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OPINIÃO

A fome nossa de cada dia

O que estamos a ver, no tempo presente, é vergonhoso


(Foto: divulgação)//

É que, nestes tempos novos e misteriosos que correm, este escriba público mantém a atenção redobrada em cima de pesquisas e dados estatísticos que são revelados todos os dias. Ah, pois, meu (im)paciente leitor, ao me honrar com a leitura destas sempre mal traçadas, franze o cenho e resmunga que pretendemos esmiuçar dados de pesquisa eleitoral de intenção de votos, pois que a temporada está em abertura para tal. Mas não, não mesmo.

Faço refl exão sobre dados do IBGE publicados semana passada e que, com extrema precisão e riqueza nos revelou os mais cruéis espectros dos muitos que nos assolam. Falo da fome. Com dados percentuais e distribuição por região e estados, as estatísticas mostraram este horror, quase que o horror dos horrores, a quantidade de irmãs e irmãos meus, deste vasto Brasil, que morrem à míngua. Esta maldita pandemia, que às vezes se nos parece não vai acabar nunca, serviu, entre outras coisas, exatamente para fazer vir à tona um monte de realidades cruéis que, em tempos outros, ocupados com as futilidades, e até para nos proteger como avestruzes, fechávamos olhos e ouvidos para ignorar e desconhecer. Agora aí está, escancarada, a nos dar tapas na cara. 

Bem verdade que desde a vinda de Cabral, com as caravelas, sempre houve desiguais, tanto que em sua bagagem, o almirante português já trouxe condenados, degredados e mais uma pá de indesejáveis que poluíam a metrópole portuguesa. Mas gente, o que estamos a ver, no tempo presente, é vergonhoso, afronta a qualquer que tenha um pingo de consciência e humanidade. Homens, mulheres, crianças e idosos a amargar os engulhos do estômago vazio, o ronco reclamador a exigir alimento. Tanto furtou-se, roubos descarados como se vê no Rio de Janeiro, por exemplo, onde os cofres do Estado e do Município foram e estão sendo saqueados com uma regularidade de fazer corar um bloco de branco granito. O saudoso sociólogo Betinho Henfil, um humanista, gritou que a fome tem pressa.

Por conta do coronavírus estamos a ver iniciativas, empresas, empresários, alguns gigantes financeiros a abrir o cofre e a carteira. Uma beleza. Contabiliza-se aos milhares ou as toneladas o tanto de cestas básicas já distribuídas. Mas não basta, o que se precisa é programa de Estado, de governo com um mínimo de decência para erradicar esta chaga que nos infecta e envergonha. Programas oficiais de renda mínima, auxílio emergencial e mais o que for não é favor, não é esmola, mas o cumprimento de um direito de todos os brasileiros em participar, ainda que minimamente, da riqueza nacional. 

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