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OPINIÃO

O sabiá

Por Carlos Homem


(Foto: Divulgação) /

Frio de julho. Muito frio. Um inverno úmido, cara feia, azedo. Hoje está um dia de semblante austero, fosco. Um dia triste que nos contagia, mas na própria tristeza tem luz. Fico olhando ensimesmado através do vidro suado da minha janela. Lá fora está tudo muito quieto. As pessoas estão escondidas, tentando fugir do clima doentio. Os noticiários informam a possibilidade de neve. Anunciam sempre, mas nunca chegam os tais capuchinhos brancos de gelo. Frustram sempre meu desejo de fazer bonecos e jogar bolas de neve nos outros. Tirar fotografias também. Muitas. De todos os ângulos, para registrar os tempos e mostrar aos amigos no futuro.

Ali na grama vejo um sabiá andando com seus pulinhos inconfundíveis. É só dele, de mais ninguém, aquele jeito de caminhar e abanar o rabo. Está procurando uma minhoca distraída qualquer que lhe permita saboreá-la. Invejo aquele passarinho neste momento. Só tem um único objetivo que é o de manter-se vivo. Sabe que a existência se resume na compulsória obrigação de viver. Tudo o mais é fantasia, ilusório, inútil. Ele não sabe fazer esta análise, não se questiona não se conflita. Não lhe motiva a ambição, o poder, o preconceito, a vaidade. Nem lhe importa compreender o sentido da vida, se é que a vida tem algum sentido. A natureza o gratificou tirando-lhe a capacidade de pensar, daí não se julga superior a ninguém. É feliz por ser igual aos seus semelhantes.

O sabiá está ali, alheio ao mundo, mas me ensinando que a vida pode ser bem simples. Que o viver é incerto e que a única coisa que temos é o agora. O que realmente tem valor é de graça na natureza. Olhar, ouvir, cantar, comer, dormir, caminhar, voar, acasalar. A riqueza está na conjugação e usufruto desses verbos. Apenas neles. O sabiá ignora essas tormentas interiores do bicho humano. Quisera ser assim! Talvez até possa, assumindo a ignorância voluntária como uma espécie de estratégia. Não querer entender é também uma forma de sabedoria. Quem sabe seja este o segredo do sabiá. Não é inteligente querer que as coisas sejam todas certinhas, e nem mesmo querer entender as razões de tudo.

Abandonar essa ideia fixa que incendeia, sem que se dê conta, os mistérios e fadigas do charco estagnado da vida. Não adianta despedaçar o sentido da nossa existência em busca de respostas se só encontramos mais perguntas. Então, sem aviso, sem compromisso e sem rumo certo, ele voou. Levou consigo minha inquietação e retornei ao mundo dos humanos. Só me restou permanecer ali, agora olhando a chuva e curtindo o frio!      

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