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O gratuito ato de sonhar


Nos amores da alma, me demoro; porque eles, embora não mais existam, embora talvez nunca se repitam, acontecem quando sonhados.  

Há dois mil anos alguém falou que onde estiver nosso tesouro, lá também estará o nosso coração. Shakespeare endossou, dizendo que somos feitos da mesma matéria dos nossos sonhos. Mesmo que eu realizasse um desejo por dia, uma vida seria pouco para tornar concreto tudo aquilo que quero. Por isso me transformei em escritora diletante e sonhadora profissional.

Minha alma, tão fechada ao escrutínio alheio, se abre quando sonho. Quanto suspiro aliviado na irrealidade tão real do sonhar. Quanto aperto afrouxado, quanta algema quebrada.

Aquelas bonecas, animo-as com a imaginação. Tenho-as novamente nas mãos, desfilo e danço com elas, faço chá, bolachas de argila. Sou menina de novo. De novo feliz.

Aquelas cartas trocadas. Duda e eu trocávamos cartas, quando crianças. Refaço minha letra comoventemente feia, relembro a dela, tão melhor. Me contava dos estudos, do balé; eu, dos livros, das histórias já então idealizadas.

Aquela preguiça da catequese, da escola, dos horários. Ressuscito aquela preguiça deliciosa quando comparada ao amortecimento espiritual que tantas vezes me arranca do sonhar.

Aquele apavorante filme de terror. A Gabriela escolheu. Todo mundo gostou, menos eu, enormemente sensível.

Aquela tarde chuvosa de sábado, assistindo a uma série.

Aquele sabor de infância no doce de leite do qual eu abusava.

Aquele amor impossibilitado pela distância física, está aqui, agora, pela proximidade emocional. Sorrio com seu sorriso. Me permito ser menina de novo, em seu abraço.

Aquela amiga que partiu, foi morar em uma pátria metafísica, vem me visitar sempre que a lembrança dos seus conselhos suaviza algumas das minhas duras visões de mundo.

Aquele entardecer compartilhado, carinho na pele, refulgir de olhos. Eles estão aqui.

Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar.

Palpita a saudade. Cartas da amiga, filmes com a prima, risadas com os pais - até as palmadas dos pais -, minhas bonecas, aquele garoto.

Ressuscito, revivo, reconstituo. A realidade morde e o sonho assopra.

Nada foi em vão, sei. Tudo permanece eterno aqui dentro. O tempo pode destruir muita coisa, menos as memórias que desejo vivas.

  Quantos amores me povoam pelo gratuito ato de sonhar!


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