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NAS MALHAS DO COTIDIANO

A frescura que mata

Por Natália Sartor


(Foto: Divulgação) 

A mulher era quieta, isolada, queixava-se de vazio interior, de falta de significado. Mas tinha tudo: beleza, dinheiro, status. Conclusão geral: frescura. Só que um dia foi encontrada inconsciente no chão do quarto, overdose de medicamentos. A frescura a matou.

O homem reclamava: raiva do frio, raiva do calor, raiva do passado, raiva do presente e projetava raiva para o futuro. Não nutria esperanças, não era carinhoso. Mas tinha tudo: esposa, filhos, emprego. Conclusão geral: frescura. Só que um dia deu um tiro na própria cabeça. A frescura o matou.

A moça vivia chorando, tinha crises nervosas, dificuldade em se adaptar aos estudos, medo de se relacionar, sentia que não era compreendida, nem aceita, nem amada por ninguém. Mas tinha tudo: saúde física, pais atenciosos, pretendentes. Conclusão geral: frescura. Só que um dia cortou os pulsos e se esvaiu. A frescura a matou.

O rapaz só sabia se defender atacando, se sentia ameaçado por todos, desconfiava de todos, era ácido nos comentários, um mau humor constante. Mas tinha tudo: teto, alimento, boas roupas, bom carro. Conclusão geral: frescura. Só que um dia acelerou ao máximo o bom carro e avançou bem sobre um bom precipício. Quem olhasse lá de cima para o cadáver destroçado, pensaria: a frescura o matou.

A menina não brincava com os colegas. No parquinho, ia para um canto, trazia os joelhos para junto do peito e chorava. Ao se olhar no espelho se achava feia, desengonçada. Não ria. Não interagia. Mas tinha tudo: uma linda casa, brinquedos, estudava em ótimo colégio. Conclusão geral: frescura. Só que um dia, enquanto passeava, soltou a mão da mãe e se atirou à frente de um carro, tão logo o sinal abriu. A frescura a matou.

O menino quebrava coisas, gritava sem motivo, batia, afrontava. Raivoso e revoltado sem motivos, afinal, tinha tudo: bola oficial, chuteiras, camiseta autografada da seleção, viajava com a família todos os anos para o exterior. Conclusão geral: frescura. Só que um dia esperou que os pais fossem trabalhar e, sozinho em casa, deixou o gás ligado, fechou as janelas e ficou em frente ao fogão. A frescura botou fogo na casa. E também o matou.

A velha perdeu o interesse pelas leituras, pelo tricô, pelas caminhadas. Insônia, ansiedade, apetite reduzido. Não conseguia encontrar prazer nas atividades que antes lhe entusiasmavam. Passava a maior parte do dia deitada, luzes apagadas, cortinas lacradas. Mas tinha tudo: excelente aposentadoria, filhos bem-sucedidos, netos inteligentes, nenhuma atrofia orgânica. Conclusão geral: frescura. Só que um dia resolveu deitar nos trilhos de um trem, em vez de na cama. A frescura desesperou o maquinista. E também a matou.

O velho era afetuoso, conversava, praticava atividades de voluntariado. Entretanto, no fundo não sentia felicidade, a vida lhe olhava de um jeito melancólico. Chorava embaixo do chuveiro e antes de dormir, depois que a mulher cochilava. Enfrentava fases em que tinha sono demais e outras em que não o tinha. Mas não lhe faltava nada: nem atenção, nem amor, nem amigos. Se, muito raramente, reclamava de dores emocionais, a conclusão geral era categórica: frescura. Só que um dia, descobrindo os mortais poderes de uma planta tóxica, fez um chá, bebendo-o pela primeira e última vez. A frescura o matou.

A frescura tem matado tanta gente. Nos relatórios da OMS, vejo todo tipo de doença, mas frescura nunca vi. Não é doença, nem assassinato, nem acidente e, mesmo assim, mata.

Nunca pensei que a frescura tivesse tanta potência.


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