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OPINIÃO

Nunca antes o menos foi tão mais

De tanto nos incluirmos ao todo, acabamos nos excluindo de nós mesmos.

Por Natália Sartor de Moraes


(Imagem: divulgação)         

Porque possuímos um celular moderno temos que ter WhatsApp, Facebook, Twitter e baixar todos os aplicativos disponíveis no planeta: depois reclamamos que não nos sobra tempo para pensar na vida.  

Porque ostentamos uma casa grande temos que ter uma infinidade de móveis, uma linda decoração e um condizente closet; mas para que apresentemos tudo isso precisamos fazer hora extra, robotizarmos nossa rotina, esquecermos o aniversário do filho, do pai, do avô e o nosso. E talvez só não tenhamos mais bens materiais porque gastamos um terço de nossos rendimentos com médicos, exames e remédios: depois reclamamos que não há tempo para praticarmos vinte minutos de atividade física diária.

Porque acumulamos muitas roupas temos que levar no mínimo metade em uma viagem de dois dias, ficar 10 minutos em cada local e voltar ao hotel para trocar a indumentária, pois precisamos exibir nossas preciosidades e o Instagram requer alimentação; aliás, passamos boas horas dando de comer ao Instagram e mais horas ainda verificando quem comentou: depois reclamamos que a viagem foi curta e que não restou tempo para ver o sol se pôr.

Porque nos atolamos em compromissos profissionais temos que fazer 347 especializações, ler 675 livros cujos assuntos não nos interessam e conviver com 12654 pessoas enfadonhas a cada dois anos: depois reclamamos que não existe tempo para conversar com um amigo.

Porque nos apegamos ao cabelo alisamos, enrolamos, pintamos, usamos mega, fazemos luzes, babyliss e prancha; porque supervalorizamos o rosto maquiamos, hidratamos, repuxamos; porque idolatramos o corpo fazemos lipo e 76 cirurgias modeladoras por ano: depois reclamamos por não conquistarmos o namorado hippie por quem nos apaixonamos.

Nem é preciso detalhar acerca daqueles que ganham dinheiro desonestamente e depois passam vidas tentando se acertar com as suas consciências. Para eles - ainda mais - o menos seria tão mais: mais tranquilidade, mais saúde, mais cabeça erguida, mais noites dormidas, mais paz.

Porém não quero pensar que tais ricos (pobres) (in) felizes sejam tantos, procuro me convencer de que esses presentes-futuros sofredores representem a minoria. A massa mesmo deixa se perder pela deslealdade a si, e não aos outros, mas não sei até onde isso é menos grave. E tudo para se incluírem ao todo.

Meu medo é que de tanto nos incluirmos ao todo, acabemos nos excluindo de nós mesmos.


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