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OPINIÃO

No dia em que eu explodi de poesia


(Foto: Divulgação) /

Essa flauta que os tempos tocam reverbera em alguma fibra doentiamente sensível do meu passado. A flauta tangida pelos tempos é de uma doçura infinita, de uma melancolia superior a qualquer flagelo. Essa flauta que os tempos tocam foi despedindo com firme cortesia cada resquício da criança que fui; foi tirando, grão a grão, a areia do castelo que os sonhos construíram. A flauta do tempo, toda mel e finitude, amadureceu a dentição falha, para erigir outra perfeita - que não se mostra.  

Essa flauta que os tempos tocam vem se esquecendo com frequência do ritmo da alegria, se equivocando na cadência dos momentos que deveriam ser de esperança. A flauta dos tempos é profunda em nostalgia e sistemática na realidade a ninguém negada.

Como é admirável e triste a flauta tocada pelos tempos, como são lineares as suas épocas - todas iniciadas por devaneios, terminadas em frustrações. E como a previsibilidade dessa flauta não impede a beleza: uma beleza translúcida, pungente, mesma; no meio dela se poderá fechar os olhos - ainda os ouvidos - e se continuará a saber que o arista é o tempo, que a melodia é a da degeneração inelutável dos nossos rostos, corpos e emoções.

Que simbólico instrumento escolheu o tempo: a lenta simplicidade de cada dia a menos, de cada hora esvaída, da música terna e consoladora - pois no mundo não existem compensações, apenas consolações. Mas de que imperativa necessidade de consolação carece o mundo!

Uma musicista toca flauta, agora. Assisto. Meus vídeos bem menos queridos foram interrompidos para que a musicista tocasse flauta. Agradeço intimamente. Ela é o tempo. A voz do tempo me diz que o pretérito, pouco a pouco vazado pelas íngremes escadas da vida, foi igualmente soprado de pulmões exaustos, saindo candidamente por lábios sem cor.

O tempo me diz: "o elementar consolo que te trago é a música".

Me diz ainda que a música - assim como a vida - é um torturado sopro. 

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