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A cortina


(Imagem: Divulgação) /

Uma cortina de veludo branco, luminosa. A milhões de quilômetros de distância, só pode ser vista com a imaginação. O ser dá o primeiro passo, confiante.

Na sua mente, sabe: o brilho da cortina o fará sorrir. Dá mais um passo, esperançoso.

A cortina estará suspensa sobre uma plataforma e receberá, continuamente, as luzes dos refletores: azul, verde, vermelho, roxo. O ser já consegue sentir: o poder representado pela cortina o fará palpitar. Caminha mais, alegre.

Para o ser, a cortina terá suporte de ouro e na barra pingentes de diamante. Anda ligeiro, sente cheiro de refinamento.

Brilham os olhos do ser; em seus ouvidos, uma rica canção.

O ser corre.

A cortina está próxima, ele não vê, mas sabe, sente; materializa vapores aromáticos ao redor do palco e da cortina. Vapores penetrando o branco. Vapores ricos.

O ser chora. Imenso contentamento pulsa na garganta. Tudo pulsa de um jeito delicioso: pés, pernas, ventre, braços, pescoço, nas costas um arrepio: vai alcançar.

Corre o ser e vislumbra a cortina, neste exato momento recebendo um jato de coloração amarelo-ouro.

A ganância do ser não o faz notar que seus pés estão machucados, que romperam-se ligamentos, que nesta corrida insana degeneraram-se fibras, verdades, sentimentos.

Corre o ser.

A cortina é potente, ele prevê. O que tem por trás dela o será ainda mais. Apressa-se para descerrar o enigma; subir as escadas envernizadas do palco e, num arrebatamento, descobrir o que há logo atrás do mistério luminoso que tão majestosamente domina seus pensamentos.

O ser agora é velho. Passou a vida correndo para alcançar a cortina. Mas não se arrepende: tem as narinas tomadas pelos vapores cheirosos, os pelos dos braços eriçados, que sensação, que glamour!

Aspira: aroma de riqueza, de luxo, ostentações várias.

Chega. Com as pernas trêmulas, para diante das escadas. Sobe. Um. Dois. Três degraus. Pisa no palco. Nem pode acreditar: está no palco. Arrasta os pés detonados com o intuito de se convencer: está no palco.

Suas mãos vacilam. Bem em frente à cortina, hesitam: terá forças para puxar? Terá equilíbrio suficiente para administrar a imensidão da felicidade que recairá, muito viva, sobre si?

Respira. Fecha os olhos. A Cortina, ser! Você está olhando para A Cortina, ser!

Ah, os vapores, tão perfumados.

Abre os olhos. Chora. Pulsa. Treme.

Estende as mãos de dedos pálidos e enrugados. Puxa.

Atônito, fixa o palco.

Não tem nada ali.


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