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OPINIÃO

O teu rico cativeiro


(Imagem: Divulgação) /

A colcha cinza antes era lilás, os travesseiros especiais para um pescoço em permanente torcicolo já foram macios e despretensiosos. A esquecida cortina laranja, hoje não mais que pó, deve reunir as partículas inexistidas para chorar a delicadeza das inexistências, uma vez que enxerga um veludo preto a toldar sua janela.

Até o teto é mais alto, mais circunspecto, mais areado, mais adulto, mais distante do céu. O piso tão gelado, tão branco, tão sofisticado, não permite que sentemos rodeadas de brinquedos, porque agora os brinquedos pertencem aos seus sobrinhos; de seu é a planilha aberta no notebook sobre a escrivaninha.

Você fala ao telefone, na sala. Diz para o chefe que até as três da madrugada enviará aquela e outras três planilhas para o e-mail dele, e que antes das seis da manhã estará no escritório preparando os slides para a reunião das oito.

Eu apenas ouço. Do seu quarto, ouço a sua voz. Sua voz hoje fria, metódica, eficiente. Pela breve conversa que escuto, já sei que nosso filme foi adiado, ou mais provavelmente cancelado, assim como o namoro que você iniciou, assim como tantas vezes a nossa amizade se esfarelou.

Você me disse que o quadro que tem na parede em frente à sua cama importada foi adquirido numa exposição. É lindo como o amor platônico: o sol despontando num horizonte de rubi. Porém sou capaz de apostar que não era neste nicho de congelamento emocional que o artista queria ver a obra de arte na qual empregou tanta sensibilidade.

Mas para você foi bom, ao menos assim consegue admirar o sol.

Você volta para o quarto. Surpresa, acende o lustre de cristal que ficou apagado. Passa das nove da noite e eu estive, durante toda a sua infindável conversa com o chefe, sentada no sofá italiano retrátil, no escuro. O mais curioso é que quando você liga a luz eu continuo vendo apenas escuridão ali.

Me diz o que eu já sabia: que foi adiado nosso filme, que precisa terminar planilhas, que a desculpe peloamordedeus.

Eu sorrio sem alegria e penso em abraçar você. Abandono o sofá italiano retrátil e artesanal para abraçar você. Meus braços se estendem no ar, mas se veem compelidos a cair ao longo do corpo antes de chegarem ao destino, pois percebem que a minha alma é incapaz de encontrar a sua.

Cabisbaixa, me permito sair do cativeiro que resguarda um ser humano que não existe mais.


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