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OPINIÃO

Rejeitada nudez

'Ela quer e não quer. Ela acha e para de achar. Ela se revolta, porém em seguida se cala, porque constatar a aprovação dos outros mantém alimentado o ego'

Por Natália S. Moraes


(Imagem: Divulgação) 

Pertence aos palcos e na nudez a arte borbulha. Mas acha que deve pertencer às salas de reunião e vestir algum luxo que a esconda de quem é. Não vê sentido na busca de um saber puramente acadêmico e intimamente discorda dos formalismos propagados; no entanto, esforça-se para enxergar autenticidade nas instituições, nos padrões; quer sentir que há benefícios na burocracia.

Conversa comigo duas ou três vezes por ano: a parte real dela conversa comigo, porque sua casca - a superfície construída para acobertar a profundeza que julga indigna - dialoga frequentemente com as minhas indecisões.

Por vezes adentro o escritório dessa amiga, e com pontadas de dor, percebo: o diploma universitário e a dúzia de outros papéis timbrados e emoldurados nas paredes nunca foram suficientes para preencher o oco que a rejeição de si mesma deixou no coração dela.

Queria tatuar o corpo, mas se conteve em usar batom vermelho - o máximo que o formalismo do local de trabalho permitia. Depois, olhares insatisfeitos dos colegas a fizeram mudar a cor da boca, de vermelho-vivo para um bordô mais elegante, mas nem o caro cosmético basta para abrandar a insatisfação que altera os lábios antes grossos, hoje amiudados pela opressão das exigências.

Queria moletom ou jeans rasgada, cabelo verde ou saia de borracha, queria dizer "não quero", queria cuspir na cara de todas as escravidões travestidas de ordem. Queria fugir dali e colocar um robô maquiado na sua cadeira, uma vez que já tinha criado todos os modelos de documentos necessários - era só copiar e colar. Copiar e colar por meses e anos - a natureza do robô. Era só repetir e repetir - a natureza do robô.

Mas ela sempre acha, sempre acha e talvez sempre vá achar, que o caminho a seguir é aquele que a maioria escolheu para ela, aquele que a sociedade elegeu; pois os gostos dela são somente os gostos dela: representam pouco na engrenagem das coisas; embora exemplifiquem a essência de algo que a cada dia se molda mais ao status de coisa: a própria vida.

Ela quer e não quer. Ela acha e para de achar. Ela se revolta, porém em seguida se cala, porque constatar a aprovação dos outros mantém alimentado o ego. Não, há muito ela já não é uma adolescente, entretanto a verdade do mundo se choca diariamente com a verdade dela, então as crises são inevitáveis e eternas.

Eu, antes de sair do campo de concentração em que ela se reprime, aperto as mãos pálidas que me estende. Ao poder finalmente respirar o ar da manhã, torço para que um dia ela aceite a sua natureza (e não a do robô); torço, aliás, para que, quando isso acontecer, ainda esteja em pé para comemorar.


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