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A engrenagem não vai girar

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)

O tema não é inédito nesta coluna. Mas por mais que se escreva sobre ele, creio que nunca serão abordadas todas as suas sinuosidades. A consciência. Os terrores da consciência. Os tormentos mentais inacreditáveis a que o ser humano se entrega para se purificar das próprias atitudes.  

Um caráter torto prejudica a sociedade, porém, antes disso, muito antes disso, envenena o indivíduo. O caráter torto é o maior inimigo da consciência. E ela, exatamente pela sua característica principal - a justiça -, volta cobrar.

Não se trata de conspiração do bem ou do mal, de energias misteriosas, de enigmas do universo. Tudo límpido - lei. Lei basilar: causa e efeito. Plantar e colher. Agir e receber a reação pertinente. Científico. Lógico.

Gravar em código, pra quê? O elementar já vem insculpido nela - rainha e salvadora, severa e certeira, julgadora soberana: a consciência.

Penso em uma engrenagem perfeita, com minúsculos mecanismos que a compõem e a fazem rodar - nossas atitudes. Máquina salvífica ou mortal. Cada erro quebra uma peça. E a vida caminha. E caminha. Mas a engrenagem é uma só. Chegará o momento em que, independente de perdão ou de condescendência, precisaremos da peça que quebramos. Ou consertamos ou nada mais gira. A vida encalha.

Nesse momento, o momento nevrálgico do acerto de contas, nem mesmo a mais sincera absolvição do ofendido - peça quebrada - será suficiente para que a engrenagem volte a funcionar. Então nós, investidos do papel mais vergonhoso de todos - o de ofensor - vamos remoer, repisar e recalcar a nossa ação leviana.

Estragamos o mecanismo ideal para o nosso crescimento. Esnobamos a nossa guia. Fechamos os ouvidos para a consciência. Destroçamos uma peça. E agora precisamos dela, inteira, para completar a jornada.

O círculo estava tão saudável! Girando tão bem! Uma peça, uma pecinha só. Uma ofensazinha, que tem de mais? Uma pessoa magoada, o mundo tem tantas.

Eu sei, sei que me consideram demasiadamente rígida. Que certas coisas devem ser relevadas. Que nem tudo é assim, tão a ferro e fogo. Porém, são as inúmeras observações e a coerência do universo que declaram, não eu: a peça rachada fará falta, na vida de qualquer pessoa. A engrenagem, uma hora ou outra, vai parar. O conserto será indispensável. Sem isso, onde a justiça? Nesse dia a ofensazinha esquecida, a humilhaçãozinha que está no fundo do baú irão se avolumar, serão fantasmas a nos torturar, serão vozes a gritar. E a engrenagem... a engrenagem não vai girar.


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