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OPINIÃO

Insondável aridez

Quero crer que a cortina afastada tenha sido o início de um rasgo de esperança.

Por Natália Sartor de Moraes


(Imagem: Reprodução) /

Depois de anos, finalmente consegui enxergá-la.  A impressão que dá é a de uma casa abandonada e era isso o que eu pensava até que, na semana passada, vi ali, pela primeira vez, sua moradora.  

Ou melhor, foi a primeira vez nos últimos 20 anos, porque quando eu era criança ela regava as flores do jardim, todos os finais de tarde, e levantava uma mão, à moda de cumprimento faceiro, ao me ver passar em frente à cerca de madeira.

Moça de natureza exuberante e costumes singelos, lábios grossos, nariz fino, olhos grandes, pescoço longo e cabelos ligeiramente ondulados, deslizando até os seios realçados por um vestido, no verão, e por uma blusa de lã, no inverno; outono e primavera mereciam jaqueta jeans, de bonito caimento, sobre os ombros esculpidos.

Dela só sei o que vi ¬- que é pouco -, e o que deduzo - que é incerto. Mas era linda. Linda e simples, nascer do sol na serra, brisa cariciosa depois da tempestade, acanhada estrela vibrando no céu frio.

A mulher e seu quintal foram meu aconchegante cenário de retorno para casa nos longos anos de ensino primário. Até que um dia, em costumeiro horário, trilhando o meu costumeiro caminho, não a vi. Não vi a mulher, nem seu vestido de algodão, nem seu regador cor-de-rosa, nada.

No outro dia, idem. Assim como em todos os seguintes. Só via a casa, o branco da pintura na madeira descascando, o telhado um pouco torto, as flores murchas, e ouvia uma triste melodia vinda lá de dentro, talvez agonia tocada em flauta, talvez somente ruído de lamento humano.

Mas eu esqueci dela. Esqueci como toda criança esquece. Além do que, após terminar o primário não tornei a transitar por aquela rua com a mesma frequência de antes. Na semana passada, contudo, voltei a recordar como todo adulto recorda. Mais: tornei a remexer no passado com a obstinação inerente a todo escritor. Me capturou o jeito furtivo, quase medroso, com que ela arredou a cortina - outrora bege, hoje de um amarelo encardido ¬- da própria casa.

Me intrigaram ainda mais o intenso grisalho dos cabelos, em outros tempos avermelhados, e a brancura ressecada da pele. Naqueles fugazes segundos em que ela entreabriu a cortina e olhou para a ruína do que antes fora um abundante jardim, percebi como estavam desmesurados os olhos, imensos, gritantemente desproporcionais em relação ao rosto sumido. Diante disso, vi ou alucinei uma lágrima ali?

É uma pequena casa de bairro e os vizinhos comentam que a dona, em remota época gregária e alegre, emudeceu os gestos e perdeu a voz no mundo depois de incógnita enfermidade que afetou antes do corpo, os sentimentos.

Lastimo e desanimo; entretanto o que atenua a pungência desses sentimentos é a minha crença: quero acreditar que tenha cura; quero crer, acima de tudo, que a cortina afastada tenha sido o início de um rasgo de esperança.


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