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Liberdade de origem


(Foto: Divulgação) 

Estávamos Luiz Ruffato, Luisa Geisler e eu no food truck, que haviam instalado próximo ao centro de eventos Alexandre Júlio, em Correia Pinto, local onde nossas predileções literárias se cruzaram.

Que a música ao vivo embalasse aquele fim de noite; que eu, destrambelhada, tropeçasse nas pedras do chão de terra batida, que Luiz e Luisa se alfinetassem carinhosamente, exteriorizando a amizade, que engordássemos setecentos gramas a cada mordida de churros, nenhuma surpresa, até que o músico interrompeu uma das canções para ler um recado da plateia:

- Fulana manda avisar para o Fulano que é sua dona.

Foi instantâneo, todos no interior do carro móvel tiveram alguma reação. Risos, piadas sussurradas, revirar de olhos. Achei que não tinha ouvido direito, pensei ter sido miragem auditiva. Ou talvez o Fulano fosse um animal de estimação. A frase dançava, inverossímil na minha mente, quando Luiz soltou:

- Uai! Quem é que é dono de alguém?

Nessa única pergunta, três constatações me ocorreram: eu realmente tinha registrado o que imaginei ser impossível, Fulano não era gato nem cachorro, e Ruffato utilizou poucas palavras e seu sotaque mineiro para se referir a um tema complicadíssimo: liberdade.

Quem é que é dono de alguém?

Minha imaginação delineou celas com cadeados em forma de coração, algemas cor-de-rosa, camisas de força de pelúcia.

E a Fulana era tão dona que não pediu para avisar, ela mandou. Poderosa, sem dúvida. Sabendo dessa posse sobre si, como se sentiria o Fulano?

Em nenhum outro momento a cadência mineira tinha ficado tão marcada na fala do Luiz. Talvez por morar há muito tempo em São Paulo as maneiras de expressão foram se mesclando; porém, ao espargir a base para uma discussão universal, sem resposta e sem subterfúgios, ele voltou integralmente às raízes.

Um questionamento espontâneo que exprimiu profunda inquietude. Me perguntei qual seria a relação daquela instintiva prova das origens e a liberdade.

 Estaria a centelha do eu mais sublime indissociavelmente costurada à nossa basilar linhagem? Aquele eu que quer libertação, aquele eu que quer ser dono, se não do seu destino, ao menos de si, aquele eu com relativa autonomia, aquele eu que pretende ser alguém, não algo, não uma colônia. Estaria esse eu, completo, na origem?

O burburinho sobre a propriedade hominal logo se dissolveu. Acho que me convenci de que, tudo bem, Fulana era dona do Fulano, de um jeito tão público, anunciado de modo tão meigamente cabal que eu, quem sabe, pudesse me lembrar disso mais tarde sem padecer de náusea, desde que nunca acontecesse algo semelhante comigo: nem como proprietária nem como propriedade alheia.

De agora em diante, só sei que sempre quando refletir sobre liberdade, vou recordar a lança no estômago que foi essa indagação.

Também vou, igualmente, começar a procurar mais evidências nos princípios.


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