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Poderiam ser namorados


(Foto: Divulgação) 

Poderiam ser namorados. Ele, loiro, barbado. Ela, ruiva, pequena. Ir ao cinema às quartas, viajar nas férias. Florianópolis ou Balneário Camboriú. Mais adiante, Paris ou Veneza.

Marcariam uma noite de sábado para que ela pudesse conhecer a futura sogra, uma tarde de domingo para apresentá-lo aos pais dela. 

Sairiam com os amigos em comum. Ouviriam risonhas alusões a sossego das baladas, dos solteiros.

Tomariam sorvete no verão. Ela, morango. Ele, chocolate. Trocariam quando ele estivesse na metade, ela ainda no início, distraída pelo bom humor do namorado.

No outono, colheriam folhas secas do chão e as guardariam numa caixa de madeira - na tampa, uma pintura: dois jovens de mãos dadas -, para lembrá-los do passeio ao crepúsculo, depois de um dia estressante.

Beberiam vinho em uma noite de inverno, não muito, precisariam evitar a ressaca do dia seguinte, quando iriam para Gramado.

Na primavera se abraçariam sob uma cerejeira florida e trocariam sorrisos quando uma pétala caísse, orvalhada, nos cabelos dela.

Discutiriam na escolha de um filme. Para ela, romance ou drama. Para ele, ação ou terror. Acabariam optando por um documentário sobre abelhas africanas e não assistindo.

Brigariam por ciúmes. Aquele cara olhou demais para você, na festa, já tiveram alguma coisa? Por que você ainda é amigo no Facebook daquela ridícula da sua ex?

Tudo sempre resolvido com beijos e cócegas, desculpas e promessas.

A mãe dele seria intolerante com ela, mas o filho se tornaria o próprio pano quente entre a namorada e a mãe.

O pai dela perguntaria (vagamente) sobre o casamento. Ele responderia (vagamente) que poderiam pensar nisso, daqui uns 10 anos.

Ele e o pai dela conversariam acerca de política enquanto ela se arrumaria para sair com o quase-futuro noivo.

Durante o tempo em que ele veria futebol na tevê, ela ouviria dicas sobre compotas e bordados, da quase-futura sogra.

Ele correria de carro. Ela o advertiria a desacelerar. Ele não obedeceria.

Ela vestiria minissaia. Ele pediria que trocasse por calça. Ela não obedeceria.

Ela faria pipoca para saborearem juntos, admirando a chuva cair. Ele comeria mais da metade da bacia, tão logo ela levantasse para pegar a Coca-Cola.

Dormiriam abraçados.

Poderiam ser namorados. Mas estão a mais de meia hora sentados frente a frente na praça da Matriz, cada um paquerando apenas o próprio smartphone.

Desconfio que nunca saberão nem ao menos o nome um do outro.


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