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Algemas


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Um misterioso magnetismo nos acorrenta ao transitório, impedindo que sigamos, assim que o que sempre passa cumprir seu imutável destino e passar.  

Algemas nos pulsos, algemas nos pés. Prisões emocionais imobilizam mais gravemente do que as físicas. Um corpo preso não significa uma mente acorrentada, mas uma mente acorrentada sempre gera reflexos num corpo livre.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim. Empregos que algemam, relacionamentos que algemam, algemados pelas opiniões alheias, algemados pela moda, algemados pelo passado.

Vejo algemas em todos, sinto-as em mim.

A mulher que se recusa a buscar um trabalho que a satisfaça, pois é seguro aquele em que está, embora a torne infeliz. Algemada.

O marido incapaz de admitir que a separação é o único caminho possível, apesar de a convivência com a esposa ter se transformado na versão hominal do inferno há muito tempo. Algemado.

O rapaz que quer ser músico, mas vai fazer Medicina para realizar o sonho do pai. Algemado.

A moça que detesta sapato de salto, abomina roupas curtas e odeia maquiagem, mas se monta para ser aceita pelo grupo. Algemada.

A velha que errou muito quando jovem, que mentiu, que enganou, que humilhou, e hoje não consegue se perdoar. Algemada.

O velho que já foi vítima de mentiras, de enganos, de humilhações, e agora não pode mais confiar em ninguém. Algemado.

A mulher que alimentou uma ideia por anos, e atualmente percebe: esteve errada; no entanto, mantém a mesma postura, evitando assim ser desacreditada diante das pessoas. Algemada.

Algemas nos pulsos. Algemas nos pés.

Meus passos vão ficando mais lentos e mais difíceis cada vez que sinto uma emoção sufocada. Algemas nos pés.

Meus pulsos comicham sempre que tranco em mim as minhas vontades para cumprir as dos outros, doem quando sentem o aço das convenções se fechando em torno deles. Algemas nos pulsos.

Algemas nos pés e nos pulsos. Vejo-as em todos, sinto-as em mim.

Enquanto transito pela movimentada Avenida Rotary - a passos vagarosos e pulsos comichando - todos são prisioneiros, exceto um menino de cinco, seis anos, que passa correndo por mim.

Numa esquina abre os braços, em segundos uma borboleta azul se acomoda em seu pulso esquerdo: sem nenhum sinal de algemas.

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