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OPINIÃO

Minha terna epifania

'As batalhas foram muitas. São muitas. São diárias, perenes, infinitas.'

Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Não há cirurgia que dê jeito nestas expostas quebraduras.

Não há nada que estanque o sangue ou faça lacrar os pequenos e grandes cortes.

As batalhas foram muitas. São muitas. São diárias, perenes, infinitas.

Nunca descobri se as enfrento ou apenas me deixo estar.

Levanto, às vezes. Então espero os golpes torturantes da espada do infeliz acaso. Espero. Sou uma mulher de esperas.

Espero que pare de chover, que pare de trovoar, que pare de relampejar, que cesse a tormenta. No caleidoscópio turbilhonante das minhas esperas, na pausa dos meus bramidos de aflição, espero por ele.

Ele, sem perceber, sem planejar, sem desconfiar, me ajuda a recolher meus pedaços. São tantos, em tantos lugares e situações. Ele não sabe quais são ou onde estão, nem eu mesma sei, por isso até hoje não os peguei de volta e aqui estou: apenas fina casca do que fui.

Ele, contudo, me ensinou que não precisamos saber o refúgio dos nossos pedaços para tê-los de novo. São nossos: retornarão a nós por magnetismo, o Caos se encarrega. Mas voltarão somente quando já tivermos arranjado outros, melhores, para termos o irônico gosto de dizer: agora não preciso mais de vocês.

Meus pedaços perdidos.

Agora estou aqui, no sofá. Uso um vestido branco, com finas listras azuis e vermelhas, zíper na frente, sem mangas. No colo o notebook, no coração algum aperto, alguma dor, muita saudade, lembranças. Digito com o sorriso de quem escuta os sabiás me fazendo serenata, com o vestígio saudoso do sol que se despediu agora.

Digito com as mãos dele ainda nos meus ombros, com as dúvidas dele ainda pulsando, na minha alma. Com os olhos dele me acariciando, me sondando, me perquirindo, me transmitindo paz, me nutrindo de outros pedaços.

Meus pedaços novos.

Meus cabelos úmidos do banho sentem o toque imaginado. Minha boca se move ligeiramente, enquanto escrevo: descrente, descolorida, conferindo divisões silábicas, entonações e estéreis ortografias. Em meandros de descontração, dizem o não-vivenciado, exaustivamente planejado.

Mas faz tanto, tanto, tanto tempo.

Me perdi no sotaque sofisticado de homem sagaz, que sabe o que falar, sabe como falar e sabe onde falar. Falou ao meu ouvido. Sussurrou. Murmurou que sua inexistência não impede nossa conexão, que o espectro da epifania contempla a irrealidade palpável.

Não sei se compreendi, mas sinto que tem razão. Para consolar minha feliz chaga íntima o céu se tornou cálido manto, deslizou lentamente sobre mim e me envolveu com seu azul de perfumado algodão. Acho que me aqueci. Finalmente me aqueci. Meus pés estão quase quentes, minhas mãos, idem.

Meu coração é morna brisa.

Minha mente é inquieto silêncio.

Meu corpo é manso querer.


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