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OPINIÃO

Essas lágrimas malditas


(Foto: Divulgação) /

Esse poder, esse arrastamento, essa foice, esse temor. Ruas lavadas, frieza de congelar esperanças, Inverno interno. Nada como a chuva tem tanta preponderância para despertar em mim as mais tristes nostalgias e as menos animadoras expectativas.

Não é de hoje o pavor inexplicável e a instintiva repulsa às frias gotas vomitadas pelo céu, nem é novidade para o leitor que o meu aguaceiro emocional estoura na intensidade da fúria do firmamento.

Tenho consciência de que divirjo da maioria num momento sério: o espectro da seca nos ameaçando; mas nem a possibilidade de uma catástrofe me flexibiliza. De certeiro, na vida, apenas três coisas: sofro, morrerei e nunca, em nenhuma hipótese, gostarei da chuva. Invejo os abençoados que dormem melhor com o barulho da traiçoeira, porque eu, ainda que esteja dormindo profundamente, acordo sobressaltada se a maldita resolve aparecer.

O único que dialogava comigo, trocava de cores, iluminava-se e sorria, nos últimos dias decidiu se fechar, escurecer e regurgitar. Pudesse eu mudar alguma coisa na ordem do universo, seria que não precisássemos para nada da chuva e que ela nunca desse o indesejável ar de sua desgraça.

Trânsito difícil, umidade, alagamentos, derrapagens, deslizamentos. E, vejam: eu ia falar de eventos cancelados, mas um democrático vírus se antecipou à chuva. Aliás, essa mesma doença caprichosa, que não aceita remédio nem vacina, também deve estar adorando as baixas temperaturas potencializadas pela raiva do céu. A única vantagem é que o acinzentado lá de fora converge com o cinza aqui de dentro.

Muitos seres humanos, nas mais trágicas experiências de uma geração moldada para a tragédia, ainda conseguem desenvolver mecanismos de sobrevivência, e por mais estranho que possa parecer, nem todos enlouquecem. Poderia então, em um milagroso instante, o próprio universo deixar de ser tão mimado e se declarar independente da chuva?

Em tempos de Sol, em tempos de brilho superior, de flores coloridas (sem gotejar) eu fantasio que um dia o céu não vai mais precisar chorar para que a vida possa se renovar. 

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