ASemana 36 anos.png
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Elo partido


(Foto: Divulgação) 

Nos vimos ontem e luto para me perdoar pela minha meia culpa, diante do que acabou acontecendo.

Olhares vagamente cruzados; num cumprimento ligeiro, mãos em contato. No paladar, gosto de passado vencido; no olfato, odor de lembranças empoeiradas; no som de nossas vozes, barulho de aço arrebentado: elo partido.

Agora acabou-se. Ou melhor, acabou-se há mais tempo, bem mais tempo, mas só ontem, num pacto silencioso, admitimos. Só ontem as almas, um pouco mais amadurecidas, puderam constatar: acabou-se.

Não que a cortesia nunca mais seja possível, não que a civilidade seja difícil; pelo contrário, quando acaba, quando acaba de verdade, quando inexiste um elo, é fácil ser desinteressadamente dócil, calmamente impessoal.

E não. Não, leitor. Não imagine nenhum pretérito romântico aqui, sinto muito. Éramos almas afins, cultuávamos interesses em comum. Comovidos por motivos semelhantes, queimados pelas mesmas brasas emulando experiências, mas nunca houve um além erotizado.

Acabou-se. As razões de seu sorriso não ecoam mais em mim. A melodia de seu riso hoje é incapaz de mover fibras, incentivar emoções.

Muito crianças. Éramos muito crianças quando a amizade nasceu. Foi se consolidando o afeto, crescendo a admiração recíproca, segredos trocados, confidências para nunca serem utilizadas, apenas mutuamente partilhadas. Aí, aconteceu em nossas vidas o que acontece na de muitos, quando à força nos tornamos adultos: mudança de prioridades, de cidade, de sentidos.

Há anos nossa ligação era virtual. De início, um e-mail por semana; depois, dois por mês. Um a cada dois meses. Dois por ano. Um a cada dois anos. E tanto nos distanciamos, tanto nos esquecemos, que hoje, hoje acabou-se. O elo não era de aço, descobrimos. Era de tecido, e de um tecido bem vagabundo, diga-se.

Estranho é que não doeu. Não ontem. Ontem foi só o fim oficial. Foi ferindo antes, aos poucos e com intensidade, enquanto o pano se desintegrava, mas o fim... O fim representou apenas o desmanchar do último barbante.

Deixamos de ser amigos, fato. O amor fraternal se afogou na correnteza dos compromissos, na água envenenada do que, muitas vezes, se torna a vida adulta. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

Conhecidos, nada mais. Partiu-se o elo. Não nos preservamos. Ele na sua, eu na minha. Cada um numa ilha. Cada um se protegendo e se perdendo em si mesmo.

O que ainda dói é a culpa.

O fim?

O fim já doeu.


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