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OPINIÃO

O cansaço e o pó

Reconhecendo a supremacia do mundo, sentou-se na estrada de terra.

Por Natália Sartor de Moraes


(Imagem: divulgação)/

Correu enquanto teve fôlego, caminhou o quanto podia, rastejou quando lhe faltaram as forças, parou quando o mundo lhe arrancou o sentido.

Reconhecendo a supremacia do mundo, sentou-se na estrada de terra. Ao redor, árvores secas, um arremedo de vegetação, o ar empoeirado das grandes dores. Respirou o quanto lhe permitiram os exaustos pulmões: cinzas, podridão, passado. O ar tinha cheiro de mágoa que se recusa a desintegrar-se.

O mundo lhe arrancou o sentido e ela cessou.

Observou sem paixão os pés descalços, sujos, feridos. Trouxe os joelhos ao encontro do peito. O som dos grilos da noite. Ao longe avistou uma emanação amarelada de coruja, mas talvez nenhuma sabedoria fosse capaz de transformar o cenário de profunda ausência, o desmazelo das forças criativas, o agonizante vazio e a contraditória inquietude interna.

Nenhuma sabedoria. Nenhuma sabedoria. De súbito, sentiu que um grilo beijou-lhe o antebraço, que uma coruja chegou perto dela, que uma inesperada rajada de vento emaranhou ainda mais seus cabelos já destroçados. Não reagiu. Deixou que a criatura repulsiva pulasse pelo seu corpo inerte, relanceou a coruja sem medo, ou raiva, ou carinho. Não afastou os cabelos grossos de pó que levavam detritos aos olhos. Ali ficou. Sentada na estrada de terra.

Quando um homem passou e, preocupado, ofereceu-lhe água, não respondeu. Continuou com os olhos baixos, fixando o solo rachado sob seus pés.

Quando uma mulher passou e, assustada, ofereceu-lhe abrigo, não respondeu. Continuou com os olhos baixos, fixando o solo rachado sob seus pés.

Quando uma criança passou e, inocente, convidou-a para brincar, não respondeu, porém tentou sorrir um sorriso que lhe abriu os cortes dos lábios. Enquanto o sangue descia ao queixo, fechou os olhos. A coruja pousou no seu ombro direito, o grilo subiu ao esquerdo, o vento cobriu o corpo de insuspeitadas folhas muito verdes.

Uma lágrima riscou o rosto imundo no momento em que ela sentiu que, no topo da extenuada cabeça, caía uma gota de chuva.


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