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Reinado dos tentáculos

Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Braços enlaçam o corpo, não com ternura: comprimem, ficam roxos exercendo a força do laço ao redor do ser.  

Um xis. Cruzados sobre o peito, tentáculos, asfixia de serpente faminta. Correntes acorrentando a si mesmas: a pior de todas as torturas. Quem pode libertar aquele que se encarcerou nos próprios pensamentos? O cárcere autoimposto é o mais duro antagonista: energiza-se sempre, cresce e adquire poder.

Não é apenas potente, é invencível enquanto não decide se superar. Os tentáculos corroem tudo, menos a si próprios: avolumam-se, agigantam-se, seu reinado esmigalha vidas. Vidas cinzas, vidas de cinzas, de vidas sobram cinzas.

Se vi tentáculos em alguém os invento? Vi e os invento. Vi em muitos e os invento em mim. Aflita, sinto-os em mim e meus olhos dançam tristes boleros ao enxergá-los nos outros. Outros quem? Aqueles que habitam o reinado dos tentáculos.

Acima das cobras de metal, uma mortalha: mumificados se tornam os moradores de tão fulminante monarquia. Para onde correr, se também as pernas são abraçadas pela onipresença dos tentáculos? Como se soltar, se também elas são cobertas pela mortalha?

A salvação é que dentro do sudário existe um ser humano vivo, embora angustiado e preso. E onde há vida, há perspectiva.

Vontade de se libertar: eis o primeiro passo.

Não se conformar com os tentáculos, odiá-los como se odeia um malfeitor: eis o segundo.

Amar-se a ponto de abrir os braços, mesmo sob a compressão do império: eis o terceiro.

Mas quebrar um eu cativo requer coragem porque, ainda assim, é quebrar um eu.

Resta a paz.

Resta o outro eu: aquele que fugiu do cativeiro.

Resta a liberdade.


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