ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  

Uma só cor restou

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Assistia, de longe, ao show. Não foi em Curitibanos, não foi agora, faz tempo. Um tempo imenso. Não ouvia a música. Era rock, banda conceituada, meu gosto musical. Mas eu não ouvia a música. Escutava apenas os ruídos internos que nunca me permitiram concentrar absolutamente em coisa alguma. Me ensurdecem, me embriagam, tenho milhões de vozes interiores que, entretanto, me conduzem a um silêncio inelutável.  

Ele estava lá. Muito mais perto do palco. Longe de mim, bem longe. Distante, inalcançável. Também sozinho, mãos nos bolsos. Quantos anos, mesmo? Além do tempo, quantas ideias, visões de mundo e inflexibilidades nos separavam?

De costas, os cabelos claros mudando de cor ao sabor das luzes vindas do palco. O azul cristalino do céu que fomos. O vermelho das nossas fúrias unidas. O branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida. O preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo. O preto do rock. O preto daquele dia.

Insensível à música, desconsiderou quando uma moça tocou seu ombro, fingindo ter esbarrado, mas na nítida intenção de encetar contato. Uma mulher sempre sabe da intenção de outra mulher; sobretudo quando essa outra mulher se aproxima de um passado irresolvido seu.

Só que ele permaneceu indiferente, apenas elevou o ombro requisitado, como se espantasse uma mosca. A mulher se afastou. Não foi propriamente alegria o que experimentei, mas um sentimento de alívio me inundou.

Eu não iria até ele, estava decidida. Ele não tinha me visto. Então, tudo certo. Porque o passado, quando indigesto, se reavivado não vai se contentar em ser desconforto administrável: vai queimar as entranhas.

Fechei os olhos por uns segundos, ou foram minutos? Ou horas? Ou vidas inteiras? A minha vida e a dele, no passado cruzadas, voltavam, conectadas, naquele fechar de olhos. Em meio ao esmagador barulho, ninguém deve ter reparado na minha abstenção. Se alguém olhasse veria uma mulher-menina, vestida de preto, os olhos lacrados, só isso. Mas eu, eu via um passado. Eu via dois passados. Entrelaçados.

Sucessivamente, por trás daquelas pálpebras tão inocentes, concebia o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída. O amarelo de uma serenidade nunca obtida, o preto do fim. O preto de um fim anunciado desde o começo.

Me senti obrigada a abrir os olhos quando alguém, num gesto semelhante àquele da moça, e certamente tão intencional quanto, tocou meu ombro.

Fui descolando os cílios, elevando-os, fazendo de meus olhos já pequenos apenas uma fresta, para enxergar que intromissão em forma de gente ousara me arrancar das memórias.

E lá estava ele. Ao meu lado.

Estava ao meu lado, como nunca esteve.

Sorriu.

Era ele... mesmo?

Os olhos pareciam mais vivos, livres das escuras incertezas de outras épocas.

Me fiz incapaz de corresponder ao sorriso, quem sabe em uma inconsciente forma de vingança. A infalível engrenagem do universo. Naquele momento, se apagaram o azul cristalino do céu que fomos, o vermelho das nossas fúrias unidas, o branco da paz raras vezes construída, o amarelo de uma serenidade nunca obtida. Restou apenas e tão somente o preto do fim.

O preto de um fim anunciado desde o começo.

O preto do rock.

O preto daquele dia.

Inclinou a cabeça, confuso diante da falta de receptividade. Constatei que era ele, sim. Constatei mais: constatei que a nossa história havia acabado.

Uma só cor restava:

O preto das dúvidas dele.

O preto das fulminantes ausências.

O preto de uma reciprocidade que, agora, era eu quem negava - a infalível engrenagem do universo.

O preto de um retorno impossível.

O preto do fim.


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711