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Reciclagem


(Foto: Divulgação) /

Depressão e pânico. Virou epidemia. O bicho humano tanto fez que acabou inventando e sendo vítima das suas doenças sociais. Quando não estamos lambendo as nossas próprias feridas, estamos sempre acudindo os outros nas suas tempestades íntimas. É curioso como somos fracos, mas queremos nos mostrar fortes. Sei lá se é uma constatação errada, ou talvez uma visão distorcida, mas vejo na maioria das pessoas uma tendência de angústia e aflição. Estamos todos nos sentindo inseguros. Uma sensação de que o futuro tem coisas ruins guardadas.

As conversas entre duas ou mais pessoas descambam logo para lamentações, reclamações, queixas das mais inusitadas. Falar sobre doenças então é um comportamento mórbido das pessoas. Cruzes! Como sentimos pena de nós mesmos! Como gostamos de contar nossas enfermidades e nossos sofrimentos ou tropeços. Como se o fato de compartilhar nossos dissabores e infortúnios nos trouxesse uma espécie de lenitivo.

Queremos que os amigos se condoam dos nossos problemas. O que será que está acontecendo? Vejo tantas mensagens de otimismo e de fé nas redes sociais. Pesquiso rapidamente a vida desses mensageiros e constato que são também pessoas com conflitos. Por que mentem? Para mostrar que estão bem, que são vitoriosos, que não se deprimem? Ora, ora, quanto mais se padece do leite derramado, pior fica não é verdade? A posição que pode nos salvar é a cabeça erguida, os olhos no horizonte, os ombros erguidos. O vacilo, a dúvida, a angústia, a lamuria, não ajudam em nada.

De nada adianta ficar endeusando uns ícones mundiais, sejam artistas televisivos ou reais, que todos eles também curtem os mesmos problemas, ou maiores. Carlos Drummond, num dos seus poemas, diz que "não é fácil nascer de novo". Verdade! Mais difícil ainda é quando o renascer implica em dar uma volta de 360 graus. Fazer tudo novo, começar no zero, sem nenhuma preocupação com a aprovação dos outros.

É dever de todos nós serrar com paciência e determinação, com um pequeno pedaço de lima, dia após dia, as grades da nossa própria prisão. Temos que cutucar a nossa capacidade de ver além da rotina, da mesmice de cada dia, do tédio que e o trabalho repetitivo nos causa. Tá louco! São tristes as roupas penduradas, os quadros das paredes, as fotografias sobre as cômodas, as frutas apodrecendo na fruteira, as revistas velhas que já deviam ter sido jogadas fora. Já é hora de nos reciclarmos. Não é?        

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