37 anos.png
37 anos.png
  
OPINIÃO

Me desculpem se falei de alguém

'É impossível ignorar os leigos que se tornaram exímios infectologistas'

Por Natália Sartor de Moraes

 

(Foto: Divulgação) /

Enquanto uns aproveitam a quarentena para dar o tiro de misericórdia no casamento que agoniza "viu, em época de crise você mostra quem é de verdade"; outros sobrecarregam de carboidrato o corpo carente "é a ansiedade quem pede macarronada, não eu"; outros ainda se tornam especialistas em tutoriais do youtube "aprendi a dobrar toalhas e a assobiar de um jeito espirituoso"; há também quem se sinta doutor em todas as disciplinas do infectado universo, por ter feito dois ou três cursos on-line.

Das pessoas não analiso muito, como podem ver, mas é impossível ignorar os leigos que se tornaram exímios infectologistas - e de quebra visionários, em poucas semanas - a discorrerem com insuspeitada propriedade sobre todas as mutações que o pragonavírus sofreu, sofre e sofrerá. De outro lado, não se pode deixar de venerar as inteligências democraticamente eleitas que negam a existência de qualquer perigo em um inócuo resfriado que só mata quem não tem histórico de atleta e de político honesto.

De mim digo apenas que, nesta quarentena com odor de álcool, vitamina C e remédio, renunciei aos noticiários televisivos e às sempre exageradas manchetes apregoadas pelos sábios internautas, os quais, isolados como todos, hoje só conhecem do mundo o que a eles chega, sem qualquer possibilidade concreta de averiguar - de tal modo que parte do dia compartilham notícias questionáveis e na outra choram pelo corte na bolsa de estudos.

Então me tornei uma abnegada escritora a viver apenas de renúncias numa pedagógica quarentena.

E apesar de quase tudo estar estagnado, não estagnaram os onipresentes boletos e ficaram abarrotadas as casas lotéricas na mesma medida em que se esvaziaram as contas bancárias.

Ora, mas o que poderia eu fazer de mais original, a não ser falar dos outros, atitude inédita? No entanto, discorro acerca do que vejo (ou do que me permitem ver), que é pouco, todavia para minha preocupada alma já é muito.

Mas dos políticos me compadeço, de verdade; afinal fizeram tudo tão correto desde o início, fecharam as fronteiras assim que souberam do problema, impediram o carnaval, e agora são condenados? Miseráveis injustiçados. Tenho pena, tenho pena e consumo toda a minha quarentena em tão massacrante pena. Quanto tempo sem os estrangeiros entrarem no Brasil... De que maneira penetrou aqui o insidioso vírus?

Lado bom é a moda lançada: máscaras penduradas na orelha, autoridades aprendendo a ler depois dos 60 anos (e ao vivo. E através de discursos a nível nacional. E emperrando lindamente em várias palavras). Caso de amor entre chefes de estado que fazem tudo tão militarmente ordenado e a tempo. Quanta coisa bonita gerada pela quarentena! Quanto aprendizado com uma inocente gripe! Internacionais elites assumindo suas mais apaixonadas ligações!

Diante de tudo isso, posso mesmo fazer alguma coisa, a não ser descrever o que vejo?


Jornal "A Semana" | Rua Daniel Moraes, 50, bairro Aparecida | 89520-000 | Curitibanos | (49) 3245-1711