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Securas


(Foto: Divulgação) 

Secura. A pele do rosto muito branca e seca, dedos esturricados pelo contínuo manuseio do papel; olhos secos, não apenas pela ausência de lágrimas catárticas, mas também pelo brilho evaporado. Um cacto sobre a mesa.

Secura. Palavras escassas e frias. No tom transparecendo recortes da aridez interior. Lábios partidos, sequiosos, sôfregos pela tênue hidratação do áspero batom. Um copo vazio ao lado do cacto.

Secura. Atendimento lacônico, nenhum sorriso, nenhum retórico bom-dia, ou boa-tarde; acho que já passa do meio-dia.

Fotocopia meus documentos, carimba, anota, bate em teclas no computador, ruído de impressora, tesoura devorando arestas.

Cadastro efetuado com sucesso. Sucesso do cadastro. Sucesso das securas. Sistema emperrado. Ela retira da gaveta um creme para as mãos. Manteiga de Karité. Aperta o tubo e ele retribui vomitando uma tripa branca, pegajosa, com cheiro de sebo tratado. Dissolve a tripa na palma das mãos, no dorso, nos dedos, as unhas ficam engraxadas.

Com um apito, o sistema retorna. Ela esfrega as mãos. Agride mais algumas teclas: dedos ainda secos, olhos vazios e concentrados num turbulento nada. Brilho evaporado. Ordena outra cópia.

Enquanto a impressora se mostra mais viva do que sua comandante, a gaveta é novamente aberta; de lá, a mulher pega um colírio. Experiente, joga a cabeça para trás e pinga uma gota em cada olho, fechando-os com força em seguida.

Levanta-se para resgatar a folha cuspida pela impressora. Passa uma das mãos pelos cabelos, deixando um rastro de sintético perfume na secura dos fios.

Volta a sentar, largando o peso do corpo enfadado. Selo. Carimbo. Rubrica. Um enter no computador. Atendimento finalizado. Olha sugestivamente para mim, mas não diz nada: a garganta muito cansada.

Abro a carteira, conto as cédulas. Neste ínterim, ela levanta de novo, empunhando o copo seco, vai até o filtro, abastece-o e volta. Derrama um pouco da água na terra rachada do cacto. Um fraquíssimo movimento de lábios quando deposito a importância sobre o balcão. Um gole. Logo imagino fina garoa descendo sobre um solo endurecido.

Dinheiro transferido de mãos, guardado, contido, armazenado: o motor das mais diversas securas.


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