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OPINIÃO

A carta que eu não recebi de você

Na carta que eu não recebi, você promete ser mais sensível, mais compreensivo, mais transigente, menos impulsivo.

Por Natália Sartor de Moraes


(Imagem divulgação)/

Carta, sim. Tire esse sorriso de deboche do rosto: é carta. Eu não escrevi errado, eu não estou no século passado. Eu merecia mais do que uma mensagem de Whatsapp, mais do que uma evasiva mensagem no Story do Instagram, mais do que um e-mail. Sou uma mulher de requintadas esperas. Sou uma mulher de cartas.

Na carta que eu não recebi, você se diz chateado, aborrecido, triste. Triste com você mesmo. Arrependido por um presente que não existiu, pois você permitiu que se tornasse lixo, antes que se transformasse em passado.

A carta que eu não recebi tem uma mancha de lágrima, bem em cima do "g"; letra, aliás, que você escreve meio torta. Naquela frase você finalmente admite não ter sido "gentil o suficiente" comigo. Concordo, concordo e acrescento: nem gentil, nem razoável, nem maduro.

A carta que eu não recebi é de folha de caderno universitário e me faz questionar se você, assim como eu, ainda compra cadernos universitários para fazer anotações sobre os livros que lê. Falando nisso, na carta que eu não recebi, você fala que começou a idolatrar os livros do Fernando Pessoa. Mas eu sei que é só pra me agradar, você é um obcecado por Pablo Neruda.

Na carta que eu não recebi, você promete ser mais sensível, mais compreensivo, mais transigente, menos impulsivo. Promete também me deixar ser quem eu sou - sem frequentes imposições que se fantasiam de bem-intencionadas sugestões.

Na carta que eu não recebi nota-se um homem justo, com desejo de reparação; um homem que brigou com a própria consciência e perdeu. O resultado? Curvar-se à soberana. Esteve errado. Por muito tempo esteve profunda e pateticamente errado.

Na carta que eu não recebi de você percebem-se expressivos traços de maturidade. Um homem que amadureceu. Tarde demais.

Isso tudo esteve na carta que eu não recebi de você.

A realidade foi um "olá" no Whatsapp. E um bloqueio em seguida. Um comentário em um Story do Instagram. E um bloqueio em seguida. Um e-mail com uma única e tardia palavra "volta". E uma indiferença em seguida.

Se eu tivesse recebido uma carta?

Não sei. Não quero cogitar. Porque eu não recebi.


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