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ANA...BELLE


(Foto: Divulgação) /

Anabelle entendia de tudo. Sabia tudo. Suprema esperteza. Delineou uma rota para si e nem a mais sábia força poderia persuadi-la a desertar de suas pretendidas verdades, porque Anabelle era rainha de si.

Sempre arrumada, cabelo preso, ai do fio que ousasse sair do prumo: extirpava-o na hora. Circunspecta, taciturna, o mármore personificado: ai do riso que se atrevesse a escapulir, trancava-o na garganta, porque Anabelle era rainha de si.

Longo salto, elegante saia, camisa social, cores sóbrias, sorriso sóbrio, olhar sóbrio. Perfeitas combinações.

Anabelle entendia de tudo, sabia tudo, desde que o mundo se mantivesse estritamente nos padrões por ela moldados, mas bastava que um pensamento fugisse do seu domínio para que se desequilibrasse dos saltos. Então Anabelle não era mais a suprema esperteza. Anabelle era, nesse caso, apenas o que sempre foi e nunca admitiu: uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Anabelle gostava de salas fechadas, pouca luz, cortinas carrancudas. Nada de natureza. Fique quieto, pássaro; pare de exalar seu perfume, flor. Foco. Foco. Anabelle era tão focada que nada via além de si.

Um só desígnio. Um só objetivo. A vida é desse jeito e acabou. Foco. Foco. Na realidade, Anabelle tinha era medo de se aventurar em outras paragens e gostar. Anabelle evitava a leoa que sabia dormitar dentro dela. Receio do animal selvagem. Preferia ignorar instintos e emoções, negar vontades. Foco. Foco. Porque Anabelle era bicho domesticado, rainha de si.

Anabelle zombava de quem pensasse diferente. Porque existe um único caminho para o sucesso, uma única definição de sucesso e era ela, claro, quem detinha esse caminho e essa definição. Guardava-os em suas mãos pálidas que nunca sentiram o sol.

Só que um dia Anabelle esbarrou em Ana. Assim, ao acaso, na calçada. Ana segurava livros e Anabelle, uma pasta: preta, sóbria, circunspecta, taciturna. O potente esbarrão quebrou o salto de Anabelle e só não rasgou a meia-calça porque, logo abaixo de seus joelhos, haviam aterrissado livros.

No chão, colérica, Anabelle levantou a cabeça e, somente então, viu Ana. E Ana, a despeito das calças largas, dos sapatos baixos, da camiseta puída e multicor, dos cabelos soltos, era muito parecida com a outra. Os traços do rosto, as dimensões do corpo, a cor dos olhos. Uma diferença, contudo, existia. O sorriso de Ana era entusiasmado e acolhedor; e ainda que não portasse adjetivos, Ana tinha um sorriso.

Ana sorriu enquanto estendia uma das mãos para levantar Anabelle.

Anabelle pigarreou, enrijeceu o semblante e tentou se erguer sem ajuda. Ana recolheu a mão, resignada e, resignada, se abaixou, começando a apanhar seus livros.

A ausência de exercício, entretanto, impediu que Anabelle saísse da posição a que a quebra do salto a relegara. Ana voltou a ofertar a mão, sem nenhum sinal de melindre.

Anabelle, finalmente aceitando o auxílio, observou aquela amizade castanha e sincera que eram os olhos de Ana: dançarina, poeta, musicista, caminhante. Leitora, imaginativa, versátil, sonhadora. Pintora, escultora, dramaturga, artista. Nômade, colorida, orientada em sua desorientação. Ana era tudo aquilo: aberta a possibilidades, pois Ana era muito mais do que rainha de si, Ana era uma simples mulher sem controle algum de qualquer situação.

Em pé, ainda segurando as mãos de Ana, Anabelle teve uma impetuosa vontade de abraçar aquela desconhecida tão bela, tão mais linda do que ela, tão mais autêntica, melhor.

Ana continuou sorrindo. Porque Ana, Ana tinha um sorriso.

Anabelle comprimiu os olhos e sentiu graúdas lágrimas fazerem um estrago na maquiagem cara. Não se importou: enlaçou Ana e, com delicadeza, apertou.

Ela não soube dizer quantos minutos, horas, dias, meses ou séculos durou aquela ternura.

Mas quando voltou a encarar o mundo, abrindo os olhos, diante do mutismo estarrecido dos passantes, percebeu que não havia livros espalhados, apenas a pasta, no chão, e o salto, fraturado.

 Percebeu mais: percebeu que seus amorosos braços estavam ao redor de si mesma.


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