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Eternizei-me?

07 Fevereiro 2019 14:48:00


(Foto: Divulgação) /

São os monólogos interiores que me conduzem ao tema de cada escrito. Quando confusa em relação à hierarquia de importância dos assuntos, recordo a resposta que recebi de um colega ao conversarmos acerca dos meandros da escrita. 

"Sobre o que devo escrever?" Questionei eu. 

Ele: "Depende. O que você quer eternizar?"

Naquele dia, percebi: a escrita busca informar, fazer refletir, desvendar; mas procura, acima de tudo, eternizar. 

Submersa em onda especialmente saudosa, revisei textos antigos e cataloguei os principais temas que venho tentando, inconscientemente, eternizar.

Passados-novos, presentes não-vividos, futuros incendiados por incertezas, anarquia de sentimentos, explosões mentais, mudanças involuntárias, resistências, temores. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Amizades duradouras, enganos perenes, certezas decepadas, saudades entranhadas, alegrias fugazes, sorrisos vacilantes, abraços da frieza, beijos da amargura. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

No transcurso dos anos, armazenando sentimentos, reescrevendo momentos, revivendo desencantamentos, sustentando crenças e descrenças, reavivando semblantes, assassinando esquecimentos, reativando memórias, lembrei-me de fases, esqueci-me de idades, desconsiderei preconceitos, vivi através das palavras o eco de verdades. Vivi o que a realidade, por tantas vezes, me tirou. 

Plantei flores de palavras, árvores de palavras, colhi frutos de palavras. Pisei na grama orvalhada e acolhedora das palavras. 

Alentei-me por palavras. Dividi-me por palavras. Conquistei paraísos por intermédio das palavras. Descerrei infernos com o escudo das palavras. Eternizei? Eternizei-me? 

Morri-me afogada de palavras. Renasci-me porque as palavras fizeram em mim respiração boca a boca, pensamento a pensamento, orelha a dedos, sentimento a sentimento. Eternizei? Eternizei-me? 

Senti-me em razão das palavras. Pensei-me sob o pálio das palavras. Mediquei-me pela seringa das palavras. Gritei o silêncio das palavras. Chorei palavras: de meus olhos ainda escorre tinta. Eternizei? Eternizei-me? 

Utilizei a pontuação para repensar histórias (vírgulas, muitas vírgulas). Emendei parágrafos em narrativas que acreditei chegadas ao fim. Arranquei páginas; com vigor, risquei frases; adicionei outras (à margem). Escrevi bilhetes; rasurei. 

Permiti, silenciosa e resignadamente, que outras pessoas colocassem pontos finais, que pessoas saíssem de um roteiro no qual sentiam não se encaixar. Que sei eu do filme dos outros? Calo-me, então. De meu, apenas outro ponto final, ao lado. Com mais um, vira reticência. Dúvidas, dúvidas, dúvidas. 

Eternizei? Eternizei-me? 

No trajeto da vida, aliás, quem eternizou-se em mim? Em quem me eternizei? Quem foi parágrafo que se apagou por si mesmo, fazendo questão que assim o fosse? 

Quem foi a frase destacada, o enredo inesquecível, a leitura incansável, o contentamento narrativo? 

Quem quis eternizar-se? 

Quem quis partir? 

Quem escreveu ao meu lado? 

Quem, ao contrário, só fez o esforço de rasgar a página?   

Hoje noto que, de fato, meu amigo estava correto. Somente o passar do tempo nos mostra o que é certo. Escrever é eternizar. Nessa ingrata tarefa, acabamos por eternizar quem nunca desejou se eternizar em nós; eternizamos fatos que, sem o gigantismo das palavras, seriam insignificantes; eternizamos amores transformados em ódios; eternizamos ódios que se transformam em amores. 

E depois não tem mais jeito: está tudo lá, eternizado. Finais serenos, eternizados. Finais dolorosos, eternizados. Finais que nunca deveriam ter sido inícios, eternizados. 

Eternizei.

Eternizei-me?  

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