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Autoajuda


(Foto: Divulgação)


Presentearam-me, há alguns dias, com cinco livros. Quatro deles gostei muito. Devorei-os em menos de três semanas. Um, porém, só vai ocupar espaço na minha estante entre outros do mesmo gênero. Não consigo ler essas coisas de auto ajuda. Esses caras que escrevem fórmulas mágicas de "Como ganhar dinheiro fácil", "Como ser feliz", "Fortunas garantidas", e vai por aí afora, devem ser deuses. São perfeitos. Seguem a vida com regras invioláveis. Extremamente disciplinados. Não são pessoas, devem ser robôs. Leio dez páginas de um livro desses e já estou com o saco cheio. Só servem para aumentar a minha percepção do tamanho da minha incapacidade. Multiplicam minhas frustrações. Sei não! Tenho aqui minhas razões para desconfiar que sejam todos uns enganadores. Charlatões vendedores de livros. Esse negócio de auto ajuda ensina a beber água ilusória.

"Encontre seu verdadeiro eu". Besteira! Encontrar onde? Nem vou procurar, pois já me achei faz um tempão! Querem fundir minha cabeça querendo que eu mude. Tão fora! O velho ditado de que o pau que nasce torto morre torto, ainda tá valendo. Somos, queiramos ou não, produto do meio em que vivemos moldados pelas máscaras sociais. "Confie nos seus instintos". Que conselho estúpido! Vou confiar nos instintos de quem, se não nos meus? Como todo ser humano vivo com os meus medos, projetos irrealizados, falsas certeza, desejos sublimados, angústias. Claro que tenho medo do futuro, do imponderável, de não dar conta das minhas dívidas, de que o banco devolva meu cheque, de que me mandem para o SPC. Morro de medo que sujem minha ficha! Ora, o mundo é atravessado por contingências e imprevisões que não dependem da nossa vontade. Crises imprevistas, desilusões amorosas, doenças inoportunas, acidentes. Fazemos parte dessa indeterminação existencial. Não há plano de vida que um livro possa nos ensinar. Assim é, porque ninguém consegue lidar com todas as complexidades que aparecem no caminho de qualquer plano. Confiar num esboço de existência, moldado por um sonhador qualquer, seria limitar a liberdade da vida. "Ame quem você é." Vamos com calma! Gostar de si próprio é uma boa dica, mas é bom ficar alerta. Nem tudo em cada um de nós é naturalmente aceitável, ou louvável. Peneirando bem, penso que a parte ruim é muito maior que a boa. Daí, por prudência, vamos amar a parte aproveitável e administrar a ruim! Pode até parecer um paradoxo, mas até a tragédia muitas vezes é boa!   


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