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Os monstros do caminho


(Imagem: Divulgação)/

Os monstros do caminho, como todo mal, têm a aparência do bem. Com uma facilidade impressionante para enganar, são excelentes atores, nascem charmosos e seguros de que abaterão muitas presas, apenas com a força da vontade.

Têm talento e moldam artisticamente seus próprios disfarces. São disfarces personificados. Constroem cenas. Vivem de cenas. Vivem da arte de iludir: regozijam-se através dela, por meio dela renascem, adquirem vigor nas veias e amam: amam se sentir amados pelas vítimas do caminho; amam saber que não as amam.

Fisionomia agradável, voz suave e sorriso dócil, deixam apenas uma parte deles os trair: as mãos. Nervosas, gesticulam muito, são o solo de unhas arruinadas. Mãos que deveriam construir o bem - que possuem tudo para construir o bem -, contentam-se em acariciar primeiro, apenas porque sabem que depois, logo depois, vão destruir. Destruir é o troféu dos monstros do caminho.

Por mais cautela, prudência e frieza que tenhamos, jamais escaparemos das colossais bestas que atravessam o nosso trajeto: são maiores, mais fortes e mais inteligentes do que nós. São superiores em técnica, experiência e dissimulação. São monstros, enfim.

Os monstros do caminho atiçam a líder de todas as feras. Não a da raiva ou a do ódio, inócuas e facilmente debeladas quando comparadas com a potência destrutiva da rainha: a fera da mágoa.

A fera da mágoa, garras de vidro, precisa permanecer presa, enjaulada em nossos corações, para que não aniquile tudo à sua frente. A fera da mágoa, olhos de fogo, necessita da cegueira imposta para que não nos incinere. A fera da mágoa, quando coloca um pedaço - um pedacinho de pé que seja -, para fora da jaula, faz com que sintamos seus miasmas venenosos. Miasmas que aferventam nosso sangue, até transformá-lo em agonia pura e viscosa.

A sanidade e a alma de um escritor dependem da domesticação das feras. Mas eu, fraca que sou, ainda não aprendi a interagir com a da mágoa.

Convivendo, sem diálogo, garanto a distância da morte autoprovocada. Num acordo mudo, trancafio a selvageria capaz de estraçalhar os farelos de esperança - os quais precisam ficar, para que eu possa sobreviver, seja de que maneira for.

Ao menos assim me afasto dos monstros do meu caminho e guardo só para mim a energia da maldade que, se liberta fosse, me tornaria um deles.


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