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Nossas especialidades


(Foto: Divulgação)

Quanto mais tenta aparentar naturalidade, mais afetado se mostra. Aguarda na fila ao lado da minha, na Lotérica da Salomão. Os dedos de unhas roídas mexem no celular, mas acho que não há nada de interessante ali, pois logo os olhos dançam nervosos, percorrendo todo o ambiente, sem parar em nada ou em ninguém.

Guarda o aparelho do bolso, rói a unha do indicador esquerdo, respira de maneira barulhenta e superficial, olha para cima, para os lados, para mim, sem me enxergar; eu, todavia, vejo angústia nas íris pretas. Sorri mecanicamente para um senhor que, numa demonstração de amizade, lhe bate nas costas.

Sim, leitores, vocês me conhecem: como não sei o que se passa, vou deduzir. Só que até mesmo para cogitar precisamos de dados inquestionáveis. O único que consegui notar é que há aflição ali. Muita aflição. Aflição incapacitando a garganta, aflição saturando os olhos, aflição inquietando o respirar, o pensar, o esperar; aflição escorrendo dos dentes às unhas.

Dor? Perda? Remorso? Indecisão? Aposto no remorso. Mas não descarto os outros três sentimentos, porque da indecisão pode muito bem ter nascido uma atitude infeliz que levou à perda e à dor. Dor que se desdobrou em remorso.

A fila avança. A dele, a minha continua empacada. Não estou mais ao lado do homem. Vejo agora a parte de trás de uma cabeça grande para um tronco apequenado. Será que estou sendo filosófica ao supor que foram os passados equivocados daquele homem que se converteram em ideias densas, incomodativas, renitentes na cobrança? Uma consciência gorda é o que intuo logo acima do pescoço magro, de traqueia consumida pela culpa?

Há manchas de suor em suas costas. Camiseta vermelha. Todo o ciclo de angústia recomeça: a unha do indicador esquerdo não é deixada em paz, os suspiros saem com ruído, agora uma roliça gota de suor brota da nuca. Os sinais não são apenas de impaciência. Me desculpem a pretensão, mas detectar aflições trancafiadas é a minha especialidade. Talvez por farejá-las, mas mais provavelmente por serem reflexos de mim mesma.

Não, não apenas impaciência. Chega a vez dele. Fecho olhos e ouvidos a tudo o que não seja aquele homem. Preciso observar com atenção antes que se passe esse capital momento analítico.

Rápido em tirar a conta e o dinheiro do bolso. Ágil em contar as notas. Silencioso ao colocar os dois abaixo da abertura do vidro. Aflição trancafiada, não há dúvida. Rala conversa com a atendente. Sins e nãos objetivos. Evitando contato. Aflição trancafiada, não há dúvida.

Finalizado o atendimento, se volta para sair e me vê. Neste momento me vê, de fato. Minhas íris são mais claras que as dele, mas tão intensas quanto. Reconhece de imediato uma repetição sua ali. Reconhece outra aflição trancafiada, talvez não pelos mesmos motivos que ocasionaram a dele, quem sabe entreveja em mim uma aflição de mágoa. E quem sabe esteja correto.

Porém, que encara uma aflição trancafiada, disso parece convicto; pois ele, assim como eu, também deve precisar de uma certeza para que só então possa analisar.

Sai da Lotérica. Continua a cogitar. Hipóteses pululam em sua mente.

Como sei dessas particularidades?

Detectar aflições trancafiadas são as nossas

Especialidades.


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