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OPINIÃO

Essa noite sonhei contigo, Machado

'No sonho ele estava sorridente como nunca o vi em fotos'

Por Natália Sartor de Moraes


(Foto: Divulgação) /

Todo mundo duvidou que eu falaria com ele. Eu mesma duvidei. Na prática: impossível. Em primeiro lugar porque a minha limitada condição intelectual não permite decente comunicação diante da excelência dele. E em segundo (e bem menos importante) lugar: porque eu estou viva, e ele, morto.  

Todavia, pedi fervorosamente ao santo Freud que me conduzisse pelas raias do sonho e assim permitisse o deslinde da minha repressão amorosa.

Os invejosos que boquiabram-se, mas enfim, conversei com ele. Joaquim Maria Machado de Assis.

No sonho ele estava sorridente como nunca o vi em fotos. Os invejosos que boquiabram-se: ele sorria para mim. Ou será que ria das minhas pretensões literárias? Fato é que mostrava lindos dentes, rutilantes e corretos. O olhar não é tão diferente do que aquele que vocês notam em gravuras: olhos de gente inteligente, olhar de gênio, cintilância de sofisticado artista.

Machado reproduziu a fala do seu personagem Brás Cubas e me disse que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Em seguida garantiu: conseguia prever que com mais quinze ou vinte encarnações já serei uma escritora quase tão boa quanto desejo. Me alertou, contudo, que para ter a honra de encostar a minha pena na dele nem daqui a cem vidas.

Aceitei. Na verdade, essa desdita há muito era sussurrada pela intuição e gritada pela premonição. Entretanto, se boquiabram mais uma vez os invejosos: escrevi com a pena do Machado! Permitiu (uma vez que esqueci de levar caneta e papel para o sonho - imprevidência esperada para uma iniciante) que eu rabiscasse qualquer coisa no seu caderno negro: aquele com o nome dos escritores com menos frequência visitados por ele - pois ainda estão muito longe do brilhantismo.

Escrevi assim:

Machado, me perdoe por ter nascido 85 anos depois da sua morte e assim impossibilitado nosso enlace... De ideias.

Ele riu. Aí tive certeza de que riu. O que deduz você, leitor?

1- Riso de apaixonado,

2- Riso de condescendência,

3- Riso de escárnio.

Comemorem os invejosos, posto que foi um riso de condescendência (daqueles que doem mais do que o escárnio). Larguei a pena. Minha mão ficou mole; meus olhos, duros. Então perguntei a ele qual seria a melhor forma de penitenciar a minha insuficiência. Machado, então, lançando mão de mais uma genialidade de personagem, tão magnífica quanto a mente que a criou, falou baixinho, antes de desaparecer numa nuvem de luz:

- Vives; não quero outro flagelo. 

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