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Ovelha multicor


(Foto: Divulgação) /

Na época, eu nem era assim, tão doida. Porque a loucura, longe de ser demência, representa uma lapidada arte.

Mas, como eu dizia, no tempo a que me refiro essa arte ainda não estava assim, trabalhada.

A infância: ingênua veneração aos adultos, inocência em busca de aprovação. Não creio ter sido uma criança original; não era louca, afinal, originalidade é clara indicação de loucura.

Não era original, pois. Era correta. Elegia padrões de procedimento e os seguia. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Fui uma doce criança. Não parece, mas fui, garanto, podem perguntar por aí. Só chantageava os meus pais quando queria pousar na casa de uma amiga e era pela autoridade deles impedida. Só provocava meu irmão em tom baixo, para depois negar a provocação, com o sorriso meigo da criança miúda e inocente. Só esperneava quando contrariada.

Minhas contrariedades: levantar cedo, diminuir a ingestão de balas, escovar os dentes, arrumar os brinquedos, não arranhar o irmão. Poucas contrariedades. Uma doce criança, repito. Porém, na verdade, acho melhor não perguntarem a ninguém. Apenas acreditem em mim, não minto, nunca.

Independente da docilidade que, neste momento, pode estar sendo questionada por vocês, no íntimo eu era cordata, sim. Bastante. Até demais. Queria revolucionar na superfície, mas no essencial era quieta, não questionava e por isso não sofria. E por isso não vivia.

Uma das brancas ovelhas de um imenso rebanho chamado humanidade. Uma integrante do rebanho. Tão somente uma integrante, pouquíssimos traços destoantes. Qualquer adulto poderia ser o meu pastor. A arte da loucura ou a loucura da arte? Muito distante de mim.

Hoje, contudo, percebo que a agitação iniciada no raso um dia nos leva ao fundo. Mergulhamos. Há momentos em que sentimos: vamos nos afogar; há outros em que submergimos gravemente: Mergulhar em si mesmo conduz a uma emersão mais pura, me disse uma amiga. Quem sabe. Mas hoje não acredito em nada gratuitamente, não permito a ninguém me pastorear.

E assim, a tonalidade da ovelha, aos poucos, foi se modificando. Amarelo-queimado tão logo notei que o mundo não era cor-de-rosa. Marrom-chocolate-estragado ao identificar o gosto amargo dos enganos. Atualmente curto um cinza-escuro, que vai ficando mais sombrio no ritmo da germinação do conhecimento.

Meu objetivo, vocês já devem intuir: me tornar uma ovelha negra. De um negro profundo, diferente, só meu.

Porque originalidade é loucura, mas loucura muito mais interessante que uma revolução de superfície.


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