cada espaço, cada cadeira, cada atendimento, cada coração. A pressa governava. Me concentrei em observar. Me concentrei em observar para não ser mais uma a explodir, como a senhora que, exaltada, discutia com um servidor. 

Reclamava por estar sendo transferida, sistematicamente, de setor para setor, sem resolução alguma. Reclamava da demora. Reclamava da incerteza. Reclamava da burocracia. Reclamava. Era estourada, logo vi. Não apenas naquelas circunstâncias, mas era estressada de natureza. A veia pulsante na têmpora e o enérgico inflar das narinas revelavam um temperamento irritadiço. 

Estaria assim por sofrimentos recentes ou passados e nunca digeridos? Se transformara em máquina devoradora de si mesma por rejeições, mágoas, autocensuras? E aquela vermelhidão assustadora, à beira de um ataque, já fora um dia a brancura angélica do comportamento equilibrado? Quando seu rosto fora manchado com a tinta da ira, derramada pela frustração?

O servidor, por outro lado, tentava debelar o acesso com uma submissão comovente. Ele, sim, embranquecera de todo, tive a impressão, por um instante veloz, de que até mesmo suas pupilas negras embranqueciam. Sua boca branca. Seus cabelos subitamente brancos. Cada fio convertido em representante de velhos cansaços. 

Estaria assim por medos enraizados, fracassos borbulhantes, tristeza emudecedora? 

Quando fora transmutado em labirinto de expatriações das próprias vontades? 

Robô do sistema? Ou refém de temores? 

A mulher sentada a meu lado suspirou. Um suspiro exaurido. Olhou para o relógio e disse estar mofando ali, há mais de quarenta minutos. Completamente insensível ao embate à sua frente, aos sentimentos sulfúricos da senhora irritada e do servidor amedrontado. Estaria assim, petrificada para outras necessidades que não as suas, por já ter sido esquecida demais? Adotara a técnica da surdez a outras vozes por senso de autoconservação? 

E eu? Por que hoje sou essa questionadora infatigável, esse ser humano com dificuldade de chegar a conclusões, mas, ainda assim, sequioso de conhecer? 

Talvez o que nesse Natal precisemos seja olhar com mais compreensão para quem está à nossa frente, ao nosso lado, atrás de nós e saber que, na verdade, ele tem uma razão para ser impulsivo, temeroso, frio, indagador. Um motivo novo, velho, intermediário, não importa. Ele tem um motivo. A nós cabe respeitar. E só jogar a primeira pedra quando ostentarmos a auréola da perfeição.

 


13 Dezembro 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação) 

Me disse sofrer de náusea existencial. Falou que sentia a existência como um bolo negro e amargo no estômago, que crescia, que se expandia, dilacerando, gerando ânsia, fazendo subirem evaporações pútridas à garganta.

O bolo tinha espinhos na superfície. Espinhos que, a cada respiração, iam rasgando. O gosto metálico de sangue embebendo o palato. 

Apesar de se deparar com o diagnóstico de úlcera, sabia se tratar de náusea existencial.

Tudo isso me contou a jovem mulher que, naquele dia, sentada a meu lado em um banco da pracinha em frente à Matriz, revelou que os belos enfeites natalinos tocavam seus olhos, mas não chegavam ao coração. Porque no coração não havia mais espaço. Estava completamente tomado pela náusea: a náusea que crescia, crescia, irritava a garganta e nunca, nunca, era expelida pela boca. 

Um enjoo que se prolonga e jamais é libertado. 

"Não é na cabeça. Não é no coração. É no estômago! A desolação se concentra no estômago. Fatos mal digeridos, nunca metabolizados. Tivesse eu vomitado, ficado mal, entontecido; mas vomitado esse passado que não quer sair de mim, que se agarrou ao estômago e ali ficou: apertando, doendo, torturando. O passado não quer me libertar. E eu também não consigo me desfazer dele. Tem dias que sobe, sobe, se despedindo; me exasperando de aflição, mas se despedindo. 

Faz isso só para me ludibriar. Não vai embora. É o parasita da minha sonhada felicidade. É um parasita que está sugando as vísceras, consumindo a minha força. Um parasita que encarcera. Lidera. Impedindo que eu me nutra do presente".

Ela gritou, chorou; então enlaçou o ventre e disse que o incêndio emocional tinha feito o bolo avolumar-se. Que agora latejava e irradiava desespero por todo o corpo. Fluindo ácido. O passado, morto, incapaz de ressuscitar, entretanto aferrado ao túmulo, se decompunha dentro dela. Não aceitava findar. E ela não aceitava o seu término. Era uma obsessão recíproca. Um apego irracional. 

No ato de abraçar-se, abraçar-se desamparada e, em seguida, engolir a saliva com sofreguidão, percebi que, apesar da dor, apesar dos grilhões, ela não queria, de fato, soltar a bolha podre de dentro de si. Ela queria mantê-la ali até que, uma delas, finalmente, não suportasse mais e abandonasse a outra. 

Qual das duas: a bolha ou ela, seria a primeira a padecer, admitindo a finitude?


06 Dezembro 2018 14:04:00


(Foto: Divulgação) /

É sabido que a emoção tem suas ferramentas etéreas: armadura, para evitar novos ferimentos; máscara, para forjar um sorriso quando ele precisa estar lá, e não está; medicamentos para cicatrizar um coração. Contudo, talvez o instrumento mais utilizado pela emoção seja mesmo a faca. Porque uma faca, quando afiada, tem três utilidades: cortar laços, abrir caminhos e receber murros. 

Diante de laços que não conseguimos desfazer, diante de caminhos cerrados, ainda assim podemos usar a faca: esmurrando-a. 

Uma faca da emoção, uma brilhante e bonita faca, terá lâmina sorridente e cabo customizado. Uma faca da emoção nos atrairá a usá-la, de algum modo. Se os dois primeiros forem impossíveis, ainda assim necessitamos do contato com a ferramenta. Como? Através das mãos, é claro.

Fechamos a mão, fechamos bem - apertamos as unhas contra a palma, na vã expectativa de defrontarmos e vencermos algo muito mais poderoso do que nós -, e então partimos. Vamos pra cima da faca. Um murro. Foi de raspão, não doeu. Outro murro: penetrou a superfície, feriu, sangrou. Terceiro: rasgou carne, machucou, ardeu. Quarto: sangra aos borbotões, a faca é valente e não está de brincadeira. Quinto: esse foi violento, indignado (quanto mais torturados, mais nos indignamos) parece ter atravessado a palma. Dói. Como dói. 

Paramos. Admitimos que nada podemos contra a faca. Ela sorri para nós. Seus dentes são agora vermelhos, manchados com nosso inocente sangue. A lâmina brilha, parece lamber o visgo que sobre ela cintila. 

Então é hora de usar a armadura por um tempo; a máscara, logo em seguida; por fim, os medicamentos de cicatrização. Demora para cicatrizar, agora temos muito medo da faca. Entretanto, ela é hipnótica. Ferramenta da emoção, é forte, magnética. Nossa mão, mesmo enfaixada, se sente chamada por ela. 

É lógico que queremos a faca para cortar laços do passado e abrir novos caminhos. É óbvio que o contato da nossa mão, para isso, deveria ser com o cabo e não com a lâmina. Só que a nossa vontade de usar o instrumento mais potente da emoção se torna tão intensa que não sabemos reconhecer a precipitação de nossos propósitos. Assim, vamos usar a faca de qualquer jeito. 

Nossa mão ainda dói. Pior: é a direita. Mas o desejo é maior. Precisamos da faca. Se a vida não nos permite cortar laços, se a mata de nossos caminhos ainda é demasiadamente fechada para ser vencida pela faca; então que se dane a sensatez: vamos de lâmina. E dá-lhe mais uma esmurrada.

O pano branco fica instantaneamente sujo. Dessa vez a angústia da frustração vem logo de primeira: estamos fracos, já fomos muito insultados pela faca. A mão lateja, da faixa escorre dor colorida de vermelho. 

E antes que uma artéria seja definitivamente rompida, voltamos para a armadura, para a máscara e para os medicamentos. Pois eles, embora sejam incapazes de nos fazer felizes, ao menos não oferecem riscos. 

A faca poderia ser a nossa libertação. Mas enquanto for mecanismo de sofrimento, melhor procurar esquecê-la. Esquecê-la antes que as nossas mãos estejam doentes demais para construir o que quer que seja. 



NAS MALHAS DO COTIDIANO
29 Novembro 2018 14:14:00


(Foto: Divulgação) /

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui uma rosa fenece; no mesmo instante, lá, outra rosa nasce. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui um coração se rompe, no mesmo instante, lá, outro coração se salva.

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui uma batalha estoura, no mesmo instante, lá, a paz é reafirmada. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Aqui a tormenta é resistente, embota a alegria, lá, no mesmo instante, a brisa é doce e não há tempo, nem espaço, nem motivação para lamentações. 

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá... mas acontecerá:

Hoje o vento açoita a face, acompanhado de potentes gotas de chuva fria, arrancando sangue e dor. 

Sangue que mancha o caminho, dor que faz gemerem os sentidos. 

Mas em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, o vento, transformado em bálsamo de frescor, vai vedar as fendas da pele, cicatrizar as fundas rachaduras do espírito.

A dor vai cessar.

Vai restar aprendizado no lugar.

Nunca se sabe o dia, ou a noite, em que acontecerá, mas acontecerá...

Hoje pelos dedos deslizam mágoas; doem as articulações, apertadas pelas garras da angústia; suam as palmas, na lancinante tarefa de converter areia em pérola.

Mas em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, dos dedos escorrerão perfumadas felicidades: felicidades livres; por isso, felicidades. 

E se a transpiração descer aos dedos, será porque fluiu serenidade da mente e vida do coração. 

Um dia, não se sabe. 

Uma noite, não se sabe. 

Será que, 

Em nossas almas, 

Tanta esperança

Cabe?

Num trecho de poema, Pablo Neruda afiança:

"Que fácil é quando se conseguiu

a felicidade, que simples

é tudo". 

Porque, em um dia iluminado, ou numa noite em que as estrelas brilhem como sonhos, tudo parecerá simples, sim, Neruda.

Nesse dia, ou nessa noite, tudo estará certo. 

Os esforços, todos, consolidados. Todas as misérias superadas.

Então tudo, tudo vai se encaixar. 

Até lá, penamos.

Até lá, sonhamos.

Até lá, a vida

Reinventamos.


23 Novembro 2018 08:46:00


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Se me fosse dado pedir uma coisa à vida, eu pediria liberdade. Liberdade, para mim, é me sentir desvinculada de obrigações meramente obrigatórias, sem prazer ou sentido. Liberdade é trabalhar no que se ama, viver respirando o que se ama, sentir todos os dias o cheiro da plenitude e não da mecanicidade.  

Liberdade, para mim, é saber que o mundo pode ter seus padrões, não discuto, desde que me permita ter os meus e não me imponha uma uniformidade da qual sou incapaz de fazer parte.

Liberdade, para mim, é aceitar: as coisas mudam, as fases passam, embora se possa reconstruir o que foi bom, desde que se resigne que nunca mais será igual ao que já foi, mas pode ser melhor. E, assim, liberdade, para mim, é dar um novo significado para o passado, viver sem amarras o presente e projetar menos, cada vez menos, para o futuro.

Liberdade, para mim, é dizer - sem medo de parecer ridícula ou piegas -, que ama, que sente saudade, que precisa de colo, que está cansada, carente, infeliz, doente da rotina, envenenada pela indiferença.

Liberdade, para mim, é olhar nos olhos. Olhar nos olhos, entender com os olhos, silenciar, gritar, penetrar, descobrir; tudo, tudo com os olhos. Liberdade, para mim, é permitir que muitas coisas que de outra forma não poderiam ser resolvidas, se resolvam com um olhar.

Liberdade, para mim, é sorrir sem hesitação, mostrar a alma no cintilar do sorriso. Desnudar a alma. Ser livre é desnudar a alma para o outro, sem temor que ele encontre manchas, carências e dores ali. Sem temor de ser rejeitada ou excluída, porque você é você e não pode mudar essa realidade. Então, se o outro não aprovar, que vá procurar outra alma, outros olhos e outro sorriso que a ele se adéquem. Deixe você com os seus, se aceitando como é. Porque se aceitar como é significa a culminância da liberdade.

Liberdade, para mim, é rir o seu riso, andar do seu jeito, vestir o que te permita se sentir confortável, ir a lugares com os quais se identifique, conversar com gente conectada à sua sintonia, que comungue das suas ideias. Liberdade, para mim, é admirar o outro, sim, mas nunca querer ser igual a ele; porque, liberdade, para mim, é ser único e não ser cópia.

Liberdade, para mim, é poder abrir os lábios em um sorriso tolerante quando te criticam por ser diferente, por não seguir a manada, por ter conceitos próprios, edificados na análise e na observação e não no calor das generalizações. Porque liberdade, para mim, é dizer "dane-se" docemente. Dizer "dane-se" com a mesma doçura que você usa para dizer "te amo".

Liberdade, para mim, é mergulhar nas suas vontades sem medo de se afogar. Porque a liberdade, para mim, nunca estará emancipada da responsabilidade.

Liberdade, para mim, é chorar quando sente que necessita, rir sempre que quiser, e amar indistintamente. Porque a liberdade, para mim, tem duas irmãs: a intensidade e a ausência de preconceito.

Por fim, liberdade, para mim, é algo quase impossível de se alcançar nesse mundo. É preciso ter muita raça e determinação para provar instantes de seu sabor. Por isso peço liberdade à vida e não ao mundo.


15 Novembro 2018 10:26:00

$artigoImagemTitulo


(Foto: Divulgação)


Tão bonitas e tão acabadas. Murcharam. Findaram. Rápido para mim. No tempo exato da natureza. Aquelas flores rosadas, viçosas, com aparência de bela eternidade se foram. Estão esturricadas agora, nada as fará ressuscitar, é inútil.

Usei todas as técnicas para que continuassem comigo: remover a embalagem do arranjo; água, de tempos em tempos; local apropriado. Cada artimanha teve seu sucesso relativo.

Tirar a embalagem (também rosa, como um sonho de criança) fez com que as flores fossem libertas da asfixia, respirassem fora do catre. Para a planta, respirar livremente é o que, para nós, humanos, significa abrir os braços, sem algemas de qualquer espécie.

Regá-las lhes devolveu a vivacidade que a secura da rotina e o sol cáustico da necessidade de permanência impuseram àquelas flores, semelhantes ao crisântemo, porém ainda perfeitamente inominadas para mim. Só sei que foram companhia por alguns dias. E isso me basta.

Desconfio que esse efeito de regozijo nas plantas represente para o ser humano viver algo novo, impensável, desafiador. Algo que faça com que a seiva da vida flua de maneira mais natural por suas veias, encante o coração e fortaleça as esperanças.

Colocar aqueles retalhos de beleza em local adequado reequilibrou os frágeis organismos das minhas companheiras. Brisa suave, brandos raios de sol, frescor.

As flores, assim, respirando fora do catre, orvalhadas de promessas e vivendo em ambiente ideal - ambiente que satisfizesse seus ancestrais anseios de delicadeza selvagem - finalmente, mesmo depois de quase se entregarem às condições adversas, viveram. E como viveram.

Florescidas silhuetas, folhas mais largas, mais verdes, mais cheias. Pude notar um sorriso em cada miolo? Pude sentir vibrarem as pétalas? Pude aspirar perfume naquelas luminescências que, a princípio, nenhum aroma marcante teriam? Sonhei? Delirei? Não sei. Vivi, ao menos. Seja sonho ou realidade, vivi. Vivi na sintonia das amigas, que trouxeram cor à minha existência desbotada.

Fato é que, agora, nada mais pode ser feito. Permaneceram ao meu lado, enquanto puderam. Enquanto lhes permitiu sua peculiar constituição. Ficaram comigo por um tempo estendido, inclusive. Estendido através dos artifícios que elenquei. Mas agora estão irremediavelmente acabadas. Sua intensidade fluiu; volta ao éter a essência, à terra a matéria. Eu fico. A vida me quer, ainda. Quanto a elas, o prazo de validade é menor: venceram. Ou foram vencidas pelo tempo.

Fico, mas tomo para mim a experiência que tive com elas. Fico, mas refeita pela energia magnética que trouxeram. Fico, mas, agora, cada vez mais, buscando me emancipar dos laços asfixiantes, da aridez da rotina e da mortificante sensação de deslocamento. Fico, procurando me desfazer da revolta do fim e me preenchendo com a gratidão do ensinamento por elas silenciosamente ministrado. 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
08 Novembro 2018 11:02:00


(Foto: Divulgação) /

Para aprender a sofismar,

A melhor forma é

Pelo mundo perambular.


O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Antes do caráter, 

Sofismar.

Se ainda sobra disposição 

Para ser 

Decente?

Isso é outro assunto 

Que nem sequer deixa 

A pessoa 

Contente. 


Todos sofismamos, em algum momento.

Salvam-se aqueles que, 

Depois disso, 

Sentem dor de pensamento. 


Quem de consciência gorda se arrepende

Ainda tem algum valor 

E futuro crescente. 


Raciocínios capciosos 

Provocam dissabores. 

Mas desde os tempos de Sócrates 

Tinham seguidores.

Do poder adoradores, 

Aprendiam com os sofistas:

Um bando de desarvoradores.


Sofismar hoje é comum. 

Embora honesto sofismador 

Não sobre um. 


Sobre aprender meu avô já dizia:

O mundo te ensina muito,

O mundo te ensina sempre. 

O mundo te ensina a mentir 

E a se enganar

De repente. 


Leitores, este é mais um dos poemas do meu novo livro "Inútil inocência" que agora está sendo vendido também na BANCA CENTRAL, ao lado do supermercado Colorido. 


01 Novembro 2018 11:14:00


(FOTO: Divulgação)

O paradoxal ultrapassa o entendimento. O paradoxo, portanto, uma vez detectado e não compreendido, impõe a necessidade de ser sentido.  

Dia desses um amigo e eu filosofávamos a respeito dos paradoxos da vida. Falava ele, com sua natural verve de observador, a respeito da discrição aparente como incrível sinônimo de atrevimento mascarado:

- Sempre é assim. As mais quietas são as mais levadas.

- Levadas em que sentido? - indaguei, já me ouriçando para rebater.

- Levadas no sentido de contornarem qualquer obstáculo para alcançar seus objetivos.

Me mandou anotar, o sacana. Disse que a frase fora despejada de sua mente num raro lapso magistral. Não anotei. Primeiro, para desafiá-lo. Segundo, para autoafirmar a minha lapidada capacidade de memorização, e também porque absorvi instantaneamente a essência de sua sentença: a vida como paradoxo inevitável.

Se as mais quietas são as mais levadas, se a água mole pode furar a pedra dura, se confusão vira melodia, será que a impossibilidade dos amores pode ser atenuada com a possibilidade das loucuras?

É maluco cavar esse terreno. Mais: é perigoso. O terreno dos amores vomita incompreensões e angústias, quando revolvido. O terreno dos amores incomoda, como incomoda o invasor no cerne da ostra, mas só assim ela consegue produzir a pérola. O terreno dos amores, meus amigos, é o exemplo clássico (e sempre atual) do paradoxo.

Seria, então, nesse contexto, o terreno dos amores mais acessível às criaturas ousadas? Às "levadas", como tão bem nomeou o meu amigo? Seria o terreno dos amores constituído de solo frio e de árvores severas para os covardes? Seria, consequentemente, de uma terra mais macia e de plantas sorridentes para os fortes? Outro paradoxo. Não são os fracos que precisam de facilidades?

Ah, vida. Minha vida, nossa vida, esse ciclo incompreensível. Quanto mais fibra tem um homem, mais claras se tornam as coisas. Quanto mais tímido na direção da conquista, mais obscura e íngreme a estrada.

"É preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre", diria uma canção. É preciso sondar o terreno dos amores, suas pedras e suas flores, suas depressões e planaltos, seus riachos e valos enlameados; identificar cada paradoxo e partir. Partir com o atrevimento dos levados e com a suavidade dos confiantes.


Nas malhas do cotidiano
24 Outubro 2018 18:08:00


(Foto: Divulgação) /

Ontem enlouqueci. 

Hoje já desenlouqueci. 

Minha vida mental é vária:

Tão inconstante 

Que chega a ser

Hilária. 


Ontem gritei, 

Chorei, 

Delirei; 

Até que cansei. 

Hoje sou uma moça assim:

Jeito de serafim. 


Ontem briguei com marmanjo, 

Da minha mãe destruí um arranjo; 

Nem liguei.

Fiz como sempre: açúcar esbanjo. 

Hoje, cara de anjo. 


Faço graça, mas para delírios busco a cura. 

Faço graça, mas instabilidade é mal que (ironicamente) dura. 

Faço graça, mas nem sempre é fácil lidar com a própria loucura. 

Faço graça, mas sarcasmo é poesia que perdura. 


Faço pilhéria aqui.

Faço motejo ali.

Mas a verdade,

A verdade

É que não sei 

Se realmente

Desenlouqueci.


Leitores! Este é mais um dos poemas do meu novo livro "Inútil inocência". O lançamento deste livro será no dia 26 de outubro (nesta sexta), das 19 às 21h, no SESC (localizado atrás da revendedora FORD). O evento é aberto ao público. Conto com vocês. 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
18 Outubro 2018 11:09:00


(Foto: Divulgação)/

Vivo pelas mãos.

Minha alma é feita de saudades,

Memórias,

Ilusões,

Esperanças violáveis.

Pelas mãos redijo a minuta de um sonho maior,

De objetivos insanos.

Ainda assim,

Com tal exação,

Que até me parecem

Prováveis.

Tudo consubstanciado através das mãos.

Não.

Não me sinto desvalida.

Totalidade interage sinergicamente:

Mão,

Papel,

Letra,

Lágrima doída.

É com prazer recôndito

Que escrevo coisas

Por vezes

Ociosas.

Dizem que sou elegíaca.

Quem sabe seja.

Gosto da elegia.

Esconjuro as alegrias

Injuriosas.

Conheço textualmente cada dor

Derramada.

Cada desespero

Vazado.


É uma transfusão entre mim,

A Vida,

O Papel,

O Nada,

O Absurdo.

A tal sinergia

Desmascarada.

Aliamo-nos todos.

Será que apenas virtualmente?

Vivo e transplanto

Para o papel

Buscando,

Tolamente,

Alargar a órbita

Das minhas soluções

Insolucionáveis.

Censuráveis.

Acusam-me de ser absenteísta, sim.

Será que sou?

Parece-me tão invertidamente profundo.

Mas que seja dito a meu favor:

De vez em quando

Até sinto

Alguns laivos

Do

Mundo.



Leitores, esse é um dos poemas que está no meu novo livro "Inútil inocência", disponível através do site www.clubedeautores.com.br. 

Nas versões e-book e impressa. 


11 Outubro 2018 09:04:00


(Foto: Divulgação)

Não vamos ter da vida o que queremos, mas o que merecemos. Por vezes o que merecemos é melhor do que aquilo que queremos, mas queremos o que queremos e não o que merecemos. Surge então aquele que, para mim, é um dos sentimentos mais desanimadores: a frustração.

Frustração é você querer tanto, mas tanto alguma coisa, querer com uma força tão poderosa que, quando não consegue, desacredita; desacredita e desencanta. Desacredita e desencanta de tudo. A frustração não sabe ser relativa, ela se expande, estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças.

A frustração, de início, é uma emoção aguda, de raiva, de ódio, de vingança; depois amaina: vira apatia. Frustração é tempestade: quanto mais severa, menos persiste. Pois o que é intenso sempre se transforma, tudo que é intenso é grande demais para um coração só.

A paixão, por exemplo, quanto mais intensa, mais rápido se transforma, ou vira amor ou acaba. A dor, quando satura até as entranhas, ou mata ou termina. As lágrimas, quando abundantes, ou afogam ou falecem. É por isso que me consola entender: no momento em que o fogo da frustração efetivar seu delirante trabalho de incendiar os mais belos sentimentos, restará a mudança. A frustração, apesar de nos parecer pétrea, é argila dentro de nós. Argila com necessidade de ser modelada.

Eu, péssima escultora que sou; pior: sofrivelmente imatura em questões sentimentais, até hoje nunca soube (e não imagino se saberei) modelar a frustração. 


"A frustração não sabe ser relativa, ela se expande,

estende suas garras e vai aniquilando, sem distinção, as nossas esperanças"


Sinto essa argila crescendo dentro do meu peito, me corroendo e gritando para ser trabalhada. O que faço eu? Paraliso. Tapo os ouvidos para não escutar seus berros. Dou umas batidas no peito (não de coragem, mas de covardia, como uma ordem agressiva para que a frustração pare de me atazanar) e fico apática. Se não aconteceu o que eu queria, sou impaciente e incrédula para esperar e acreditar que vá acontecer o que mereço.

É como disse antes: nós, os frustrados, somos também desacreditados. Somos incrédulos. E penso que nos tornamos assim porque somente neutralizando sentimentos abrasadores sofreremos menos. Se você acredita e não acontece: frustração. Se você não acredita e não acontece: tudo bem. E segue a vida.

O problema da incredulidade, do estoicismo e do controle impecável dos sentimentos é que deixamos de ser humanos. Nos tornamos programados. Não somos mais espontâneos. Ser humano dói. Mas ser máquina é amargo. Ser máquina é o nada mais amargo da humanidade.

A incredulidade pode até evitar que a dor nos penetre, mas impede também o contágio da alegria. Não alimentar expectativas é a única forma de não se frustrar e a maneira mais segura de ser um eterno ninguém para si mesmo.

Precisamos querer, precisamos acreditar, precisamos lutar, precisamos cair, precisamos nos machucar. Tentar de novo, machucar de novo, acreditar, querer. E cair. E querer. E acreditar. Um ciclo de dor e de alegria. Alegria e dor.

Precisamos de ferimentos e glórias para garantir nossa condição humana. E quem sabe assim, algum dia, atingiremos o estágio em que as frustrações representarão menor número, porque aquilo que queremos e aquilo que merecemos serão a mesma coisa.



NAS MALHAS DO COTIDIANO
04 Outubro 2018 10:47:00

É irônico como os momentos mais cruéis da vida são também os mais bizarros. Isso deve acontecer porque chega um dia em que percebemos que sofrer reiteradamente, sem trégua, se tornou tão patético que não é mais acreditável; aí se torna risível, de um riso amargo, mas ainda assim, um riso, uma vez que o choro superou todas as cotas que lhe seriam permitidas. 

Há vezes (e essas "vezes" podem não ser tão ocasionais quanto a palavra sugere. Podem ser "vezes" que se estendem por meses, anos, décadas) em que centenas de circunstâncias puxam a corda de um lado e você, sozinho, puxa do outro. E essas circunstâncias, além de serem muitas, são também pesos pesados em matéria de nos derrubar: fracasso, frustração, desilusão, desesperança, aflição, incompreensão, insegurança, medo. Cito apenas algumas, para não me tornar exaustiva, mas, lembrem-se: são centenas, talvez inumeráveis. 

Pois bem, parece triste, a princípio, não parece? Só que, na verdade, vai se tornando riso choroso se deparar com essa realidade, vai se tornando riso choroso para não se transformar em desespero profundo. 

Durante essa luta, você, a princípio, é aguerrido, determinado, está decidido a não soltar a corda, mesmo que suas mãos estejam cortadas, ainda que o sangue tenha lhe encharcado e tudo a seu redor. 

Depois você cai. Liberta a corda sem querer, simplesmente por não ter mais forças. Aí ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso; a voz diabólica do medo falando ao seu ouvido "eu disse"; as mãos queimantes da aflição subindo pela sua garganta acima, até apertarem o cérebro. 

Então fica com raiva. Levanta. Dá um salto com um vigor que nem suspeitava que tivesse, e agarra a corda de novo. Esquece que os ferimentos das mãos podem infeccionar; esquece que, quanto mais tempo ficar puxando a corda, mais cicatrizes vão surgir; esquece que vários ligamentos foram rompidos, diante de tanto empenho sem solução. Esquece. Só lembra do desdém dos que puxam do lado de lá. E tem ódio deles. 




Movido por esse ódio, prossegue. E prossegue mais. E passam dias, meses, anos, décadas. Você, sozinho, puxando daqui. Eles, em centenas, puxando de lá. Os pesos pesados contra você: o nada. O nada machucado, ainda por cima. O nada, que já era nada, acabado. 

Agora, depois de tanto tempo, depois de tantas feridas infeccionadas - e curadas não se sabe como e nem por quê -; depois de tanto cair, e levantar por orgulho; e cair de novo, e levantar por ódio; e cair novamente, e levantar não sabendo a razão, pois nenhum sentimento lhe resta; já não ouve a gargalhada desdenhosa do fracasso, a voz diabólica do medo e nem ao menos sente as mãos da aflição sobre você, porque, agora, não se importa mais com nada. Está insensível a tudo. Sabe que a guerra é perdida. E assim o foi desde o início. É então que olha para trás. 

Olha para trás e percebe que, segurando um pedacinho da corda (apenas o pedacinho que você deixou que Ele segurasse) está Deus. E Deus não faz esforço algum. Deus segura a corda com você, sorrindo. Você, pela sua falta de fé, só permitiu que Ele segurasse aquele mísero pedaço de corda.

Somente então você esquece de verdade. Mas não esquece mais de si mesmo. Esquece das centenas de execrações que agarram a corda do lado de lá, porque, eles sim, não são nada se comparados a quem está com você. 

Deus sorri mais uma vez, e você solta a corda. Solta a corda e sabe que vai voltar a puxá-la. Mas não agora. Agora você não aguenta. E, finalmente, admite que não aguenta. Solta a corda e, inesperadamente, é você quem olha com desprezo para o medo, a desesperança, a aflição e seus comparsas.   

Quando você solta, Deus, com um leve puxão, desmonta por inteiro todo o lixo do lado de lá. Tudo desmorona. Virá pó. Cinza. E só.

Você adormece. Adormece pelo sofrimento de tantos anos. Adormece pela exaustão. Mas adormece, sobretudo, pela tranquilidade tão nova de saber que não está sozinho. 

Antes de dormir completamente, contudo, ainda na vigília, escuta um suave murmurar nos seus ouvidos, ouvidos há tão pouco tempo torturados:

"A tua fé te salvou". 


NAS MALHAS DO COTIDIANO
27 Setembro 2018 11:11:00


(Foto: Divulgação)

Quando nada parece fazer sentido, sigo o conselho da Clarice Lispector e improviso um ato gratuito. Ato gratuito é aquele que, além de não custar, não trará (ao menos em uma primeira análise) nenhum benefício ou malefício. A gratuidade é tão absoluta que só improvisamos um ato desses quando sentimos que pouco temos a perder, quando passamos a duvidar de crenças antes irrefutáveis, quando percebemos que o nosso universo particular de certezas é, na verdade, um castelo de areia que desmorona um pouco a cada dia. 

Nos tempos de hoje, a ambição material faz tanto alarde que improvisar um ato gratuito afigura-se loucura, excentricidade; mais grave: capricho. Só que há momentos na vida em que não nos importamos mais com os rótulos que recebemos. Há momentos na vida em que ser apelidado de louco, excêntrico ou caprichoso é o único jeito para não ser nomeado infeliz. 

Antes louco do que infeliz. O problema é que, quase sempre, nos tornamos loucos porque já fomos muito infelizes. Para que não continuemos sendo é que considero válido improvisar o tal ato gratuito.

Assim, em um dia de incontornável tumulto emocional, saí, sem qualquer destino planejado ou itinerário previamente agendado. Simplesmente saí: de chinelos, cabelos assustados, olhando para baixo e chacoalhando as chaves de casa na mão, como se o tilintar pudesse despertar soluções em minha mente, como se o barulho de lar fosse persuadir meu coração a voltar a acreditar no que não acredita mais. 

No caminho encontro uma amiga. No caminho sempre existem amigos. Os amores desmanchados, quando temos sorte, desaparecem. Mas os amigos (que bom) sempre estão por aí. Os amigos são as inesperadas flores em nossas estradas pedregosas e incertas: quando achamos que nada de belo permanece, surge, milagrosamente, um amigo. 

A amiga a quem me refiro passeava com a filha, essa em um carrinho de bebê, vestida de maneira tão encantadora quanto o sol daquele dia; e o mesmo sol, que aos olhos de todos era maravilhoso, aos meus não foi capaz de suscitar grandes sentimentos, dado o meu invariável tempestuoso estado de ânimo.    

A amiga referiu-se, legitimamente orgulhosa, ao rápido crescimento de sua menina e à esperteza dela; falou ainda que planeja outro filho para daqui a três ou quatro anos; anseio que eu, ilhada em minha completa falta de instinto materno, não compreendi. 

Entretanto, contemplando aquela linda criança, fiz uma silenciosa prece para que ela, assim que crescesse um pouco, não cultivasse ilusões (pois o mundo certamente não as satisfaria); ou pensasse que a vida ira ser tão doce quanto o algodão cor-de-rosa que segurava (pois as pessoas certamente a amargariam). Que todas as crianças que hoje são contentes, quando adultos vão sofrer, alguém duvida?

Contudo, depois de caminhar por cinco ou seis minutos ao lado da amiga, ao voltar para minha habitual solidão, pude me rejubilar por, afinal, ter decidido improvisar um ato gratuito. Porque só desse modo fui impulsionada a sair, nem que fosse por instantes, do calabouço de desesperança que há muito me aprisiona e, triunfante, constatar: para algumas pessoas, ainda é possível ser feliz. 



NAS MALHAS DO COTIDIANO
20 Setembro 2018 08:59:00


(Foto: Divulgação) 

"A saudade escreveu e eu translado". A frase foi dita por um dos personagens do livro "Clara dos Anjos", do escritor Lima Barreto. Esse personagem atribuiu a autoria da frase a Camões, mas suspeito que a verdade nela contida pertença à humanidade. 

Há dias em que a saudade chega de mansinho e sussurra no ouvido da gente. É ela quem dita, a gente só transfere para o papel o que a razão suprema da melancolia quer proclamar. Há outros em que ela, feito megera selvagem, já vem de dentro, de dentro do peito, bem lá do fundo, rasgando carne e sentimentos, para poder emergir. 

Nos momentos de branda melancolia, de saudade sussurrada, a dor é mais tolerante, embora machuque também: fica batendo a intervalos cruelmente pouco espaçados, atormenta, fere os pensamentos e, quando resolve começar a sair, sobe à garganta; é então que tentamos engolir o nó que ali se forma. Incapazes disso, choramos. O choro é a saudade sangrenta convertida em líquido transparente, que vaza pelos olhos e alaga o rosto. 

Nos dias de saudade selvagem, seu rugido de fera indomesticável ensurdece, não sabemos o que se deforma mais: nossos tímpanos - afrontados pelo som da agonia -, ou nosso coração - esmagado nas mãos ferozes de um sentimento por muito tempo trancado. 

Os olhos, é claro, sofrem nos dois casos. Os olhos sempre sofrem: ora incendiados pelas lágrimas que em vão procuram conter, ora gemendo quando enfim as derramam. 

Naquele que escreve, por se entregar totalmente ao sentimento, tudo se dilacera: corpo, mente e coração. A saudade vem das vísceras e, ao chegar à garganta, é puro fel. O corpo enfraquece, a mente berra e o coração (mal suportando a si mesmo), influencia os dedos, que transladam as palavras dela: da dissimulada murmurante, da megera brutal; transladam para o papel o que a saudade quer. Mais: transferem para o papel o que a saudade ordena, em seu trono que a ninguém é dado insultar. 

Ninguém pode, antes: ninguém nem tente, insultar o trono da saudade. Ela, mesmo sozinha, sem trono e sem nada, é mais poderosa que nós, muito mais poderosa. E a saudade sussurrada, embora discreta e polida, tem tanta supremacia quanto aquela belicosa e animal. A saudade tudo pode; nós, pobres de nós; em face dela, nada podemos. Lutar contra a saudade é tão tolo quanto tentar debelar um furacão. Lutar contra a saudade é o mesmo que pensar que se pode controlar o brilho do sol ou a fúria de um temporal. A saudade é ainda mais independente que o curso da natureza, ainda mais pérfida que os desastres naturais. 

A saudade é soberana. É ela quem escreve. Eu? Miserável de mim: eu apenas translado.   


13 Setembro 2018 11:01:00


(Foto: Divulgação)/

Sempre na mesma hora. Sempre no mesmo lugar. Fixa o trânsito sem enxergá-lo, seus olhos indo e vindo, refletindo os carros, os pedestres, a luminosidade violenta do semáforo. O vermelho do ardor e do sangue. Do furor e da tragédia. Seus olhos vermelhos duplicando o vermelho da agitação. Seus olhos brancos reforçando o branco da rotina. O branco do vazio. Seus olhos brancos opacos da brancura cega de sua vida. 

Invenção minha, julgam? Não. Personagem dele mesmo. Personagem de algum eu extraviado; mártir visado, plebeu imaginado. Seus olhos, aqueles aos quais não canso de descrever, naquele instante fitavam duramente o movimento, a fumaça, a poeira, cada semblante distraído, cada refém de tantas noites, esvaído. 

Dei-lhe o nome de Olhos Famintos, lembrando de um filme a que assisti na infância. Olhos Famintos, como já disse, sempre na mesma hora, sempre no mesmo lugar, fixa o trânsito sem enxergá-lo e jamais me vê. Jamais me vê, tenho certeza, porque Olhos Famintos não tem interesse por curiosas feito esta que tão pobremente vos escreve. Olhos Famintos, assim como eu, examina os alheados. Olhos Famintos, portanto, não se familiariza com outros olhos semelhantes aos seus. 

Passo todas as manhãs em frente ao banco de praça que Olhos Famintos tombou para si. Nos dias em que o sol se mostra e a ardência das origens queima através dos raios, seus olhos ficam vermelhos. Naqueles em que só a nebulosidade macula o céu, o frio vigora e os distraídos são distraídos tristes, Olhos Famintos penetra o clima reinante e nele se instala, com olhos brancos. Não brancos como a lua, o leite ou as asas dos anjos. Nada astral, nada bíblico, nem nada angélico. O branco de Olhos é o da fome. Do oco. Todos os desvãos eternos eternamente retratados nele: na fome de Olhos. 

Considerando que não me enxerga, tomo para mim orgulho idêntico e também não falo com ele. Não o cumprimento. Finjo nem notá-lo. O problema é que, apesar de ser figura bastante comum, de Olhos emana uma aura de magia absurda, que percorre feito líquida febre as veias da cidade. Que destrói com fogo as entranhas dos desavisados. 

Não sei que enigma Olhos tanto sonda, mas suspeito que a fome ancestral que o devassa seja parecida com a minha: descobrir uma alma pura e através dela investigar a cura para as podridões do mundo, para os vícios espirituais do globo, para as maldades enraizadas de todas as demais almas. 

Não. Olhos Famintos, ao contrário do que o epíteto sinistro pode sugerir, não é monstro de filme. Olhos tem fome, sim. Mas uma fome nobre. 

Olhos Famintos quer transformar a engrenagem oxidada da vida. 

Olhos Famintos é um sonhador. 

Olhos Famintos, de certa forma, sou eu. 

Olhos Famintos, espero, também seja você. 




06 Setembro 2018 10:16:00
Autor: Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) 

Mãe no ônibus, conversando pelo celular com o filho de 38 anos: 

- Não esquece que o Danoninho tá na geladeira, na segunda prateleira de cima pra baixo, ao lado do pote de feijão cozido... Sim, eu sei que essa é a terceira vez que falo, mas é só pra você não esquecer. Filho, se cobre bem essa noite, vai ser frio. A manta azul tá no guarda-roupa bege, na terceira prateleira de baixo pra cima. Hã? Sente calor à noite? Mas essa vai ser gelada, diz a previsão. Sabe se cuidar? Mais ou menos, né, Carlinhos? Abasteci o carro, mas não saia, fique em casa, cuidando do Nestor (cachorro da família). Não! Não abandone o Nestor como você é acostumado a me abandonar. Não xinga, sou tua mãe! Quando você tiver um filho, vai me entender... Mas... como eu sei que você não quer agora... aperta bem a ponta, senão entra ar e... O quê? Pra eu falar baixo? Eu falo baixo, você sabe (a mãe é de descendência italiana). Além do mais, são só 30 passageiros. Quanto ao meu futuro neto, esqueça aquela vigarista pra mãe dele. Conheci uma moça tão boazinha aqui no ônibus: ajuizada, prendada, sabe até fazer pão! (Dá uma leve batida no joelho da mulher ao lado, que sorri amarelo). Quê? Pra eu não me meter na tua vida? Eu só falei! (Chorando): Quando eu morrer você vai sentir falta, tá? Quando tua mãe estiver jogada num caixão, ah, Carlos Augusto, aí você vai se arrepender. Ou não. Ou é capaz de nem me velar, desalmado que é pra tua mãe. Só pra tua mãe, porque pra vigarista é todo cheio de amorzinho. Não grita, Carlos Augusto! Ainda sou tua mãe; mais respeito, moleque!

Pausa. Voz doce:

"Já acertei com o dono do restaurante ao lado de casa. Você vai almoçar lá. Hã? Não gosta da comida? Como assim? Filho meu não é enjoado. Vai comer lá, sim! Você precisa comer mais salada. Tá ficando fofinho, embora continue lindo. Quanto à janta... Eu sei. Sei que são só 2 dias. Um e meio, na verdade. Tá, tá, vou ser tolerante dessa vez, só pra não me chamar de controladora. Deixo você encomendar pizza. E como já imaginava que ia querer jantar pizza, deixei dinheiro em cima da geladeira, à esquerda, embaixo do Santo Antônio. Você tem? Eu sei que tem, mas é agrado de mãe, Carlinhos, aceita. (Ela desconhece a razão, mas a maioria dos passageiros sufoca o riso). Tenho que desligar, a partir daqui o sinal fica fraco. Te amo. Se cuida: Danoninho, coberta, carro, cachorro, pé na bunda da vigarista, apertar a ponta, almoço, janta... Repassou tudo? Anotou? Ah, esqueci de falar..."

Antes de o sinal cair, Carlinhos desliga. Indignada, ela suspira, olha desolada para a pretensa nora e fala:

- Desligou na minha cara. Não criei assim. Não sei por que, mas esse menino nunca cresce!



30 Agosto 2018 11:33:00


(Foto: Divulgação)/


Muito se discute acerca de o que é a verdade. Assim como todas as expressivas discussões, nunca se chega a uma conclusão. Penso que cada um tenha a sua verdade, construída de acordo com as suas crenças, experiências, medos, expectativas, observações e influência alheia - porque, infelizmente, muitas vezes edificamos as nossas verdades baseados na opinião dos outros. 

Nossos pensamentos, atitudes, projeções e fatos a que damos importância revelam a nossa verdade. E a nossa verdade somente deixa de o ser quando passa a não mais nos servir, não se encaixar aos novos valores e às remodelagens que de tempos em tempos - graças a uma palavra mágica chamada evolução - damos à existência. 

Só que nós, esses seres em constante modificação, não absorvemos os pensamentos remodelados assim, instantaneamente. Novos valores testam a nossa capacidade de resiliência. Novos valores gritam e esperneiam para que sejam fixados dentro de nós, porque novos valores, para nascerem, precisam antes assassinar a verdade antiga, sem o que não conquistarão o espaço deles. 

Quando uma verdade morre, morrem muitas outras, pois para estabelecer uma grande verdade indispensável se torna um amontoado de pequenas. Ao sustentarmos uma verdade, acreditamos automaticamente em tudo que a ela é correlato, já que cada ideia consagrada depende de outras centenas. É a mesma lógica de sustentabilidade que rege o universo interpessoal: necessitamos das pessoas não apenas para sobreviver, mas para algo muito maior: precisamos das pessoas para viver. 

Deve ser por isso que quando as circunstâncias, as mudanças forçadas ou as nossas próprias reflexões nos impulsionam a uma remodelagem interna, temos a sensação de que estamos morrendo e nascendo ao mesmo tempo: um ideal belo, cintilante e promissor nasce e já embrionário é assassino. Assassino do velho conceito. Mas essa é uma morte magnânima, tanto o assassino quanto o assassinado entendem e comungam da necessidade dos ciclos: objetivando o nascimento do novo, imperativa se torna a finitude do velho. 

Para que não existissem os dolorosos e impreteríveis ciclos, só mesmo se nos governasse uma verdade única. Afinal, já houve, em algum tempo - qualquer tempo - uma verdade única? Nunca houve. Embora tenham nos feito acreditar que nós - os rebeldes - desvirtuamos essa imaginária verdade. E se a "desvirtuamos" foi para que tivéssemos a liberdade (essa liberdade tão dura e essencial, tão difícil e doce, tão utópica e real) de arquitetar a nossa profunda, singela e sentida verdade. 

Porque aí, quando essa verdade também morrer, saberemos que somos capazes. Que somos capazes de construir tantas e tantas outras que se adéquem ao que somos, ou ao que estamos no momento. E não que sejamos capachos nas mãos do destino, aceitando a verdade que nos é atribuída pelo mundo. 

Um mundo que nem ao menos sabe quem somos, ou o que sentimos. 


logo as5.png

JORNAL "A SEMANA"
Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida
89520-000  -  Curitibanos/SC  -  (49) 3245-1711