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OPINIÃO

Bicho Papão

Estariam os meus olhos tão viciados nos próprios desencantos

Por Natália Sartor de Moraes



(Imagem: Divulgação) /

Temerosa e segura, sabendo que tudo pode dar errado, mas que nada, no fundo, nunca vai gerar arrependimento se feito com boa intenção.  

Quieta querendo falar, falante precisando silenciar. Ainda pequena enfrentou labirintos de enlouquecedora escuridão, e olhando para a foto dela, vejo: já àquela época os olhos meio puxados refletiam o eco do poço no qual cairia sozinha, sem ter quem lançasse corda.

Cacheados os cabelos, bem cacheados, e um tom mais claro em relação aos de hoje. No fundo dos olhos felizes, contudo, uma sombra se contorcendo. Ela ri de alguma coisa, na foto. E mesmo sem dois dentes da frente não perde o inocente magnetismo infantil, talvez ele se potencialize ainda, sobretudo porque no canto da boca lhe brilha um resto de sorvete de chocolate.

Alguém espia sobre meu ombro e me diz que a criança que tenho nas mãos foi contente, alegre de verdade, puramente bendita. Parece, mesmo. Estranho como eu atribuo a ela fortes resquícios de mágoa, que é o que eu sei dela, depois de adulta, mas todas as pessoas que pegam a foto só enxergam felicidade na garota. Estariam os meus olhos tão viciados nos próprios desencantos, que fazem os dela refleti-los, ou toda a gente não tem prestado a devida atenção à evanescente figura de meados dos anos 90?

A menina está sentada num abundante gramado com uma Barbie no colo - o brinquedo preferido dela, lembro - e pelo jeito parou de brincar para mostrar a banguelice à câmera. Na gola do vestido alaranjado de estrelinhas projeto lágrimas, no peito estreito existem sementes de dor, embora ela ainda não desconfie; sei que não demora e vai ter um cadeado toldando o coração. Sorri para todos aqui, nesta imagem antiga e nesta idade esquecida, mas logo atalhará com espada de aço cada expectativa esperançosa demais.

É bonita a menina, porém ainda mais bonita é a luminosa imaginação dela: em tudo vê uma borboleta colorida ou um pássaro doente - que pode sarar com cuidados de criança. São bonitos seus dedos miúdos segurando a boneca; assim que aprender a escrever, entretanto, vai trocar o brinquedo por uma caneta e desde esse momento começará a gestar na mente e reproduzir com as mãos o embrião da sua profissão.

Ah, menina, menininha, vá com calma: a vida não é a rosa aveludada e sem espinhos que viceja no gramado ao seu lado; por isso não tenha pressa em escrever o mundo, pois nem os seus mais belos sonhos vão dar conta de amansar esse bicho-papão.


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