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OPINIÃO

Dona Dileta

Fui o emissário subjugado do inimigo!


(Foto: Divulgação) /

Há vivências que enriquecem o passado e adoçam a nostalgia da vida. Dona Dileta! Era assim que todos a chamavam. Durante todo o tempo em que foi nossa vizinha, nunca soube o seu nome bem certo. Também nunca quis saber. Guri tá sempre se lixando para o nome correto das pessoas. Moleque curte a vida, não o mundo. O terreno da casa onde ela morava extremava com o da nossa. A cerca divisória já quase não se mantinha em pé. Ripas apodrecidas, algumas caídas, muitas faltando, os mourões adernados. Mantinha-se ainda na vertical sustentada pelos baraços das trepadeiras.

A nossa casa era bem modesta, construída com madeiras, já estava velha e desbotada. A da dona Dileta também era de madeiras, mas bonita, grande, pintada a cada passo em cores vivas, alegre. Ela cuidava com esmero um pequeno pomar dos fundos. Nos dias de Verão eu ficava cobiçando pela janela aquelas frutas. Principalmente as romãs. Lindas, tostadas, enormes, provocantes!  

Tão grandes que vergavam os galhos onde estavam dependuradas. Algumas até rachavam de tão maduras, mostrando os grãos internos vermelhos e transparentes. A minha boca babava como a de um cachorro faminto. Mas as romãs da dona Dileta começaram a desaparecer aos poucos sem que ela as colhesse, e sem que caíssem de maduras. Ela sabia muito bem que havia um ladrãozinho ali por perto.

O gatuno que a estava furtando imaginava que pegando só uma fruta por dia ela não daria pela falta. Quando dona Dileta precisava de mim eu estava sempre pronto. Ia à venda buscar alguma coisa, na padaria, no açougue, onde fosse necessário. Devolvia sempre o troco do dinheiro bem certinho. Mas havia no rosto daquela senhora uma expressão maliciosa e um olhar que me incomodava. Tinha a nítida impressão que ela lia minha alma. Jamais falou ou me deu um pito, mas não ignorava que as suas romãs estavam depositadas na minha barriga.

Nunca me perguntou, nem insinuou nada. Intuía que, com a maior cara de pau, eu morreria negando. E de certeza que eu negaria! Hoje tenho a compreensão que ela usava meus préstimos, fazendo-me seu piá de recados, diante de uma chantagem tácita. Ela não revelaria a ninguém minha gula furtiva pelas suas romãs, e eu, em contrapartida, lhe prestaria serviços eventuais gratuitos.

Fui o emissário subjugado do inimigo! Dona Dileta foi muito mais esperta do que eu! Demorei um tempão para descobrir que um menino de 11 anos jamais levaria vantagem sobre a sabedoria daquela idosa de cabelos brancos.

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