37 anos.png
37 anos.png
  
OPINIÃO

Presença da falta

Chorei com todos, todos os meus personagens, reais e imaginários.


(Imagem: divulgação)                    

"Tem mais presença em mim o que me falta", disse Manoel de Barros, nominando a âncora da poesia no mundo: a falta. Qual seria o recheio dos sonhos, se não a falta? Que melodia mais bela que os dós de ausência? Que outra agonia tão profunda teria poder para inspirar escritores, músicos, artistas? Num universo repleto, onde o espaço da arte? Mas quando o vazio se instala, quando o poço fica mais perigoso, sem voz, sem eco, sem entendimento: então a poesia, então a eterna presença da falta. 

Entre divertido e preocupado, me disse um amigo que nunca viu a palavra "ausência" tantas vezes em um livro, como nos de minha autoria. Estaria eu dissecando o sentimento do Manoel de Barros ou repercutindo o meu?

Sobram expectativas relacionadas à matéria, ao status, à posição: falta sentido. Sobejam títulos, classificações, hierarquias, pontuações, números, números, números: falta substância. Transbordam conceitos, preconceitos, imposições vestidas de conselhos, correntes enfeitadas de pelúcia, perversas insinuações usando o capuz de bem-intencionadas dicas: falta compreensão.

E hoje, celebrando a falta, conversando com a ausência, abracei cada um dos meus personagens: o velho com o gravador improvisado; a velha musicista; a criança perdida; o adolescente anelando no peito a transição; a moça poetizando seus últimos dias; o rapaz se resignando à insuficiência dos métodos para vencer o oco da condição humana; o homem regando uma planta morta; a mulher tão rica, tão poderosa, tão linda, chorando na igreja.

Beijei os olhos da senhora que vivia das migalhas de esperanças e suportava o peso das rejeições, tirei um tijolo da mochila da menina que quase teve os passos impedidos pela rudeza da caminhada, coloquei um cobertor nos ombros da sereia cantora, acariciei os cabelos da moça de lágrimas vermelhas e de olhos saturados pelas inúteis inocências.

Chorei com todos, todos os meus personagens, reais e imaginários. Pertençam eles à ficção ou à vida, são as ausências deles que me alimentam.

Mas hoje, especialmente hoje, a falta que neles permanece é o elo purificado que a mim os une.  

A fonte de criação que vigora, irmana e cresce.   


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711