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OPINIÃO

Nós outras

'Não era apenas uma cor de preferência, mas matiz de vidência'

Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Escrevo enquanto um eu desaparecido me encara, lábios abertos, um sorriso de outra época, de outras ilusões. Em você, a amiga perdida para o insolucionável fim, a alegria também existia, o rosto ainda resplandecia, os olhos ainda irradiavam expectativas. A vida se exibia, em nós duas.

Incompletos quatro anos nos separam desse dia e tudo evaporou: nada mais resta, nada mais. Nem sua presença física, nem nossas esperanças mútuas, nem nossos encontros idealizados e poucas vezes concretizados, nada.

A livraria-gênese da foto tampouco resistiu. Os livros às nossas costas foram liquidados pela metade do preço para que um estabelecimento mais rentável ostentasse sua potência ali, onde antes nossas expressões doloridamente ingênuas desfilavam.

Apenas o seu traje, na inconsciência escolhido, reverberava a parcela do futuro que de letras hoje se cobre. O preto da sua blusa, fica claro, não era apenas uma cor de preferência, mas matiz de vidência.

Você e eu seguramos o livro do meu primeiro lançamento: também negro. Os detalhes brancos e azuis incapazes de dissuadir a gritante mensagem do volume: beleza obscura, peculiar, outra. Beleza angustiosamente concebida que ganhou voz pelo seu interesse aos meus despretensiosos escritos, que, naquele tempo, nem a mim convinham. Beleza, a outra.

A foto centralizada num porta-retrato dourado plana sobre a minha escrivaninha, ao lado do notebook. Mas de dourados mesmo apenas os nossos silêncios. Aqueles que se foram, aqueles que esvaneceram, ou quem sabe aqueles que permanecem, incólumes, os únicos a subjugarem o término, junto à foto.

Quantos desejos de irmandade fulminados, quantos projetos aniquilados, quantas dores esses sorrisos não entendiam. Quantas inúteis inocências.

A foto ficou.

O resto se apagou.

O que sustenta a miragem é uma beleza,

Que nem o cabal estilhaço

Desencantou.


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