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O amanhã que não veio


(Imagem:Divulgação) /

Esperava o amanhã, tinha planos para o amanhã. O seu amanhã não veio. A vida foi o ontem, o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Mesmo com poucas palavras, creio que vocês já sabem a quem me refiro. Colega de ofício, escreveu. Escreveu poemas, histórias, memórias. Escreveu, pesquisou, informou. Esperava o amanhã, só que o amanhã... O amanhã não veio.

O ano nem chegou à metade e já é o segundo amigo que se vai. Viveram o ontem, viveram o agora, mas o amanhã... O amanhã não veio.

Não é raro - é mesmo saudável - que pensemos no amanhã. Mas quando o amanhã se torna hoje e nos esquecemos de viver o agora para tão somente planejar o que pode nem chegar, talvez tenhamos a sensação de previdência, porém, se refletíssemos que o amanhã é ilusão, uma fantasia volúvel, provavelmente agiríamos com mais intensidade enquanto há tempo.

O amanhã impossível não significa apenas a morte. O amanhã impossível pode ser a mudança de trajeto, a diferente perspectiva, a pessoa, situação, alegria ou tristeza que te empurram para outra direção.

Todos planejamos a vida. Suprema ingenuidade com cara de sabedoria. A vida é maior. Porque a vida abriga em seu bojo a morte. E a morte é uma mal-educada que não pede licença, uma desajustada que nos arrasta com ela quando quer, não importa idade, interessa menos ainda se queremos ou estamos preparados. A morte, a morte, sim, reina.

Seja por acidente, doença ou outro subterfúgio que a morte encontre para realizar sua vontade, deixa como herança uma única sentença: haverá um amanhã que não vai chegar.

Se o meu amanhã impossível fosse mesmo amanhã, eu não estaria de bem com todo mundo, nem com o perdão nos lábios ou com a tolerância no coração. Há sentimentos de pouca beleza que encalacram e talvez não desencalacrem nem no momento fatal.

Sinto muito ser tão humana até ao projetar o meu amanhã impossível, mas a realidade é essa: não me tornarei imaculada apenas porque um dia vou morrer e as pessoas que vão ficar não se transformarão em anjos de candura, merecedoras da isenção de seus atos, apenas porque sentirão o cheiro da morte mais próximo delas.

Falo por mim. Mas sei que os amigos a quem me reporto estavam bem menos contaminados pela amargura e que, possivelmente, se foram muito mais leves do que eu iria. Entretanto, conhecendo-os tanto quanto essa curta vida permitiu que os conhecesse, também intuo: concordariam comigo - há certos defeitos humanos que nada suprime, muito menos a inexorável morte.

Um dos defeitos que a morte, além de não apagar reforça, é a nossa revolta com ela. Sinto falta, sim. Fico triste com a passagem deles, mas fico brava, também. Sei que não deveria, que cada um tem sua hora, que a vida é um sopro e blábláblá, mas eu não queria e ponto. Se a morte me ouviu? Não me deu a mínima.

Apesar de esperarem o amanhã, com o entusiasmo aos dois inerente, ambos, presenciando minhas crises de ansiedade, advertiam: "Viva o hoje", "Você se preocupa demais com o amanhã".

Tento seguir o conselho desses amigos, todavia, não sendo perfeita - sendo inclusive antípoda da perfeição -, nem sempre consigo e por isso peço que ao menos vocês, leitores, caso possam, pratiquem a essência dessas exortações e se perguntem, ao final de cada dia:

E se o amanhã não existir?

Aos amigos:

Sebastião Luiz Alves e Franciele Gasparini.


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