ASemana 36 anos.png
ASemana 36 anos.png
  

Filho meu

Leitores, nesta semana, um poema, inspirado na poesia "Caso do vestido", do Drummond

(Imagem: Divulgação) /

De angústia não morro mais.

Assassino da minha liberdade, ficou para trás.


Desde que teu pai se foi, filho meu,

Novo frescor veio ao peito.

Acabou-se o avesso-Romeu.


Teu pai era diabo bonito, menino.

Bonito diabo de olhos de mato, filho meu.

Me morria, me matava

E ressuscitava apenas a si próprio, filho meu.


Vê aquele vestido? Ganhei do belo capeta.

Vermelho como o sangue do teu irmão,

Que no parto padeceu, filho meu.

No parto morreu e me morri junto, filho meu.

Chorei aquele vermelho doído.


De consolo, a surra do teu pai, filho meu.

Daquelas mãos traiçoeiras vieram carícias e cicatrizes.

Ele tinha força, filho meu.

Tinha ódio e força, e eu... Eu tenho saudades.


Saudade do dia em que das mãos veio o vestido.

Saudade da manhã que em meus braços segurei o teu irmão

Que já nasceu abatido.

Tinha ódio e força teu pai, filho meu.

Sorria e me encantava.


Quando não bebia era todo brilho aqueles olhos de mato,

Era toda sol aquela boca de primavera.

Sorria e não maldizia, filho meu.

Sorria, ah, sorria.


Perdoe o orvalho que desce por meus olhos, filho meu.

Olhos que não são de mato, como eram os do teu pai,

Mas de dores e saudades, filho meu.

Eu tenho saudades.


Saudade do Belzebu, filho meu.

Saudade das mãos dele, filho meu.

Saudade do mato dos olhos, filho meu.


Saudade da alegria que antecedeu o parto, filho meu.

Saudade do bercinho azul do anjo que está com o Senhor, filho meu.

Saudade do anjinho.


Saudade dos sapatinhos.

Saudade dos pezinhos que já nasceram tão mortos.

Saudade do sangue perdido, filho meu.

Saudade do vestido.


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711