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10 Novembro 2019 08:28:00
Autor: Por Carlos Homem

A síndrome do embuste permanece encalacrada nesse meio


(Foto: Divulgação)/

Sem saudosismo brega! Sou dos tempos em que o título de universitário dava status para o acadêmico. Era olhado, desde o vestibular, como uma promessa profissional competente que logo ocuparia uma posição social invejada. Impunha respeito pelo simples fato de ser universitário. Apostava-se tudo neles. Entrementes, os treze anos de petismo castrou desses jovens, como de todas as instituições, o respeito por eles mesmos. E pelos outros também. O chamado politicamente correto derrocou tudo, inclusive o sexo, pluralizando-o.  

Em conversa descontraída com um professor universitário, entre outros absurdos, revelou-me que o corpo docente dessas instituições enfrenta um novo problema. Trata-se da banalização do atestado médico. A industrialização dos atestados médicos, a bem da verdade, não é de hoje. Médicos existem, e não são poucos, que ante o pagamento de uma consulta fornecem atestados para tantos dias quantos forem solicitados. Mercancia de atestados!

Se operários e funcionários preguiçosos abusavam do atestado médico para ficar de 3 a 15 dias sem trabalhar, os universitários agora se valem desse expediente para constranger seus professores. São atestados que garantem para alguns alunos, com alegados e falsos retardos mentais, que façam provas em horários mais dilatados do que seus colegas. Outros, porque dizem sofrer da síndrome do pânico, não podem assistir aulas junto com os demais. Outros ainda, por mais espantoso, escudados em atestados médicos, não permitem que professores lhes deem tarefas que exijam um pouco mais de esforços, porque isso os estressa e podem lhes causar traumas. Dondocas!

Que barafunda, onde vamos parar? Para que servirão tais "profissionais"? Formar-se-ão com graduação em esperteza para enganar seus pacientes, clientes, constituintes e trouxas em geral.

O que deixa o professor indignado é ver tais acadêmicos em patotas nos barzinhos, festejando com o dinheiro dos pais, com algazarras, sem dificuldade nenhuma e nem síndromes disso ou daquilo. São exatamente esses que fazem protestos nas ruas, que gritam contra medidas governamentais, que "defendem" a democracia, que pregam doutrinas exóticas, ainda que, para isso, cheguem mesmo a tirar a roupa em público. Alguns mostram até mesmo a bunda para evidenciar onde está localizado o seu intelecto. E vá falar! São cheios de razões e de direitos. Afinal, não podem ser livres? A síndrome do embuste permanece encalacrada nesse meio.



OPINIÃO
03 Novembro 2019 10:00:00

'Por que ficar estressado? Reinvente-se!'


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Sei muito bem. Não é nada fácil sair da cama com estes friozinhos da manhã. Mas não tem outro jeito. A vida é assim mesmo, temos que trabalhar e pronto! Agora, também não é preciso levantar com a cara enfezada.  

Nem dando coice nas pessoas ali por perto. E não responda quem contigo falar com gemidos e monossílabos. Hum..hum, hãnhã, é, não, sim. Sintonize, cara! Não descarregue tua irascibilidade nas pessoas que te circundam. Seja simpático! Que mania tem o bicho humano de levantar azedo! Sai do ninho com ódio do mundo como se tivesse um ramo de urtiga brava embaixo da cola.

Quer saber de uma coisa, cara? Levante, assovie ou cante, faça uma brincadeira, force uma risadinha qualquer, pratique um exercício rápido, dê um bom dia entusiasmado para aquele cara do espelho. Tome um banho e não fique contrariado só porque o sabonete escapou da tua mão. Se você estiver sozinho, não corre o risco de se abaixar para juntá-lo, fique tranquilo! Nem ligue se o teu chuveiro é uma droga já que quase todos são.

Espante o mau humor da manhã! Esqueça o boleto vencido e o cheque pré. Ninguém tem culpa se você gasta mais do que ganha. Quer esnobar sem poder? Então se lasque! Pare de falar mal das pessoas e do teu chefe. Não procure culpados para os teus conflitos. O problema está sempre no burro, nunca na cocheira. Fique calmo se não conseguiu abrir aquela lata direito, se a rolha esfarelou no gargalo, se a película do celular tá cheia de bolhas, se a manteiga embola no pão, se o leite coalhou, se o bico do sapato riscou na primeira usada, se tem que submeter-se ao suplício do atendimento bancário.

Por que ficar estressado? Reinvente-se! Limpe aquela gaveta e jogue fora aquele monte de fios, cabos, tomadas, parafusos, fitas cassetes. Você não vai utilizar aquelas quinquilharias nunca! E você, por acaso, tem essa esquisitice de colecionar alguma coisa? Chaveiros, selos, figurinhas, rótulos, sacolas de lixo, tampinhas, canetas que vazam, cuecas estampadas, bonecos ridículos, penicos esmaltados antigos, discos do Elvis, bisnagas de ketchup? Pare com isso, cara, não se isole! Colecione dinheiro. Não é fácil, mas tem muito valor! Quanto maior essa coleção, mais valor terá. Óbvio!

Então saia de casa devagar, sem atropelos, embarque no carro e vá trabalhar. Não excomungue o pedestre folgado que atravesse a rua bem devagarinho só para te sacanear. Ele tem também o direito de se julgar o dono do mundo e te afrontar com seus recalques. São as coisas do cotidiano.


27 Outubro 2019 12:15:00


(Foto: Divulgação) /

Já tinha ouvido falar, mas fiquei na dúvida. Numa época de tantas mentiras não é fácil acreditar na verdade. Mas, dia destes, conversando com um amigo que viajou pelo interior da Itália, contou-me que conheceu uma funcionária graduada de uma prefeitura municipal brasileira, lá numa pousada de um vilarejo italiano. Ela estava fazendo turismo há mais de 20 dias, sem estar de licença ou férias.

Revelou a dita senhora para o meu amigo, sem qualquer cerimônia, que agora, com a informatização, pode viajar a vontade porque "despacha" seus compromissos burocráticos do lugar onde se encontra. Como se tivesse presente na "repartição". Não precisa mais fazer expediente. Fiquei meio incrédulo com tal fato. Entrementes, parece que a coisa é bem mais comum do que se imagina. Tem um montão de gente exercendo cargos públicos e importantes com a comodidade de "despachar" em casa. Há inclusive um projeto de lei tramitando com esse desiderato. É o chamado "onbording" (a bordo) da atividade empresarial privada. Se tudo está sendo eletrônico, quem tiver interesse que acesse!

Que maravilha! Fico imaginando a economia que isso vai permitir aos cofres do erário. Não serão mais necessárias as edificações de sedes enormes, com salas amplas e escadarias de mármore, elevadores, telefones, ar condicionado, escrivaninhas, garagens, banheiros, consumo de água, luz, seguranças, veículos com motoristas, etc. etc. etc. Todos os funcionários públicos, no futuro e nessa toada, poderão ficar em casa "trabalhando" sem ninguém vigiando e através do computador. Ligar e desligar a máquina servirá como controle do ponto.

Ninguém mais precisará se esconder atrás dos biombos pra fugir do atendimento. E o distinto público, mais conhecido por usuário ou contribuinte? Bem, que cada um compre um equipamento. Mas e quem não pode comprar? Nesse caso azar dele, ninguém tem culpa do pobre ser pobre, não é verdade? Ora, ora, se o progresso acabou com os índios, com a moral, com o respeito, com a privacidade, pode muito bem acabar com os carentes, não pode?

Estou pensando em adotar esse sistema de trabalho doméstico. Meu problema vai ser a geladeira. Abro e fecho aquela desgraça, por impulso e ansiedade, umas 100 vezes por dia nos finais de semana. Imagino como seria ficar a semana inteira "trabalhando" em casa. Sobrará um tempo enorme pra ficar olhando a língua no espelho! 



20 Outubro 2019 09:30:00


(Foto: Divulgação) /

Ele tinha plena consciência de que já não impressionava mais ninguém com a sua aparência. Beirando seus cinquenta anos vinha notando que o traseiro estava meio caidinho e as canelas afinavam a cada dia. Mas, a barriga, pelo contrário, aumentava na razão inversa e em proporções maiores. Os amigos cervejeiros como ele viviam contando vantagens sobre mulheres. Eram todos `matadores´, como amiúde gostam de mentir os homens. Havia, no entanto, um problema com ele.

Era tímido e encabulado ao extremo com o sexo feminino. Em razão disso fazia parte ainda da tribo dos solteiros. Porém não lhe faltava inteligência nem tinha dificuldade com as redes sociais. Uma idéia lhe brotara há algum tempo. Por que não garimpar uma namorada na internet? Tinha ouvido histórias e casos bem sucedidos. Então pesquisou. Procura aqui, procura ali, procura acolá. Entre tantas que provocou um diálogo virtual, engraçou-se numa. Nos papos digitalizados por ela, fazia seu tipo. A angústia, a inibição, a timidez, a insegurança de imediato lhe assaltaram.

Depois da troca de muitas mensagens, as primeiras bem formais e as posteriores mais insinuantes, combinaram em trocar fotografias. Fotografias? Isso com certeza ia melar o romance. Era aquela curiosidade normal de todo namoro. Ambos querem fazer um apanhado geral do outro. Uma espécie de mapa pessoal a ser analisado. A aparência revela ou engana muito! Uma investigação social e conferência. Ele mentira desde o começo sobre sua idade, reduzindo-a em dez anos. Também não disse a verdade sobre sua pequena estatura. Abateu uma porçãozinha do seu peso também.

Afinal, coroa barrigudo é redundância, pensava. Daí lhe veio uma intuição lógica: Ela também poderia estar mentindo. Como fazer? Combinou então um encontro com ela em local neutro como fazem as nações em conflito. Acertaram que deviam se encontrar num Shopping, em frente de uma loja específica, no horário combinado, quando ela deveria estar usando saia plissada e bolsa preta a tiracolo, e ele com terno e gravata portaria um jornal dobrado embaixo do braço esquerdo.

Assim seriam reciprocamente reconhecidos. Ele espertamente vestiu-se de forma bem simples e foi espreitar de longe a sua pretendida. Caminhou de um lado para outro disfarçadamente mais de duas horas. Daí desistiu. Não conseguiu vê-la. Nem notou que uma coroa balofa, feiosa e de bermuda, também rondava por ali como quem não queria nada.   

       


13 Outubro 2019 15:48:00

A vida aqui embaixo não é nada fácil, tá sabendo Deus?


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Caro Deus! Criei coragem e resolvi Lhe escrever uma carta. Imagino que o Senhor tenha milhões de cartas ainda pendentes da Sua leitura. O Senhor já sabe de antemão, com certeza, que quase todas elas são pra pedir alguma coisa. Tipo emprego público: Todo mundo quer um! Ou querendo que pague dívidas que o Senhor não fez, mas que lhe transferiram na base do "Deus lhe pague". Gente aos montes rogando muita saúde, mas sem um mínimo de cautelas.

Humano é bicho folgado, não é mesmo, Deus? Fico preocupado de falar com o Senhor assim com esta intimidade toda. Afinal, me desculpe a franqueza, mas o Senhor é muito sério, cara fechada demais. Dá um medinho danado na gente. Puxa, Deus! Não custa nada abrir um sorrisinho simpático pra facilitar as coisas, não acha?

Mas o motivo maior desta missiva (acho que "epístola" ficaria melhor) é pedir algumas dicas e justificar algumas atitudes minhas. Por exemplo, gostaria de saber se posso fazer algumas ações humanitárias aqui na Terra pra garantir uma cadeira numerada aí em riba. Também tenho dúvidas que me atormentam e gostaria de esclarecê-las. Pensei em dar esmolas sem ter nenhum interesse no retorno. Mas é inevitável, Deus! Quando ajudo alguém, sempre espero a retribuição. Uma espécie de rendimento, juros, debêntures, sobre o capital da bondade investido.

Outro dia pensei até em visitar o Adélio e ingressar com um habeas-corpus pra tirá-lo da cadeia, coitado, mas fiquei com medo que o energúmeno me desse uma facada. Tá louco, né, Deus!

Tenho a intenção de Lhe conhecer pessoalmente, mas não estou com nenhuma pressa. Fique certo disto! Inclusive, se o Senhor me der um empurrãozinho, quero demorar mais uns 50 anos! Quanto as minhas dúvidas, há uma que, me perdoe, Deus, mas não me conformo. Abraão, Jacó, Davi, Salomão, entre tantos outros personagens bíblicos tiveram muitas mulheres. Não é verdade? Então, por que agora só pode ter uma? Lemeque, o da Bíblia, em Gênesis 4:19, já tinha duas garantidas.

Se o Senhor mudou de ideia de uns tempos para cá eu acho que não foi uma boa decisão. Penso assim apenas, né! Quem sou eu para questionar o Senhor? Então deixe quieto! Mas que o plural no inicio da criação era melhor que o singular destes dias, ah, isso era! A vida aqui embaixo não é nada fácil, tá sabendo Deus? Não sei ainda o motivo de o Senhor ter me criado com a obrigação de trabalhar para viver. Que saco! E antes que eu me esqueça, pra que serve o dente do siso, Deus? Por que inventou essa coisa inútil? Só para torturar tuas criaturas? Era isso. Qualquer dia desses Lhe escrevo de novo, se não for incômodo. Um abraço!


06 Outubro 2019 08:31:00


Então é o seguinte: Dois empregados propõem duas ações contra o mesmo empregador. Pleiteiam praticamente os mesmos direitos. Direitos que, por mais organizado que seja o patrão, sempre restam resíduos devidos ao empregado. Uma parafernália de leis que não há como serem atendidas. E o formalismo contra o empregador é cumprido à risca. A mera inexistência da assinatura num único cartão ponto entre tantos o invalida, como se não tivesse sido o empregado quem teria efetuado aqueles registros. O empresário é sempre o suspeito, o bandido!

Daí, então, por não encontrarem testemunhas que lhes sirvam de provas, um serve como testemunha do outro. Pode? Mas se têm interesses iguais nas causas, um pode servir de testemunha do outro? Não seria troca de favores? Não estariam suspeitos? Estariam, mas pode. Claro que pode! Na justiça trabalhista contra o empregador tudo pode. A suspeição no caso não vale. Mas, a lei trabalhista (CLT) não está subordinada ao Código de Processo Civil? Em tese está. Mas pra que servem as tais súmulas do TST? E no exemplo acima não estariam ambos os autores suspeitos de serem testemunhas? Estariam. Mas, neste país, as leis propriamente ditas não valem nada, com perdão pelo superlativo.

O que vale mesmo são as portarias, instruções e precedentes normativos, súmulas, entendimento de juízes reunidos em convenções, e aquilo que chamo de "muleta mental" conhecida por jurisprudência. A jurisprudência chancela a preguiça do pensamento! Economiza e dispensa os argumentos de convicção nos julgados. Como se fosse possível dois ilícitos ou fatos humanos serem iguais.

Qualquer colegiado do judiciário legisla de acordo com sua vontade. Daí criam esses Frankenstein jurídicos! Imaginem, então, se os Ministros do Supremo Tribunal não fazem o que bem entendem. Mudam as leis vigentes e criam outras ao sabor de seus interesses sem o mínimo constrangimento. Abrem as portas das prisões soltando condenados porque na última defesa do processo um bandido falou antes que o outro. Tá louco!

Nestas horas a gente tem pensamentos que não suportam o eco! Virou tudo numa imensa bosta! Ahh...quase esqueci! Na acusação de um crime, os policiais que prendem o acusado servem de "provas robustas" no texto da sentença. Pode? Claro que pode! Há um universo de arrogância nessa promiscuidade legal. Mas, cale sua boca! Em briga de jacu, inhambu não pia!        


29 Setembro 2019 08:30:00

A natureza humana tem aspectos sombrios


(Ilustração: Divulgação) /


Constato a todo o momento, passeando pelos WhatsApps, Facebooks e etecetera, com os tropeços naturais da minha inabilidade para lidar com essas coisas, que estão sempre por ali umas mesmas pessoas. Não compartilham temas comuns, curiosidades, novidades, notícias atuais. Não, pelo contrário, fazem questão que saibamos onde elas estão, por onde transitam neste mundo. Onde se deleitam nos sonhos reprimidos da maioria. Como se fôssemos obrigados a saber por onde andam!

A natureza humana tem aspectos sombrios. Penso que ainda mantemos escondido dentro de cada um de nós o símio primitivo. Aí o cara vai viajar pelo mundo, mas não se contenta só com a própria viagem. Ele tem necessidade que todos saibam e vejam o seu sucesso, gratificado com uma viagem internacional. Eu posso, eu estou aqui! Você não pode! Morra de inveja! Fartam-se com o ciúme dos outros.

Essa tola noção de que eu sou diferente, que possuo uma essência que me diferencia dos demais, é própria do narcisismo. Essas redes sociais potencializam a vaidade. O exibicionista, insatisfeito consigo mesmo, quer que vejamos sua imagem refletida no espelho d´água. Que nos apaixonemos também por ela! Porém, essas redes sociais permitem também que vejamos desnuda a personalidade de muita gente. Num mundo onde "aparecer" atende muito mais à necessidade de coçar o próprio ego, "ser" virou acessório supérfluo.

Pior é que em algum momento, com alguma reserva, ou sem reserva nenhuma, todos nós sentimos essa insegurança. Precisamos buscar lenitivos na divulgação dos nossos momentos felizes. Então dele que dele mandar fotos e imagens onde aparecemos em lugares exóticos ou famosos. No Vale do Loire vi uma senhora pedir para ser fotografada segurando o enorme sexo da escultura nua e deitada do Leonardo Da Vinci. Fiquei ensimesmado. Estaria querendo demonstrar exatamente o quê? Talvez revelando fantasias sexuais sublimadas? Carência? Vai saber! Aquela mulher talvez, quem sabe, para sair do anonimato estaria adotando o célebre raciocínio do poeta irlandês Oscar Wilde: "A única coisa pior do que ser falado é não ser falado".

 Não sei exatamente o porquê dessa minha estranha atração pelo comportamento dos idiotas. Fico espiando esses atos egocêntricos, essas atitudes histéricas. Desperta em mim uma irritação divertida, mas tenho consciência desta minha imperfeita implicância. O esnobe narcisista provoca mesmo essa repulsa. Fazer o quê?



22 Setembro 2019 08:00:00

Todo mundo quer viver bastante, mas ninguém quer ficar velho


(FOTO: DIVULGAÇÃO)

Enquanto conversava com a moça que me atendia, entre tantas abobrinhas que falava na busca de assunto, eu contei que gostava de música clássica. Que ouvia vários cantores espanhóis como Pavarotti, entre outros. Você quer dizer música lírica, com certeza? Corrigiu-me ela. Que ódio nessas horas eu sinto da minha burrice! Tentei consertar. Desculpe, foi falha minha. Sim, música lírica! Tem mais uma coisa, acrescentou a moça com crueldade no seu sorriso irônico: Pavarotti era italiano, não espanhol! 

Senti-me um chinelo sujo com alças arrebentadas. Sou o campeão das bolas fora! Será que a idade vai deixando a gente mais burro? Ou será que a prudência está certa quando manda pensar antes de falar? Eu sempre tive a consciência de que as pessoas envelheciam, mas nunca parei para pensar que isso fosse acontecer comigo também.

Outro dia assisti à reprise parcial de um programa da Xuxa, no tempo das suas paquitas e dos seus baixinhos. Nossa como ela estava deslumbrante, com tudo certinho e no lugar. Por coincidência, trocando de canal, achei a Xuxa destes dias atuais. Estava dando uma entrevista. O tempo é implacável e torturador.

Mais ainda contra a mulher. A Xuxa perdeu o brilho, está desbotada. Até o papo dela ficou insalubre. Mas nessas horas, a comparação é inevitável. Se ela está assim, imagine o que a erosão dos anos fez comigo? Fazer o quê? Gosto muito de repetir essa máxima de que todo mundo quer viver bastante, mas ninguém quer ficar velho. Essa conta não fecha!

Voltando ao assunto da moça que me tirou, não me conformei. Precisava me vingar! Então, arquitetei uma armadilha e fui pesquisar alguma curiosidade. Achei!!! Como quem não quer nada, algumas semanas depois voltei ao local de trabalho da sabidona que me tripudiou. Puxei a conversa. Papo daqui, papo dali, contei que havia assistido um filme sobre a história de Romeu e Julieta. Fui aos poucos a induzindo a dizer o óbvio. Falei que era uma história bem interessante que envolvia duas famílias italianas.

Um romance bem bolado. Ressaltei com ênfase: o autor da história foi genial! Ela então mordeu a isca e esnobou: o autor da história de Romeu e Julieta foi Shakespeare! Eu fui ao delírio.

Ela estava aprisionada na minha ratoeira. Então, com um ar soberano de literato e profundo conhecimento sentenciei: engano seu! A história de Romeu e Julieta foi escrita por Matteo Bandello, poeta italiano, enquanto que Shakespeare era um dramaturgo inglês que apenas levou a história para o teatro. O ar de contrariedade nos olhos da moça era visível. Minha vingança era doce. Fiz ela se sentir burrinha também!


15 Setembro 2019 08:30:00


(Foto: Divulgação) /

Depressão e pânico. Virou epidemia. O bicho humano tanto fez que acabou inventando e sendo vítima das suas doenças sociais. Quando não estamos lambendo as nossas próprias feridas, estamos sempre acudindo os outros nas suas tempestades íntimas. É curioso como somos fracos, mas queremos nos mostrar fortes. Sei lá se é uma constatação errada, ou talvez uma visão distorcida, mas vejo na maioria das pessoas uma tendência de angústia e aflição. Estamos todos nos sentindo inseguros. Uma sensação de que o futuro tem coisas ruins guardadas.

As conversas entre duas ou mais pessoas descambam logo para lamentações, reclamações, queixas das mais inusitadas. Falar sobre doenças então é um comportamento mórbido das pessoas. Cruzes! Como sentimos pena de nós mesmos! Como gostamos de contar nossas enfermidades e nossos sofrimentos ou tropeços. Como se o fato de compartilhar nossos dissabores e infortúnios nos trouxesse uma espécie de lenitivo.

Queremos que os amigos se condoam dos nossos problemas. O que será que está acontecendo? Vejo tantas mensagens de otimismo e de fé nas redes sociais. Pesquiso rapidamente a vida desses mensageiros e constato que são também pessoas com conflitos. Por que mentem? Para mostrar que estão bem, que são vitoriosos, que não se deprimem? Ora, ora, quanto mais se padece do leite derramado, pior fica não é verdade? A posição que pode nos salvar é a cabeça erguida, os olhos no horizonte, os ombros erguidos. O vacilo, a dúvida, a angústia, a lamuria, não ajudam em nada.

De nada adianta ficar endeusando uns ícones mundiais, sejam artistas televisivos ou reais, que todos eles também curtem os mesmos problemas, ou maiores. Carlos Drummond, num dos seus poemas, diz que "não é fácil nascer de novo". Verdade! Mais difícil ainda é quando o renascer implica em dar uma volta de 360 graus. Fazer tudo novo, começar no zero, sem nenhuma preocupação com a aprovação dos outros.

É dever de todos nós serrar com paciência e determinação, com um pequeno pedaço de lima, dia após dia, as grades da nossa própria prisão. Temos que cutucar a nossa capacidade de ver além da rotina, da mesmice de cada dia, do tédio que e o trabalho repetitivo nos causa. Tá louco! São tristes as roupas penduradas, os quadros das paredes, as fotografias sobre as cômodas, as frutas apodrecendo na fruteira, as revistas velhas que já deviam ter sido jogadas fora. Já é hora de nos reciclarmos. Não é?        


08 Setembro 2019 08:30:00
Autor: Carlos Homem


(Foto: Divulgação) /

Gostar ou não de alguma coisa é do livre arbítrio de cada um. Acho uma malvadeza ímpar das pessoas que não gostam de cachorro. Tem gente, é difícil de acreditar, que não gosta nem mesmo de criança. Há também uma quantidade espantosa de gente que não gosta de trabalhar. Quanto a isso até tenho alguma simpatia. Ficar sem fazer nada, quando se pode, é muito bom. O corpo humano não foi projetado para trabalhar.

O trabalho é um sacrifício imposto pela ambição, e também punição pelo pecado original! O Adão era chegado, e por tal razão nos condenou. Mas é curioso como as pessoas que gostam de beber enchem o saco daquelas que não gostam. Querem solidariedade na burrice! Ninguém respeita o meu direito de tomar soda limonada. Ou água mineral. Ficam zoando! Um cristão que não queira, numa reunião social qualquer, beber cerveja, vodka, ou uísque junto com os outros, é vítima de bulling.

Daí a gente tem que arrumar desculpas. Ou porque está tomando antibióticos, ou porque vai fazer exame de sangue amanhã, ou porque fez uma promessa, ou porque a religião não permite. Haja justificativas ainda que esfarrapadas! O melhor seria mesmo dizer a todos que vão pra pqp! Não quero beber! Pronto! Daí, porque estamos festejando o natal temos que engolir álcool? No último dia do ano também? Aniversário, despedida de solteiro, festa de casamento, baile, carnaval, vitória do time, pra esquentar, pra criar coragem?

Parem com isso! Respeitem minha água tônica! Cada um bebe o que quer, até mesmo suco de babosa batido com limão. Eka! Se existem estróinas que se sujeitam a ficar de pé num boteco imundo durante horas lambendo um copo de pinga é problema deles. Pinga? Que o espírito do monge João Maria nos livre disso! Essa bebida pode até servir para curar bicho-de-pé, mas na barriga da gente ferve como um vulcão cozinhando os miúdos todos! Beber deixa feliz? Quem disse que ser feliz é o que a maioria acha que é? Justificam alguns que a bebida lhes dá conforto de uma desilusão qualquer. Pode ser. Cada um que lide com seus próprios demônios. Entre as paredes do meu tédio, porém, busco a razão na minha soda limonada!


01 Setembro 2019 08:30:00


(Foto: Reprodução/His Treasure Seekers) /


Se há uma coisa da qual gosto muito é a de pensar bobagens. Viajo nas minhas maluquices. Como exemplo me pergunto: por que Deus não fez o homem já evoluído como estamos nos dias de hoje, ou melhor? Uma criatura bem elaborada e pronta? Que motivo teve a inteligência divina para produzir uma criatura tão burra que levou milênios para inventar a roda? Qual a razão de nos criar atrasados, podendo nos ter feitos evoluídos? Um mistério!

É que acho uma sacanagem imaginar o homem da pré-história chegando à sua gruta e ver tudo sujo e desarrumado. Ver a parceira desgrenhada e fedida. Ter ainda que ir buscar uns galhos de vassoura para varrer os ossos de animais que lhe serviram de almoço. Não ter sequer um quartinho íntimo para exercer suas atividades recreativas e reprodutoras. E nas paredes de pedra não ter um calendário da Pirelli com mulher pelada, ou nem mesmo uma cortininha blackout comprada na Havan para separar o ambiente. Puxa! Foi muito sofrimento para os nossos ancestrais! Se pelo menos pudessem contar com um aparelhinho de gilete para rapar a capoeira das virilhas, ou ainda, um micro-ondas para requentar um pedaço do tatu que sobrou de ontem.

Aproximando um pouco mais o tempo, prossigo nas minhas doideiras. Porque o mundo havia sido corrompido pelo petismo daqueles tempos, Deus resolveu acabar com a humanidade. Ficou convencido que o ser humano, inventado à sua imagem e semelhança, não tinha dado certo. Então, escolheu Noé e sua família para sobreviverem ao dilúvio. Imagino o tamanho da reina da mulher do Noé enquanto fazia faxina naquela Arca. Limpar cocô e xixi de elefantes, girafas, vacas, hipopótamos, gorilas, patos, galinhas, curicacas, papagaios, não pode ter sido uma tarefa fácil! E a fedentina? Todo dia e o tempo todo! Judiação, pois eram tempos em que não existiam diaristas. Com as noras, como acontece até hoje, ela não podia contar! Pelo menos a água por 40 dias e 40 noites não lhe faltou. Uma dúvida eu continuo tendo: Será que hoje o Noé conseguiria construiu aquela Arca? Duvido! Licenças ambientais, ONGs protetoras dos animais, Ibama impedindo o corte das madeiras, projetos arquitetônicos, elétricos, contra fogo, seguro, protestos dos ecochatos, direitos trabalhistas, e vai por aí a fora.

Bobagens de um louco que, segundo o ditado, todos nós somos um pouco. Porém, isso é também uma terapia eficaz para eliminar da minha cabeça todos os desvios e preconceitos que os sabidos não aceitam enfrentar.



25 Agosto 2019 11:47:00
Autor: Carlos Homem

A idade abre a torneira das banalidades


(Foto: Divulgação) /

Tem uma idade que transita entre seus 80 a 85 anos, mas com uma lucidez invejável. Conheço-o de longo tempo. Disse-me, logo em seguida a um cumprimento muito educado, que queria fazer uma consulta. Não foram necessários mais de cinco minutos de conversa para perceber que ele não consultava coisa nenhuma. Era mais uma curiosidade do que uma dúvida legal. Desconfio até que ele queria mesmo era bater papo.  

Os velhos gostam de falar muito e repetidamente sobre coisas sem importância. Navegam nas senilidade. A idade abre a torneira das banalidades. Queria saber se havia algum fundamento nesses comentários de que o governo usa as vacinas contra a gripe para despachar os velhos, e também para ter menos despesas com a previdência e aposentadorias. Contive meu riso e fazendo uma cara dissimulada de introspecção, afirmei que isso não tinha nada de verdadeiro. Não se deu por vencido, acrescentando que alguém lhe disse, ou ele leu, ou ele escutou, que os governos querem sempre controlar o aumento da população por razões econômicas. Bobagem! Retruquei, isso não existe! Isso é conversa tola de certas pessoas!

 Não adiantou, sacou do seu repertório mais um argumento que trazia pronto: - Então o senhor não sabe que os governos têm um controle populacional e despejam até produtos químicos na água encanada para matar as pessoas? Eu, por prevenção só bebo água em garrafa, falou ele revirando os olhos para mostrar desconfiança. Resolvi então tirar um sarrinho do meu pseudo consulente, dizendo: - Tenho ouvido muito que essas pílulas que dão mais ânimo para os homens, chamadas de azulzinhas, na verdade é que estão matando os velhos mesmo! A quase centenária vivência do meu visitante veio em seu socorro e ele se esquivou com maestria: - Olhe doutor, tenho visto falar muito nisso, mas eu faço acupuntura, hidroginástica, homeopatia, eletrochoque, chá de catuaba. Não preciso desses comprimidos que o senhor falou aí!

Senti no meu interlocutor a velha masculinidade ameaçada. Aquela carapaça do ataque, do machismo latino, da vantagem viril. O homem, nessas questões de sexualidade, seja lá a idade que tiver, é gabola e mentiroso. Mas, no papo com o velho apliquei a fórmula da paciência no lugar do convencimento. Não querendo melindrá-lo, encerrei: - Fico muito obrigado ao senhor por me revelar essas coisas. Vou me cuidar! Não tomo mais vacina para gripe e nem água encanada!



18 Agosto 2019 08:31:00


(Imagem: Divulgação) /

Tenho uma quantidade enorme de desejos represados. Vivo sonhando com os olhos abertos, imaginando como seria gostoso se pudesse realizar tais desejos. O problema é que para materializar minhas fantasias é preciso dinheiro. Sempre o dinheiro! Esbarra tudo no vil metal! Preciso, então, ganhar uns dez milhões na mega-sena. Com esta grana vou dinamitar as represas que bloqueiam meus planos.

Primeiro que tudo compro um apartamento classe "A" na praia de Guarujá ou em Búzios. Camboriú é coisa de pobre! Compro também um avião bimotor, que seja veloz, para ir curtir minha praia nos finais de semana. Ihhh! Acho que só com dez milhões não vou conseguir essas coisas básicas. Mesmo porque, com uma parte do dinheiro vou ter que dar um `cala a boca´ nos parentes mais próximos.

Bem, então quero ganhar cinqüenta milhões. Agora sim! Compro dois apartamentos, um em cada uma daquelas praias, um carrão esportivo tipo Lamborghini, um avião maior para dar carona aos amigos e familiares. Também me tornarei proprietário de uma fazendola no Mato Grosso, com pista de pouso e de preferência que seja cortada por um rio piscoso. Uhmmm! Já começo a desconfiar que só com cinquentinha meus projetos vão perecer. Quer saber de uma coisa? Vou ganhar sozinho a mega-sena acumulada de fim de ano! Acabou a conversa! A ambição não tem fronteiras.

Compro então um apartamento duplex e um iate luxuoso em Mônaco. Um jatinho que é mais rápido para minhas viagens freqüentes. Não quero ir embora de Curitibanos. Vou passar o saldo da minha vida só viajando. Uma fazenda enorme, com uma mansão que construirei nela, mais pista para jatinho, faz parte dos meus modestos planos. Vou dar festas nababescas para os amigos, que serão muitos com certeza, quase toda semana.

Vão ficar mais contentes do que herdeiros em velório de pessoa rica. Tenho, no entanto, algumas dúvidas e muitas indagações: Será que não serei o objeto de muita inveja? Van Gogh costumava dizer que somos todos meio neuróticos. Será que isso tudo não é uma neurose minha? Saberei viver uma vida para a qual não estou preparado? Meus cozinheiros saberão que ovo frito com pão, café com leite bem doce, é minha refeição favorita? Caminhar na rua sem medo, dar e receber bom dia das pessoas vai ser possível? Não serei prisioneiro de mim mesmo? Quer saber de uma coisa? Deixem quieto! Que meus sonhos e desejos permaneçam represados. Essa dinheirama fácil vai me lambuzar!    


11 Agosto 2019 08:30:00




Era só fazer um calorzinho e os jovens se reuniam ali. Local e ponto do agito nas noites curitibanenses. Sextas-feiras, sábados e domingos são mesmo os dias escalados para as baladas. Pois batia cartão ali a juventude no cumprimento do ritual que o vigor lhes permite.

Como só havia aqueles dois ambientes, um em cada lado da rua, o negócio era dar conferidas de vez em quando no Botinas Bar e depois no Dubai Bar. As moças mais desinibidas faziam então um desfile atravessando a Cel. Vidal Ramos daqui pra lá, de lá pra cá. Os rapazes, incansáveis e persistentes, iam também aqui e acolá dar aquela rápida olhadinha na busca de novidade e aferiam o plantel de mulheres. Atendiam o instinto natural da caça do macho reprodutor, ou impulsionados pelo "efeito Coolidge".

Foi quando, sem se saber de onde, apareceu ali uma gata deslumbrante. Segura de si, a cabeça erguida e confiante na sua beleza, ela caminhava altiva e sensual. Bem produzida. Transpirava autoestima. Um ar juvenil, embora não de adolescente. Trajava roupas apertadas e curtas que mostravam as curvas esculturais do seu corpo, mas sem traços ou trejeitos de periguete. Sóbria no vestir! Também não mostrava nenhuma tatuagem, carimbo da vulgaridade. A mulher solteira quando se enfeita e sai de casa tem um objetivo único. Marcar território!

E ela era bonita, muito bonita! Caiu o queixo da macacada. Quem é? De onde vem? Qual seria o parentesco? Os rapazes devoravam a moça com os olhos famélicos. As meninas ficaram erisipeladas de inveja. Qual ego masculino não se queda diante dos encantos de uma mulher bonita e elegantemente bem vestida? Mulher bonita é o capeta! Homem nenhum resiste!

Nada nela, porém, quebrava a simetria. Nem seios grandes demais ou siliconados, nem bumbum arrebitado, nem lábios volumosos, nem muito alta nem muito baixa. Sorria de forma comedida e acanhada. Tinha classe a moça! Uma mulher padrão, mas jovem e linda. E ela, como toda mulher que sabe que é bonita, refletia-se nos olhares curiosos e ávidos dos homens que por ali a cobiçavam. Curtia o prazer que a mulher bonita sente ao ver-se desejada. Mas mantinha-se discreta mostrando sua linhagem. Rapaz nenhum se sentiu com coragem de abordá-la. Frouxos! O homem acovarda-se ante uma beleza estonteante. Talvez por isso, a distância, contentaram-se com vê-la. Quem era ela? Muitas foram as versões, mas nenhuma com certeza. Apenas deixou sua marca naquela noite.



04 Agosto 2019 10:13:00


(Foto: Divulgação) /

Espero que meus amigos não fiquem magoados, mas não quero mais ser Prefeito. Desisto com pesar no meu coração da minha candidatura. Não tenho um mínimo de paciência para fazer campanha e para ficar digitando no celular. Tenho as pontas dos dedos grossas e arrebitadas, por isso teclo sempre as letras do lado junto com àquelas que queria. Não levo jeito, fico bicando com o indicador da mão direita como se fosse um pica-pau. Daí é aquela confusão! Aja saco!

Vou sair do grupo da turma que defende minha candidatura. Sei muito bem que isso é deselegante, mas não aguento mais. Ser candidato não é mole não. Ficam o tempo todo regulando a vida da gente. Perde-se o sossego. Viram a família do lado avesso. Desenterram resvaladas que demos há vinte ou trinta anos passados. Ou mais!

Daí, esse negócio de andar na rua rindo sem ter vontade, cumprimentando estranho como se fosse um velho amigo, abanando até pra varal de roupas, é dose. Não me agrada esse negócio de desidratar o adversário através das redes sociais. Também não desejo mudar minha personalidade e modo de ser. Se nunca mostro os dentes sem motivos, por quê teria que andar por aí arreganhado para bancar o simpático? Pior ainda, ficar escutando gracinhas que não tem graça nenhuma, e piadas infames.

Candidato não pode nem tomar uns pileques por aí, brigar nos bares e com a polícia, que todos se escandalizam e não aceitam explicações. Querem que o Prefeito seja o quê? Um anjo? Tenho pecados bem maiores que as virtudes. E não são poucos! Meus amigos vão entender!

Só de pedidos de uma "vaga", seja lá para "o que for", para eleitores ou seus parentes, tem que encher uma caderneta com anotações. Vão pro diabo, tropa de carrapatos! Afinal de contas querem que o Prefeito administre o município ou a vida particular de cada um?

Campanha política dá muito trabalho, e toda pessoa que trabalha tem sempre uma porção de vagabundos querendo viver às suas custas. E os dedos duros? As denúncias? Não se consegue nem fazer xixi nos muros que sempre tem um alcaguete para tirar fotografia e denunciar.

Neste mundo já não existe nenhuma lealdade. Não vale à pena ficar cavando a esmo, procurando sabe-se lá o quê. Então desisto! Encarcero meu ego. Até porque minha candidatura é de mentirinha mesmo! Não tenho habilidade nem diplomacia para ficar agradando companheiro rabugento, dengoso, emburrado, mordido, assim como eu. Não adulo ninguém! Tá resolvido, desisto! 



28 Julho 2019 08:31:00

Quando duas pessoas resolvem morar sob o mesmo teto, "juntando os trapos" como dizem no popular, num primeiro momento não imaginam os reflexos que isso possa ter em suas vidas. Essa informalidade, essa falsa impressão de não assumir compromisso, de fazer de contas que são só namorados, e, portanto, isentos das obrigações formais, mudou bastante com o passar dos anos.

A chamada união estável, que deu um nome sociável para o antigo "amigamento", elevou o status desse relacionamento quando o STF decidiu equiparar a união estável ao casamento civil quando o assunto é herança. Quer isso dizer que o casamento "no papel" vale tanto, e em certas circunstâncias até menos que o "ajuntamento".

Enrabichou tá engatado! Abstraindo-se os aspectos sentimentais que unem os casais, vejamos algumas circunstâncias relacionadas com o patrimônio. Digamos que um casal viva sob união estável e tenha dois filhos. O regime então é o da comunhão parcial de bens, ou seja, cada um permanece dono daquilo que tinha antes de se unirem para a convivência. Suponhamos que o homem tivesse uma casa comprada e paga antes da união com a mulher, mas que durante o tempo em que juntos viveram compraram outra casa já que então nasceram dois filhos.

Daí, o homem (como sempre) morre antes da mulher. Como o Supremo Tribunal Federal decidiu, a partilha deve ser feita na seguinte forma: A casa que o companheiro tinha antes de se juntar com a mulher fica para ela e os dois filhos (1/3) para cada. A casa comprada durante a união estável fica 50% para a mulher (meação) e os outros 50% para os filhos, sendo 25% para cada. Neste caso pouco importa se os filhos são do casal ou só do parceiro que morreu.

Mas, e se a partilha tiver que ser feita por motivo de separação e não de morte? Bem, daí, nesse caso, a casa que foi comprada pelo homem antes da junção, será só dele, e a outra, comprada durante a convivência, será partilhada em 50% para cada um. Agora, uma coisa interessante, já que vivemos em tempos modernos.

Essa decisão do Supremo vale para casais heteroafetivos e para homoafetivos. Sendo um casal de dois (desculpem o pleonasmo), a partilha contempla ambos, sejam lá dois masculinos ou dois femininos amancebados. Outra coisa, se o casal do exemplo acima tiver um filho socioafetivo (de criação), com ou sem documento de adoção formalizado, herdará também junto com os outros dois.    


28 Julho 2019 08:31:00

Quando duas pessoas resolvem morar sob o mesmo teto, "juntando os trapos" como dizem no popular, num primeiro momento não imaginam os reflexos que isso possa ter em suas vidas. Essa informalidade, essa falsa impressão de não assumir compromisso, de fazer de contas que são só namorados, e, portanto, isentos das obrigações formais, mudou bastante com o passar dos anos.

A chamada união estável, que deu um nome sociável para o antigo "amigamento", elevou o status desse relacionamento quando o STF decidiu equiparar a união estável ao casamento civil quando o assunto é herança. Quer isso dizer que o casamento "no papel" vale tanto, e em certas circunstâncias até menos que o "ajuntamento".

Enrabichou tá engatado! Abstraindo-se os aspectos sentimentais que unem os casais, vejamos algumas circunstâncias relacionadas com o patrimônio. Digamos que um casal viva sob união estável e tenha dois filhos. O regime então é o da comunhão parcial de bens, ou seja, cada um permanece dono daquilo que tinha antes de se unirem para a convivência. Suponhamos que o homem tivesse uma casa comprada e paga antes da união com a mulher, mas que durante o tempo em que juntos viveram compraram outra casa já que então nasceram dois filhos.

Daí, o homem (como sempre) morre antes da mulher. Como o Supremo Tribunal Federal decidiu, a partilha deve ser feita na seguinte forma: A casa que o companheiro tinha antes de se juntar com a mulher fica para ela e os dois filhos (1/3) para cada. A casa comprada durante a união estável fica 50% para a mulher (meação) e os outros 50% para os filhos, sendo 25% para cada. Neste caso pouco importa se os filhos são do casal ou só do parceiro que morreu.

Mas, e se a partilha tiver que ser feita por motivo de separação e não de morte? Bem, daí, nesse caso, a casa que foi comprada pelo homem antes da junção, será só dele, e a outra, comprada durante a convivência, será partilhada em 50% para cada um. Agora, uma coisa interessante, já que vivemos em tempos modernos.

Essa decisão do Supremo vale para casais heteroafetivos e para homoafetivos. Sendo um casal de dois (desculpem o pleonasmo), a partilha contempla ambos, sejam lá dois masculinos ou dois femininos amancebados. Outra coisa, se o casal do exemplo acima tiver um filho socioafetivo (de criação), com ou sem documento de adoção formalizado, herdará também junto com os outros dois.    


21 Julho 2019 08:30:00

Acredito aqui na companhia da minha ignorância, que passamos pela vida inteira enganados por algumas idéias, e de alguns poucos. Normalmente são ou foram visionários. Quem sabe até malucos! Criaram, na sua maioria, algumas crenças ou superstições e as defenderam com tamanha argumentação que a humanidade adotou-as como verdadeiras e absolutas. Por isso, talvez, a relação conflituosa da nossa espécie com a verdade.

Tudo teve inicio quando o homem, a partir do momento em que adquiriu a inteligência, teve a percepção de que todos morrem. Aí, alguém metido a sabido resolveu dizer "não é bem assim, existe vida após a morte". Como somos todos agarrados na vida, e ninguém quer morrer, uma idéia dessas nos conforta. Então é melhor acreditar nisso. Ora, pensamos nós com a nossa presunção, não é possível que tenhamos o mesmo fim de um cachorro.

Tem que existir uma prorrogação do tempo regulamentar depois que batermos com a cola na cerca. Não podemos aceitar que acabe tudo empatado, sem chance para os pênaltis. Se somos inteligentes é porque somos imortais. Como é bobo o tal de bicho humano! Mas no nosso interior sempre permanece a dúvida. Os sinais que a natureza nos mostra fazem com que cada vez mais duvidemos daquilo que nossos antepassados nos ensinaram.

Então lidamos sempre com a verdade ou fugindo dela. Como exemplo, vejamos as relações amorosas. Essa conversa fiada de que "eu vou casar com você" deve sempre ser analisada pela moça, já que, excitado, o rapaz tem muito pouco apreço pela verdade. Isto é um fato. Mas, se os fatos contrariam minhas crenças ou meus interesses imediatos, assim como a moça do meu exemplo, eu quero que danem-se os fatos.

Adoto o ditado popular do "me engana que eu gosto". Porém, não podemos passar pela vida aplaudindo idéias estúpidas como se fossemos focas amestradas. Se meu leitor acredita que fazer uma oferenda para Iemanjá, jogando uma garrafa de champagne no mar, no primeiro dia do ano, isso vai lhe trazer sucesso o ano todo, então, pelo menos jogue uma champange importada e cara. Aquele orixá vai dar o troco na mesma proporção. Se pinchar no mar uma cidra vagabunda, vai receber a benesse do mesmo valor. A recompensa é sempre proporcional ao esforço. Óbvio! Nessas coisas de crenças ou busca da verdade, a pior escravidão é a do medo de pensar. O medo de duvidar é a mais covarde!       


07 Julho 2019 10:21:00


(Foto: Divulgação)


Presentearam-me, há alguns dias, com cinco livros. Quatro deles gostei muito. Devorei-os em menos de três semanas. Um, porém, só vai ocupar espaço na minha estante entre outros do mesmo gênero. Não consigo ler essas coisas de auto ajuda. Esses caras que escrevem fórmulas mágicas de "Como ganhar dinheiro fácil", "Como ser feliz", "Fortunas garantidas", e vai por aí afora, devem ser deuses. São perfeitos. Seguem a vida com regras invioláveis. Extremamente disciplinados. Não são pessoas, devem ser robôs. Leio dez páginas de um livro desses e já estou com o saco cheio. Só servem para aumentar a minha percepção do tamanho da minha incapacidade. Multiplicam minhas frustrações. Sei não! Tenho aqui minhas razões para desconfiar que sejam todos uns enganadores. Charlatões vendedores de livros. Esse negócio de auto ajuda ensina a beber água ilusória.

"Encontre seu verdadeiro eu". Besteira! Encontrar onde? Nem vou procurar, pois já me achei faz um tempão! Querem fundir minha cabeça querendo que eu mude. Tão fora! O velho ditado de que o pau que nasce torto morre torto, ainda tá valendo. Somos, queiramos ou não, produto do meio em que vivemos moldados pelas máscaras sociais. "Confie nos seus instintos". Que conselho estúpido! Vou confiar nos instintos de quem, se não nos meus? Como todo ser humano vivo com os meus medos, projetos irrealizados, falsas certeza, desejos sublimados, angústias. Claro que tenho medo do futuro, do imponderável, de não dar conta das minhas dívidas, de que o banco devolva meu cheque, de que me mandem para o SPC. Morro de medo que sujem minha ficha! Ora, o mundo é atravessado por contingências e imprevisões que não dependem da nossa vontade. Crises imprevistas, desilusões amorosas, doenças inoportunas, acidentes. Fazemos parte dessa indeterminação existencial. Não há plano de vida que um livro possa nos ensinar. Assim é, porque ninguém consegue lidar com todas as complexidades que aparecem no caminho de qualquer plano. Confiar num esboço de existência, moldado por um sonhador qualquer, seria limitar a liberdade da vida. "Ame quem você é." Vamos com calma! Gostar de si próprio é uma boa dica, mas é bom ficar alerta. Nem tudo em cada um de nós é naturalmente aceitável, ou louvável. Peneirando bem, penso que a parte ruim é muito maior que a boa. Daí, por prudência, vamos amar a parte aproveitável e administrar a ruim! Pode até parecer um paradoxo, mas até a tragédia muitas vezes é boa!   



30 Junho 2019 07:00:00

Precisava porque precisava falar comigo. Mas não queria ir ao meu escritório. Implorava que fosse até sua casa. Coisa estranha! O endereço era num bairro com fama de barra pesada. Mas ela insistiu tanto que resolvi ir até lá. Quando cheguei ela vestia um figurino que podia ser tudo, menos comum. Estava usando uma blusa listrada com cores fortes, luvas sem dedos e jeans preto cheio de zíperes. Calçava uns coturnos tipo militar com barbantes trançados.

Acredito que ela pensava ser maquiadora. Seus cílios postiços escuros e longuíssimos chegavam às sobrancelhas, e a sombra multicolorida fazia uma curva sinuosa na direção das têmporas. As orelhas, ambas, estavam repletas de rebites. No septo nasal, uma argola. Os cabelos estilo moicano, estavam tingidos de preto com pontas vermelhas berrantes. No pescoço uma tatuagem enigmática. Tinha, calculo pela sua aparente jovialidade, entre 25 a 28 anos. Mostrava uma humildade adestrada.

Pediu-me que entrasse. Relutei com a desculpa de que estava com pressa. Mas, num esforço de domar a educação que para essas coisas não tenho, assenti com um sorriso forçado. Uma sala no mínimo diferente. As paredes estavam cobertas de gravuras feitas sobre cartolinas e pregadas com tachinhas de cores variadas. Pinturas abstratas, maluquetes! Um lado, porém, estava pintado do chão ao teto num tom vermelho cereja. A janela, única, estava escondida por uma cortina de estampa florada em cores gritantes. Uma coisa horrível aquele ambiente! Deve ter sido o capeta quem o decorou!

Num canto observei um cavalete tosco, mal feito com ripas velhas, onde estava uma tela pintada pela metade, com pinceladas também de roxo e preto, aguardando uma nova inspiração. Havia ali um cheiro acre, pungente e achocolatado no ar. Numa estante, dentro de um pequeno vaso, algumas varetinhas aromatizantes. Não tive dificuldade para intuir que a moça tragava baseados com muita assiduidade. Ao perceber minha ansiedade disse-me que pintara muitas telas com motivações abstracionistas, e gostaria que eu comprasse algumas. Entendi ali o seu pedido da visita.

Em seguida, tirou de dentro de um tubo plástico um rolo de telas. Umas pinturas macabras, malucas! Presumi que foram elaboradas nos momentos em que ela viajava no mundo psicótico dos seus baseados. Fiquei sem saber o que dizer. São esses elementos de imprevisibilidade que desafiam a vida. Fingi gostar de um ensaio daqueles e comprei-o. Foi mais por pena da pintora hippie e também para não esmaecer sua ilusão artística. Também foi a forma de fugir logo dali!          


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