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Não esquecer


(Foto: Divulgação)/

Uma espécie de bloco com um ímã atrás, fixado na porta da geladeira. Flores amarelas na borda, centro azul-claro. No topo, escrito: Não esquecer. Encontro com frequência essas agendas nas casas de meus amigos. 

Lembretes importantes: não esquecer de comprar carne, arroz, pasta de dente, café, açúcar.

Não esquecer de pegar remédio para gripe e vitamina (para evitar outra).

Não esquecer de levar a tevê ao conserto.

Não esquecer de comprar ração para o gato.

Não esquecer de pagar o boleto, que vence amanhã.

Não esquecer de trocar o óleo do carro.

Tolero o prático, mas não me alegro com ele. Podem me chamar de dramática e exagerada (já me acostumei), mas sinto que estou assistindo a minha vida se dissipar quando me envolvo demais com coisas meramente utilitárias.

Com profundo desgosto, percebo que o tempo está corroendo a si próprio e que se investe muita energia no perecível. O meu medo é que empreguemos todos os nossos esforços no útil e esqueçamos, nesse meio tempo, de viver.

A urgência grita, a felicidade pode ficar para depois, sempre pode. E o depois, às vezes, não chega. O ser humano subestima a felicidade. Nunca vi nesses lembretes frases semelhantes a "Não esquecer de assistir o sol se pôr". "Não esquecer de ler um poema". "Não esquecer de ligar para o amigo, só para saber como ele está". "Não esquecer de ouvir minha música predileta". "Não esquecer de analisar as minhas atitudes, refletir se estou me tornando uma pessoa melhor, ou apenas útil".

Acho, inclusive, a palavra útil uma das mais feias da língua portuguesa. Quando xingo alguém em pensamento, me sinto bem vingada ao desejar: tomara que tome um banho de utilidade, um dia inteiro de utilidade, um mês inteiro, uma vida inteira, seu útil!

Penso que uma existência desperdiçada é aquela voltada somente à utilidade. Que sensação deve ter a pessoa que sabe que os seus atos poderiam, com facilidade, ser substituídos pelos de um robô?

Mas flechada no coração é escutar coisas do tipo: "Faz uns 3 meses que não converso com meu melhor amigo, é que eu resolvia coisas importantes". "Estava adorando aquele livro, mas deixei pela metade, fiquei ocupado com coisas importantes". "Comecei um curso de música, desisti, tinha coisas mais importantes para fazer".

E é ocupação em cima de ocupação. Utilidade em cima de utilidade. Lindas vidas estamos vivendo. Somos úteis. Se somos felizes, isso é assunto para ponderar quando não estivermos solucionando coisas importantes. Pois o que importa, importa mesmo, é ser útil.

Foi pensando nessas questões nada úteis; afinal, filosofar não enche barriga de ninguém, como diria um sábio (bastante sábio, aliás), que comprei um desses quadros de lembretes para colocar aqui em casa. Na primeira página, transcrevi um fragmento de uma crônica da Cecília Meireles:

"Tudo se vai tornando árido, meramente utilitário. E Deus sabe se é só do imediato e do indispensável que vive o homem!".

Na segunda e última (vou desprezar todas as outras, enquanto não assimilar esses dois ensinamentos), em letra sentida, grafei:

Não esquecer de viver.


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