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OPINIÃO

Simpatias II

'A mandinga que fiz, quem a faz não deve contar para ninguém'

Por Carlos Homem

Talvez por ser descendente de açorianos, minha mãe tinha uma coleção de crendices e simpatias. Quando menino, e isso já faz um tempão, ela intuiu que me nascia um papo, conhecido por bócio. Aquela inflamação da glândula tireóide. Então mandou que eu pegasse um barbante e medisse a circunferência do meu pescoço e em seguida fosse num mato e amarrasse aquele mesmo cordão numa árvore com círculo coincidente. Assim fiz. Naqueles idos mãe mandava. Só restava dizer "sim senhora"! Ela estava equivocada, porém, na sua interpretação intuitiva.

Nunca tive papo anatômico, mas cresci como um papudo social! Pois bem. Já adulto, mas jovem, fui numa oportunidade caçar perdizes. Seguindo o cachorro de um lado para outro naquelas sinuosas trilhas que os perdigueiros fazem, encontrei duas cobras enroladas que atendiam ao instinto natural de reprodução da própria espécie. Não tive dúvidas. Empunhei a espingarda e no momento em que aproximaram as cabeças com um só tiro matei as duas. Quando cheguei ao acampamento contei meu feito aos companheiros. Um senhor que nos acompanhava e que assava a carne, repreendeu-me. Disse que eu havia botado a sorte fora.

Lamentei, mas o mal já estava feito. Ensinou-me que se acontecesse outra vez de encontrar um casal de cobras naquelas circunstâncias eu devia fazer assim, assim e mais assim. Uma simpatia bastante singela. E assegurou-me: - Se tiver essa sorte de novo, nunca mais faltará dinheiro no seu bolso! Alguns anos depois fui pescar no Rio Bonito, lá no Mato Grosso. Porque faltou isca viva, encostei a canoa, peguei uma pequena tarrafa e saí pelo campo em busca de uma lagoa qualquer onde se pegava um peixinho lá denominado de `jejum´.

Foi quando as encontrei de novo. Duas cobras não tão grandes quanto as primeiras, estavam também enrodilhadas naquela função reprodutora. Alheias ao mundo, como fazem nesses momentos todos os da espécie animal! Lembrei do que me havia sido ensinado na mesma hora. Embora ainda cético, como continuo sendo, fiz o ritual. Virei às costas e fui embora. Coincidência ou não, mistérios indecifráveis, forças naturais incompreendidas, pensamento positivo, auto sugestão, poderes incognoscíveis, sei lá, a verdade é que depois daquele sortilégio jamais me faltou dinheiro, embora, é claro, não seja eu um pródigo malversador. Ah! Quase ia esquecendo. A mandinga que fiz, quem a faz não deve contar para ninguém. Perde o efeito. Portanto, não me perguntem! Mesmo porque, ainda que se procure, não é nada fácil encontrar um casal de cobras fazendo amor. Mas encontrei duas vezes!


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