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OPINIÃO

Desconectados

'Cinco dias sem luz, mas com saúde'

Por Sulisia Westphal


(Foto: Angela Hopen) 

Cinco de julho é uma data agendada por ser o dia do aniversário do Arthur, "meu único estudante" que muda de idade em julho. Portanto não posso esquecer. Mas ao fazer contato com a família descobri que ainda estavam sem luz, desde o dia do Ciclone. Cinco dias! E que os moradores da rua estavam se movimentando para a segunda manifestação reivindicando a urgência. Assim foi o seu primeiro dia de idade nova. Participando da comunidade por uma causa essencial.

Cheguei a parar de respirar imaginando como enfrentaria uma situação parecida. Se na terça-feira, dia devastador em Santa Catarina experienciei quinze horas sem luz, o que já foi um desafio incrível, como tantos conterrâneos tiveram que se articular desconectados em plena pandemia para administrar sua vida sem teto, sem carro, sem telhas, sem muros, sem rua para trafegar, sem vidros, sem luz, sem internet...

Muitas árvores gigantescas "desconectadas abruptamente do solo". Cenas inimagináveis! A árvore da foto, clicada por uma amiga em Canasvieiras é apenas uma entre centenas.

Ao perguntar para a família sobre os maiores desafios nestes cinco dias fiquei orgulhosa com as palavras da Mãe Marina:

_ Professora, o Covid fez tanto estrago... Precisamos cuidar muito. Não chegar perto das pessoas no trabalho. E Cuidar quando voltarmos para casa. Acredito que tanto o Covid como o Ciclone vieram para que as pessoas pensem mais para dar mais valor ao ser humano. Quanto ao Ciclone nunca vi algo parecido. Inexplicável. Tudo que se construiu desapareceu em um piscar de olhos.

_ O que estamos fazendo? Precisamos dar mais valor à família, aos amigos, ao trabalho. Cinco dias sem luz, mas com saúde. Devagar se pode correr atrás das perdas materiais. O que vale é a família, os amigos, a alegria.

Se eu fosse a Mãe desconectada:

_ Confesso que estou quase enlouquecida. Tudo fica pior sem luz. A energia atualmente chega a se equiparar quase com o oxigênio quanto ao grau de importância para sobreviver. Ficar desconectado por cinco dias, sem notebook, sem celular, sem TV, sem geladeira... Sem as redes sociais, sem os vários grupos que fazemos parte, perder as formações, sem dar conta do teletrabalho, ficar desatualizada em relação ao contexto Cheguei a pensar em morar no carro para ouvir as notícias e carregar o celular... Sem contar as pilhas para lanterna... Que sorte ter o chuveiro a gás. Mas, usar palitos de fósforos para acender o fogão, ficar sem o microondas... Como articular a geladeira e o freezer carregados e não tendo como dar conta de usar tudo?

Treinamento

Assim tivemos a oportunidade de além do treinamento "Fique em Casa", iniciar os preparos para um novo desafio: "Fique desconectado".

Dica

Comece com os pequenos. Sabemos que todas as crianças estão em casa. Então, inicie com eles o desafio: Treinando "Ficar Sem Celular" até as 16 horas. Ou estimule um combinado. Desta forma as crianças terão que encontrar novas formas para passar o tempo, ampliando sua criatividade com desenhos, pinturas, brincando com seus brinquedos com seus jogos de tabuleiros. No início terão muita resistência, pois perderam o hábito de estarem desconectadas. Mas tenha a convicção de que há muito potencial a emergir, muitos valores a ser compartilhados, muito diálogo a serem atualizados.

A luz na casa do Arthur foi restabelecida perto das vinte horas. Assim "os Parabéns" pode ser iluminado.

Muita luz em sua semana!


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