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OPINIÃO

Seria piada se não fosse verdade

Em pleno terceiro milênio, pensamentos tão ou mais retrógrados que na idade média

Por Murilo Machado


(Foto: Divulgação) /

É que, nas curvas da prévia meditação para compor estas mal traçadas, sou surpreendido com a infausta notícia do falecimento de Lady Olivia de Havilland. Quem? Nada menos que uma das estrelas de "E o vento Levou". Este escriba moreno e provinciano jamais vai arvorar-se em entendido e crítico de cinema, apenas cultor da dita sétima arte.

Pois bem, os tais críticos e entendidos proclamam que a festejada película, rodada em 1939, ainda é a obra definitiva, e nada se fez ainda que se lhe compare, guardando a mesma grandiosidade de, na música, a 9ª Sinfonia, de Beethoven, obra também definitiva e a maior composição musical produzida pelo cérebro humano. Mas, e daí? Daí que o filme de que estamos tratando, ganhou um Oscar da tal Academia. É aí que bate a vaca fria, onde queríamos chegar.

Ah, pois, a tal estatueta foi concedida a atriz Hattie Mc Daniel - uma negra, a Bá, no filme, a criada cheia de dengos da inesquecível Scarlet Hoara, vivida pela também inesquecível Vivian Leight. O filme tem uma espécie de aura maligna ou touca, pois em cinco anos após sua produção, os astros e estrelas principais estavam mortos, exceto por Lady Havilland, que nos deixou no domingo que passou, aos 104 anos, e tendo abiscoitado dois Oscar por trabalhos subsequentes, além do título nobiliárquico concedido pela Coroa Britânica.

Ah, sim, mas é a Bá. Pombas, pois a entrega da merecida estatueta foi uma das coisas mais melancólicas de que tenho notícia, pois na cerimônia, a atriz premiada foi fechada em uma sala, longe do tapete vermelho, longe do glamuroso anfiteatro, chamada apenas apanhar, não receber, o maior prêmio que um astro ou estrela cinematográfica pode cobiçar. Tudo em homenagem a um racismo absurdo, pois, felizmente, não se chegou ao cúmulo de inventar na hora um Oscar de segunda categoria.

Na mesma esteira também sepultado esta semana o senador norte-americano John Lewis, com 80 anos, um dos emblemas da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e que participou da histórica Marcha de Selma, ao lado de Martin Luther King, onde apanharam da polícia, mais que boi ladrão surpreendido em roça alheia. Bem verdade que a palhaçada do Oscar para Dona Hattie e as lutas de King e Lewis produziram avanços na conquista de direitos, avanços apenas nos aspectos legais ou jurídicos, pois de prático, apenas o direito ao voto.

De resto a sociedade norte-americana, branca, continua tão racista e excludente como sempre foi, e velha Ku Klux Klan lá esta para não nos desmentir. Em pleno terceiro milênio, pensamentos tão ou mais retrógrados que na idade média.

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