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OPINIÃO

O diminutivo e o definitivo

Apelidos carinhosos costumam vir no diminutivo: amorzinho, chuchuzinho, florzinha.

Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

O primeiro: minha maior raiva. O segundo: meu maior medo.

Tenho tanta raiva do diminutivo que não o uso nem para falar com criança; nunca digo: suas mãozinhas, seus pezinhos, seus dedinhos. A criança tem mãos pequenas, que um dia crescerão; pés diminutos, que um dia serão grandes; acanhados dedos, que um dia ficarão compridos. Mas o "inho" sufoca minha garganta.

Apelidos carinhosos costumam vir no diminutivo: amorzinho, chuchuzinho, florzinha. Nunca me chame de florzinha, por favor. Dói. É feio. Troque meu nome; escreva-o com "h"; se refira a mim como "Ô, Coisa"; mas nunca, em qualquer hipótese que seja, avoque florzinha.

Não sei explicar, há algum mistério no "inho" que alvoroça meu estômago. Como foi que nasceu o diminutivo? Filho ingrato que deforma a Língua Portuguesa, sua tão elegante matriz.

Só mais um parágrafo sobre o meu ódio flamejante ao diminutivo, até porque, nunca serei capaz de expressá-lo completamente. Sabem qual foi a maior afronta que recebi de uma pessoa? Ser chamada de fofinha. FO-FI-NHA. A palavra "fofa" é a pior que conheço, mas somar esse terror ao diminutivo? Aí ultrapassou o limite. Dei as costas à criatura, enjoei da voz dela, da forma de falar, do jeito fo-finho.

Já do definitivo tenho pânico. Não é segredo para os que minimamente me conhecem que desde adolescente acalento o sonho de fazer uma tatuagem. Pode ser singela, delicada, mas queria desenhar no corpo o que tivesse relevância para a alma. Ainda não a fiz, por dois motivos: inimizade com as agulhas e medo do definitivo.

Sei, sei. Já tem alguém com o dedo em riste na minha cara dizendo que tatuagem pode ser removida, que hoje com algumas sessões de laser absolve-se a pele. Certo. Mas além de eu sempre evitar fazer qualquer coisa que possa me sentir tentada a me livrar depois, o meu olhar para minha parte apagada seria o mesmo de quando ela esteve tatuada. Ali haveria uma ausência, e ainda que planejada, seria uma ausência. Uma ausência na minha pele. Uma ausência que para ser presença se fez através da dor e para surgir em sua potência vazia a dor redobrou.

Outro temor é escutar o padre dizer: "até que a morte os separe". O casamento precisa ser tão traumatizante? Por que colocar a vida a dois de uma forma assim, definitiva? Pessoas mudam, gostos mudam, afinidades se tornam inimizades. Precisa vir a morte para separar o que quer que seja? Não pode ser mais suave, mais natural: talvez somente o livre-arbítrio?

Quem sabe por recear o definitivo é que detesto quando me definem. Eu não sou. Eu estou. Até quando vou permanecer? Nem eu sei.

E para finalizar (sem definir), não me defina.

Tá certo, fofinho?


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