ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  

O que vou encontrar no final?

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação)/

Ao se aproximarem os finais da vida - quantos em uma só? - pressentimos os encontros cabais. Mudamos de casa, de cidade, de emprego. Fazemos outro curso, adquirimos outro hobby, vivemos sob a égide de novas perspectivas. Substituições demonstram que finais vêm ao nosso encontro, por mais que não procuremos por eles e, na maioria das vezes, nem os desejemos.

Centenas de vidas em uma única vida já se despediram. Ficamos. Mas ficamos ruminando a necessidade de voltar? E se queremos voltar seria, talvez, para refazer? Não nos satisfez o que encontramos no final?

É um exercício de sondar as profundezas, veja bem, de resgatar perfumes ou podridões, de beber das nossas atitudes sem saber se essa poção vai nos matar.

Ou sabemos, sim. Sabemos até que ponto o cálice foi conspurcado. Sabemos exatamente a fração de líquido da taça que descerá rasgando a garganta. Sabemos em qual parte vamos engasgar. Sabemos inclusive se o cheiro vai nos entontecer antes mesmo de levar o copo aos lábios. Sabemos também se nossa boca brilha ou arde com as palavras ditas, amarga ou sorri com os silêncios, crispa ou alivia diante das lembranças dos beijos.

Sabemos a procedência desses beijos, se de traição ou de amor, lealdade ou mentira.

Nem sempre são caminhos longos a nos conduzirem a um término. Nem sempre são martírios de anos, alegrias de décadas. São caminhos. A intensidade deles determinará suas extensões dentro de nós.

Seguimos: caminhando, correndo, nos arrastando, rindo, gemendo. Seguimos: no escuro, na claridade, de pés no chão, calçados, felizes, frustrados. Seguimos: nos arrependendo, sofrendo, alegrando, vivendo. Percorremos esses customizados caminhos: diferentes, para cada um; semelhantes, em muitos trechos, para todos.

No final, um copo sobre uma plataforma. Plataforma resplandecente ou obscura? Você sabe, você construiu.

O copo é grande? Está cheio, pela metade, vazio? Você encheu ou esvaziou? Você sabe, entornou lágrimas ali, boas ou más ações. Você sabe.

Você sabe de tudo. Pôde escolher fazer ou não fazer e o que fazer, até o final.

Só que, no final, a vida não te dá mais opção: terá que tomar do seu próprio cálice.

Morrerá à míngua? Não tem nada na taça?

Se tem...

É conteúdo amargo ou doce?


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711