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Reflexões


(Foto: Divulgação)


Em alguns momentos, quando me estico no sofá, me assalta um pensamento recorrente: será que para o exercício da vida vale a pena tanta luta? Justifica-se, como diz o surrado refrão, matar um leão por dia?

Um amigo rico que tive, quando alguém lhe dava uma dica de investimento para o futuro, sempre repetia: pra quem? Realmente, a pergunta não é pra quê? Mas pra quem?

Se somos finitos, estabelecer limites para o trabalho e para a ambição é coisa para os sábios. Acumular riquezas em proporções tais que não vamos desfrutar é um ato de inteligência? Na maioria dos casos, a fortuna é foco de discórdia e desunião das famílias. Amontoar demais, então, pra quê?

Na medida em que me torno reflexivo e jogo luz na realidade, vejo coisas que não via. Daí alguma indignação e inconformismos me fazem aumentar a vontade de corrigir os erros.

Perguntei certa vez a um dos meus alunos adolescentes: qual é a sua motivação na vida? A minha é a vingança, respondeu-me. Ele era prisioneiro de um ambiente de total incompetência, deixara de viver sua vida para se tornar um vingador. Agia com afrontas diárias aos seus progenitores. Tatuava-se, enfiava piercing aqui e ali, deixava os cabelos longos e amarfanhados, trajava roupas agressivas e esquisitas. Se ressentia da incompetência dos pais, e se tornara rebelde na vida como forma de vingança. Ou seja, seus pais continuavam mandando nele, e aquilo o incomodava. Não podia reagir, porque era por eles sustentado. Coisa que não podia entender como nenhum jovem entende, é que os pais não agem assim por maquiavelismo ou manipulação. Daí era um rebelde, contrariando quase tudo e todos.

Havia na revolta daquele rapaz duas coisas que me encantavam: a percepção da complexidade do que motiva nossos atos, e a serena aceitação do exibicionismo excêntrico como parte saudável dele.

Então, retorno a primeira reflexão. Vale a pena tanta luta? Viver por exibicionismo? Assim, como um pavão esnobando seu rabo, vemos gente que exibe seus carros modernos, suas viagens internacionais, suas roupas de grifes, suas casas luxuosas, mulheres troféus bem produzidas e insinuantes. Mas, quase todos são incapazes de manter uma conversa de cinco minutos quando o assunto não focar só no dinheiro.

Sorte minha é que, se tais questionamentos existenciais me angustiam com frequência, tenho em Morfeu um aliado benemérito. Fujo da realidade com auxílio do sono, essa imperiosa e ao mesmo tempo deliciosa necessidade física.


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