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OPINIÃO

Não me perdoe

As minhas qualidades são míseras perto dos seus sonhos

Por Natália Sartor de Moraes

     

(Imagem: Divulgação)/

Olho para a colcha lilás, para o urso de pelúcia sobre o travesseiro, para a estreiteza de uma cama que se sabe eternamente morada de um único corpo. Olho para a janela aberta, para a cortina branca esvoaçante, para o canário que bica uma migalha no parapeito. Olho para o abajur desligado, para a rosa esculpida na parede. Olho para o chão e não são os meus pés que vejo: são os seus.

Talvez porque eu invadi seu quarto, algo muito possessivo e clarividente em você se queira ali: sobreposta a mim, justapondo-se às minhas pernas, pisando sobre os meus pés, até que eles se tornem a sua base.

Eu sei que os meus pensamentos são claros para você. Você os ouve como se eu os verbalizasse, sempre tivemos essa ligação, e embora você me condene, o nosso laço jamais será rompido.

Fui eu que por tantos anos arrumei a cama, tomando cuidado com as rendas e valorizando os frisos, fui que aplaquei o medo do seu ursinho, em noites de temporal, fui eu que coloquei água com açúcar em um pote de plástico na mureta, para atrair beija-flor; e embora também tenha sido eu a amadorística figura a desenhar uma rosa na alva parede, foi tudo pelas suas mãos.

Eu não sou o que você planejou, mesmo porque, não sei se o que você planejou é possível, e se for impossível, aí mesmo é que você ainda quer. Eu talvez não tenha mérito aos seus olhos, pela principal razão de que os meus se apagaram. As minhas qualidades são míseras perto dos seus sonhos: por tudo isso, você me abandonou.

Não escrevo para reclamar, no fundo eu concordo com a sua desistência, ela é coerente e previsível. Você foi tão brilhante, tão sobrenaturalmente brilhante, e eu não correspondi aos seus desejos. Tampouco escrevo para me desculpar: porque a vida adulta é muito mais árida do que a sua fertilidade emocional projetava.

Com os adultos tenho me entendido bem; pois assim como a minha, a janela deles está sempre fechada, não há urso de pelúcia no quarto e inexiste outra cor além do cinza em suas largas camas, habitadas por corpos inabitados. Se por milagre canta um pássaro, é sempre na gaiola.

Então tudo isso, todas essas palavras, cada dia mais e mais inúteis, são apenas para te dizer que, apesar de toda a sua rejeição a mim, antes de sair, eu ainda olhei para o espelho com moldura de anjo e vi você. Vi você refletida em mim.

Como nunca deveria ter deixado de ser.


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