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OPINIÃO

A música, como os diamantes, é eterna

Sou feliz, porque vivi para conhecer e absorver o trabalho e inteligência de tanta gente boa.


(Imagem: divulgação)

O fato é que, nos rastros desta maldita pandemia, que parece não ter fim, quase que todos os dias pipocam as notícias do falecimento de alguém ligado ao meio cultural, um artista, um cineasta, escritor, cantor e etc, etc. Meu estimado e (im)paciente leitor franze o cenho e dita, entre dentes, que isto faz parte do conjunto da obra, apenas alguns que são contados entre os milhares que morrem todos os dias. Ah, pois, claro que este escriba moreno sente e lamenta este oceano de mortes, algumas muito precoces, mas também me deparo com o nosso empobrecimento cultural, com fontes de formulação de pensamento que guiam o meu viver ou me fornecem pistas para o entendimento das coisas.

Então a cada morte, a cada golpe, cada voz ou caneta que silencia, cava pedações neste velho e sofrido coração. Ainda no início desta semana o desaparecimento do maestro Ennio Moriconne, músico de rara inspiração, compositor fecundo e profundo, cuja obra influenciou gerações, especialmente os cultores do cinema. As trilhas sonoras que compôs acabaram por acrescentar valor e nuances a películas que, sem a sua presença e participação, não passariam de lugares comuns e até trabalhos de segunda categoria.

A inserção de efeitos sonoros, de compassos medidos, de simbiose com a cena e com os gestos fez do western "Era uma vez no Oeste" uma obra épica, além da profundidade da musica-tema em si, cuja plangência fere o espírito menos avisado e é capaz de provocar um quadro depressivo profundo. Foi o mestre Moriconne que fez o nome do diretor Sérgio Leoni.

Não fora ele e o cineasta, seria apenas mais um a dirigir foroeste durante a febre do spaghetti, filão descoberto e explorado mas que produziu muito pouco com real significado e menção na sétima arte. Também o inesquecível "Três Homens em conflito" tem a dinâmica de Moriconne e abriu os olhos do mundo cinematográfico para o surgimento do ator Clint Westwood, hoje um dos ícones da direção de cinema e ator consagrado. A participação da música de Ennio lhe valeu o Oscar na obra do Quentin Tarantino.

Um vazio impreenchível. Que dizer mais. Digo que também choro a morte do nosso Leonardo Vilar, ator de rara competência e cujo desempenho em "O pagador de promessa" nos valeu a única Palma de Ouro de Cannes, com a direção do também gigante Anselmo Duarte. Paro por aqui, para deter o assalto das lágrimas. Sou feliz, porque vivi para conhecer e absorver o trabalho e inteligência de tanta gente boa. Que descansem em paz.

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