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O velho

A idade abre a torneira das banalidades

Carlos Homem


(Foto: Divulgação) /

Tem uma idade que transita entre seus 80 a 85 anos, mas com uma lucidez invejável. Conheço-o de longo tempo. Disse-me, logo em seguida a um cumprimento muito educado, que queria fazer uma consulta. Não foram necessários mais de cinco minutos de conversa para perceber que ele não consultava coisa nenhuma. Era mais uma curiosidade do que uma dúvida legal. Desconfio até que ele queria mesmo era bater papo.  

Os velhos gostam de falar muito e repetidamente sobre coisas sem importância. Navegam nas senilidade. A idade abre a torneira das banalidades. Queria saber se havia algum fundamento nesses comentários de que o governo usa as vacinas contra a gripe para despachar os velhos, e também para ter menos despesas com a previdência e aposentadorias. Contive meu riso e fazendo uma cara dissimulada de introspecção, afirmei que isso não tinha nada de verdadeiro. Não se deu por vencido, acrescentando que alguém lhe disse, ou ele leu, ou ele escutou, que os governos querem sempre controlar o aumento da população por razões econômicas. Bobagem! Retruquei, isso não existe! Isso é conversa tola de certas pessoas!

 Não adiantou, sacou do seu repertório mais um argumento que trazia pronto: - Então o senhor não sabe que os governos têm um controle populacional e despejam até produtos químicos na água encanada para matar as pessoas? Eu, por prevenção só bebo água em garrafa, falou ele revirando os olhos para mostrar desconfiança. Resolvi então tirar um sarrinho do meu pseudo consulente, dizendo: - Tenho ouvido muito que essas pílulas que dão mais ânimo para os homens, chamadas de azulzinhas, na verdade é que estão matando os velhos mesmo! A quase centenária vivência do meu visitante veio em seu socorro e ele se esquivou com maestria: - Olhe doutor, tenho visto falar muito nisso, mas eu faço acupuntura, hidroginástica, homeopatia, eletrochoque, chá de catuaba. Não preciso desses comprimidos que o senhor falou aí!

Senti no meu interlocutor a velha masculinidade ameaçada. Aquela carapaça do ataque, do machismo latino, da vantagem viril. O homem, nessas questões de sexualidade, seja lá a idade que tiver, é gabola e mentiroso. Mas, no papo com o velho apliquei a fórmula da paciência no lugar do convencimento. Não querendo melindrá-lo, encerrei: - Fico muito obrigado ao senhor por me revelar essas coisas. Vou me cuidar! Não tomo mais vacina para gripe e nem água encanada!


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