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OPINIÃO

Impossível ressurreição

'Nem todo fim é tão triste. Contudo para aquele homem que rega, todos os dias, à mesma hora, uma planta morta, o fim não deve ser apenas triste, mas inaceitável'

Por Natália Sartor de Moraes


(Imagem: divulgação)

Nem todo fim é tão triste. Contudo para aquele homem que rega, todos os dias, à mesma hora, uma planta morta, o fim não deve ser apenas triste, mas inaceitável. 

Mora num prédio do Centro, segundo andar. Talvez ele pense não ser observado, ou quem sabe nem se importe com isso; pode ser ainda que tenha a esperança de que o olhar curioso de um desconhecido, passando embaixo da sua sacada, seja esoterismo capaz de ressuscitar aqueles ramos secos, banhados com obstinação.  

O prédio é decadente, a roupa do homem, sempre a mesma - um pijama cinza com mancha de café na altura do peito. Acho que ultrapassou a barreira dos quarenta; evito cogitar há quantas décadas, milênios ou vidas insiste na atividade de ressurreição, só posso afirmar que o acompanho desde que mudei minha rota de caminhada, faz seis meses: todos os dias, ao meio-dia em ponto, quando volto das compras para o almoço, ele abre a porta de vidro da sacada e, arrastando o corpo pesado, coça a barba, dá uma fungada, pega o regador e umedece a planta morta. Todos os dias. Todos os dias. Todos os dias, há seis meses.

Nesse momento, eu sei, vai ter algum leitor disposto a acusar ou a minha miopia ou a minha melancolia por entregar-lhes os fatos de modo possivelmente distorcido: alguém vai dizer que enxerguei mal: não estava morta, a planta, só um pouco cabisbaixa com a energia saturada da doença do mundo; vão falar que entristeci o homem, ou que fui eu quem simbolicamente assassinou a planta. Sou míope e melancólica, mesmo. Porém desta vez não lhes fala uma visão apagada, inexiste deformação.

Lamento ignorar o nome do cadáver: se lavanda, cravo ou malva; se amor desgastado, desperdiçado ou amaldiçoado; a morte ostensiva e a secura escandalosa tornam difícil imaginar se um dia existiu qualquer tipo de vivacidade se albergando naquele vaso de barro. É certo apenas que acabou-se a fotossíntese, findou cada pétala, ramo, caule, folha, apodreceu a raiz. Ali só se desenvolve a morte.

O mais doído não é isso, entretanto. O ápice do desperdício eu constatei na semana passada: ao lado da urna do celebrado defunto, num vaso branco e radiante, habita um tímido botão de rosa - mas esse eu nunca vi ser cultivado.


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